Numa segunda-feira ao fim do dia, à sala do IPDJ, na Rua de Moscavide, vão chegando mulheres e homens, que se sentam na plateia do auditório, à espera do início do ensaio. Vivem quase todos no Parque das Nações, alguns também lá trabalham. Hoje, estão uns vinte. Cinco homens, o resto mulheres. São atrizes e atores amadores do Teatro das Nações.

Catarina Vargas, a encenadora, chama-os ao palco. A próxima peça será sobre o amor e o “aquecimento” faz-se andando de um lado para o outro. “Atenção aos espaços vazios”, diz Catarina, que vai lançando desafios. O primeiro é, a pares, representarem um pedido de casamento. Depois uma cena de ciúmes, e um primeiro encontro, e uma despedida, e uma serenata, e uma traição, e um engate e por aí fora. Entre cada momento, volta a circulação em palco. “Atenção aos espaços vazios.”

O Teatro das Nações, dirigido por Catarina há quatro anos, abre audições anualmente, para que os fregueses possam entrar. Em setembro de 2025, chegou muita gente nova e os pedidos superaram as expetativas. “As pessoas querem muito”, diz a encenadora, que reparte a vida entre três profissões: professora de teatro numa escola da freguesia, encenadora e celebrante de casamentos. Sob a sua direção, o grupo faz três peças por ano e recusa a rotina. “Aborrece-me fazer tudo igual.” Por isso há espetáculos de sala e espetáculos de rua, adaptações e criações coletivas.

Um palco onde podes ser quem tu és

Há pessoas que estão no Teatro das Nações há dez anos, desde que o grupo começou, e outras que entraram há seis meses, na última audição. Quando se apresentam, a distância entre a mais velha e a mais nova é de quase sessenta anos: Almerinda tem 81, Rita tem 24. Pelo meio, cabem várias idades, profissões, temperamentos, motivações, e uma coisa em comum: a vontade de estar.

“Eu vim porque ouvi dizer que era aqui que se reuniam os Manuéis todos», graceja um dos que entrou este ano. Não exagera muito. Há o Manuel Vieira, cabeleireiro, e há o Manuel Sardinha, psiquiatra, que se apresenta como «o Manuel II, porque o primeiro, obviamente, é o Vieira” – e ainda outros Manuéis e uma Manuela. Há também quem tenha inventado um alter ego: João Fino é, em palco, Johnny K.

Raquel Fortunato, ao centro, está no Teatro das Nações desde o início, há dez anos. O João Fino, a Lucília Silva e a Rita entraram em setembro do ano passado. Catarina Vargas, entre o João e a Raquel, “conduz” o grupo há 4 anos. Foto: Rita Ansone

Raquel Fortunato, 52 anos, filha da revolução de Abril – “nasci a 22 e saí da maternidade no dia 25” –, é engenheira química, diretora-geral de uma empresa de biotecnologia e uma das três “primeiras freguesas” do Teatro das Nações que continuam no grupo. Com uma vida cheia, entre trabalho e família, procurava um tempo só para ela. Há dez anos encontrou mais do que isso. “É um sítio onde posso estar completamente à vontade, sem julgamentos e sem ter de me preocupar em dar o exemplo.”

Maria Dulce, outra das pioneiras, farmacêutica com queda para a comédia, ainda não refeita da entrada recente na década sexy, de sexagenária, resume com graça a sua relação com o Teatro das Nações: “Acho que foi um erro de casting, estou farta de dizer isto, mas a verdade é que entrei há dez anos e não quero sair.”

Almerinda, Júlia (sentadas no chão), Rita, Judite, Maria Dulce, Isabel e Sónia. Veteranas e estreantes, sentem-se aqui todas como em família. Fotos: Rita Ansone

Para Júlia Silveira, Jú, a terceira das “veteranas”, técnica superior no Ministério da Justiça, o grupo foi a concretização de um sonho de miúda. Desde pequena tem paixão pelo teatro, mas só há dez anos, aqui ao pé de casa, conseguiu consumá-la. “Não falhei uma única peça. Tem sido uma tremenda aventura, que trouxe amigos e um grande crescimento pessoal”, diz. O palco é onde a extrovertida que aparenta ser se concilia com a tímida que também é: “Aqui consigo gerir as minhas emoções.”

Foi um pouco por aí que Rita, psicóloga na área dos recursos humanos, chegou ao Teatro das Nações, num momento particularmente complicado da vida: “Quando me juntei, tinha acabado de vir de charola para casa com um burnout.” Uma amiga insistiu que não podia ficar fechada e Rita entrou para o coro e para o teatro. Seis anos depois, continua: “Para mim, o teatro é uma terapia. Às vezes não me apetece nada vir, mas obrigo-me e saio daqui sempre muito melhor do que entrei, porque me tira de mim, me faz zangar e rir.”

Ana Vinhas, à esquerda, juntou-se ao Teatro das Nações por amor ao teatro, que fez em jovem, a seguir ao 25 de Abril de 1974, mas também para encontrar alicerces na freguesia onde vive. E conseguiu. Foto: Rita Ansone

Ana Vinhas também chegou porque a vida sofreu uma reviravolta e sentiu necessidade de encontrar alicerces no lugar onde vive. Não foi uma estreia absoluta: depois do 25 de Abril, fizera parte de um Grupo de Dinamização Cultural e levara o teatro pelo Alentejo inteiro. Agora, no Teatro das Nações, a técnica da Autoridade para as Condições de Trabalho encontrou outra coisa: “Somos todos especiais aqui dentro, vamo-nos conhecendo, aproximando uns dos outros e ganhando uma rede.”

A Fernanda, 46 anos, brasileira, atriz profissional no Brasil e auxiliar de educação em Portugal, a única imigrante do grupo – como ela própria faz questão de notar –, nunca falta, por mais cansativa que tenha sido a segunda-feira na escola onde trabalha. Sentia falta do contacto, da troca, da criação coletiva. “Isso estava fazendo muita falta na minha vida. A partir do momento em que entrei, veio um respiro.”

Um grupo de teatro em construção

Catarina Vargas gosta de partir de uma pergunta, não de um texto. No Teatro das Nações, já trabalharam o tema da viagem, em que cada ator trouxe a sua ideia de jornada – uma falou da própria vida, outra do fim da memória. Nos 50 anos do 25 de Abril, investigaram alguns dos últimos presos políticos libertados em 26 de abril de 1974 e fizeram uma peça sobre isso. Agora investigam o amor, sem saberem ainda aonde vão chegar. “Estamos em construção”, diz.

Catarina Vargas é a encenadora do Teatro das Nações e gosta de criar em coletivo. Leva a cena, com o grupo, cerca de três peças por ano. Fotos: Rita Ansone

Para quem chega habituado ao teatro de texto, é um susto. Cila – Lucília Silva, professora de Português reformada que, assim que deixou de dar aulas, foi à procura de um palco – confessa o receio inicial. “O teatro era aquele tradicional, o texto, e eu sou uma mulher de palavras. Perguntei à Catarina: e não tem texto? E ela: pode ter ou não ter.” Foi para casa convencida de que não ficaria. Ficou. “Estou a adorar.”

O grupo já fez teatro numa biblioteca, de olhos vendados, levando o público numa viagem pelos sentidos, e, no início de 2026, na celebração dos dez anos, recuperou uma das peças mais bem-sucedidas do seu percurso – uma comédia sobre uma reunião de condomínio, a partir de textos de José de Figueiredo e do Teatrão, agora com o título Vidas Condomínias 2.0 –, que passou por vários espaços da freguesia.

Levar o teatro para a rua é outra prática cultivada pelo Teatro das Nações. “Quando apresentámos o primeiro espetáculo de rua, o presidente da junta de freguesia lembrou, e eu não tinha pensado nisso, que era quase como trazer de volta os tempos da Expo 98, dos Olharapos e de quando havia sempre espetáculos a acontecer nas ruas”, conta Catarina Vargas. “Esta freguesia tem cenários incríveis. Está mesmo a pedir para sairmos.”

Rita, Sónia, Rita e Raquel, “inspecionadas” por Manuel Vieira I, cabeleireiro, ator amador e residente no Parque das Nações “desde que existe” Parque das Nações. Foto: Rita Ansone

Manuel Vieira, que “desde pequeno” faz “teatro amador e coisas aos cabelos”, vive no Parque das Nações desde que existe Parque das Nações. Esteve 30 anos no Teatro de Carnide e, quando o grupo acabou, andou à procura sem que nada o seduzisse – até encontrar o Teatro das Nações. Ao lado de casa, sim, mas sobretudo porque aqui podia mexer com a freguesia e com os fregueses e criar “um espírito de bairro”. A nova peça, a estrear em julho numa praça da freguesia, vai nesse sentido. “Cada espaço a que vamos é um espaço que estamos a valorizar e onde vamos dar-nos a conhecer.”

De fregueses a vizinhos ou como num palco se pode fazer um bairro

A freguesia do Parque das Nações é recente: criada em 13 de novembro de 2012, foi erguida sobre o recinto da Expo 98, a que se juntaram partes dos territórios de Santa Maria dos Olivais, Sacavém e Moscavide.

Judite, 66 anos, psicóloga na Direção Municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, onde recolhe memórias dos bairros, vive ali há 22 anos e só há pouco tempo passou a sentir-se em casa. Já esteve noutros grupos de teatro amador – onde pagava para estar, enquanto este é gratuito –, mas este trouxe-lhe uma experiência valiosa. Até vir para o grupo, não conhecia os vizinhos nem fazia vida de bairro. “De repente, passei a conhecer gente nova, a ter vizinhos que são amigos, ligam-me a saber se está tudo bem, ou, agora que estou lesionada, vão buscar-me a casa. É uma vida de comunidade que eu não tinha.”

Judite, psicóloga e técnica superior da Câmara Municipal de Lisboa conta como, vivendo no Parque das Nações, há mais de vinte anos, foi aqui, neste grupo de teatro amador, que criou raízes no bairro, amigos, vizinhança, comunidade. Foto: Rita Ansone

Isabel, 28 anos, bióloga, nem sequer vive na freguesia – trabalha aqui, no Oceanário – e foi precisamente essa ideia de comunidade, somada à vontade de voltar ao palco onde a timidez dos tempos de escola se desfazia, que a levou a inscrever-se na audição.

Esse pertencer ganhou forma, por exemplo, quando o grupo saiu na primeira página do jornal do Parque das Nações e a dona Rosa, da mercearia, andava exultante, a mostrar a toda a gente as “freguesas famosas”. “Abria o jornal e dizia: conheço esta, e também conheço esta”, recorda Judite, a rir. Com os alunos de Catarina Vargas aconteceu o mesmo: levaram o jornal para a escola, com a professora na capa.

Sónia sempre quis ser atriz, a mãe não deixou, mas ela não desistiu. O Teatro das Nações é uma nova oportunidade. Foto: Rita Ansone

Sónia, 52 anos, outra «filha da revolução», sempre quis ser atriz, mas a mãe não deixou. Hoje é polícia, mas não gosta de fardas. Em miúda, passava o tempo a vestir roupas diferentes e a falar sozinha. “Diziam que eu era maluca, mas eu não queria saber.” Em vez de brincar com as crianças da idade dela, preferia a companhia da Ti Maria, uma vizinha velhota que só tinha um dente. “Ela fingia ser uma pessoa e eu era outra. Foi com ela que fiz teatro pela primeira vez.” Apesar da proibição materna, não desistiu. Há meses inscreveu-se no Teatro das Nações e cá está. “Não sei se vou ser capaz, mas é um desafio e eu adoro desafios. Ainda não perdi a esperança.”

Aos sábados, a geração que vem a caminho

A história continua cinco dias depois, com os mais novos. Aos sábados de manhã, o mesmo IPDJ recebe os grupos infantil, Trupe em Cena (dos 7 aos 11 anos), e juvenil, Risca a Cena (dos 12 aos 16), ambos orientados pelo ator e encenador Miguel Cavaco, 34 anos – fez teatro profissional, trabalha hoje sobretudo em locuções e publicidade –, que acompanha o projeto quase desde o início.

O grupo Trupe em Cena, com miúdas e miúdos dos 7 aos 11 anos, é o primeiro a ensaiar aos sábados de manhã. Foto: Rita Ansone

O mesmo sketch, representado duas vezes na mesma manhã, parece duas peças diferentes. Primeiro fazem-no os mais novos, depois os mais velhos, e o que num grupo lembra o teatro do absurdo no outro ganha corpo e sentido. “Uns com 12 e uns com 15 já têm uma interpretação completamente diferente”, diz Miguel Cavaco. “Há sketches que não faço com os mais novos, porque penso que têm uma conotação que eles ainda não vão perceber. Mas também acontece darem-lhe uma interpretação completamente diferente e de que até gosto mais do que a original.”

Hoje trabalham sketches de Karl Valentin, comediante alemão do início do século XX que, nas palavras do encenador, “está para o teatro como o Chaplin está para o cinema”. Curtos, entre o absurdo e o cómico, têm uma vantagem prática: como os grupos só ensaiam uma vez por semana e é raro estarem todos, o formato permite contornar as falhas.

Dos oito aos oitenta

Do Risca a Cena original, criado depois do grupo de adultos, resta um fundador no ativo: o Vicente. Os miúdos crescem depressa e foi isso que levou à abertura do segundo grupo, a Trupe em Cena, para os mais pequenos. Hoje a divisão faz-se ali pelos 12 anos, mas sem rigidez. “Tem um bocado a ver com a maturidade”, explica o encenador. A Alícia e o Tomás são da mesma turma na escola e cada um pertence a um grupo diferente no teatro.

São todos da freguesia e chegaram pela mesma razão: o desejo de fazer teatro. “O nosso foco não é que eles saiam daqui as maiores estrelas de Hollywood”, diz Miguel Cavaco. “E é engraçado que os que entram mais numa de ‘eu quero ser famoso’ não ficam muito tempo. O nosso objetivo é sobretudo dar-lhes competências para a vida.”

Miguel Cavaco com o grupo dos mais velhos, o Risca a Cena. Foto: Rita Ansone

Miguel conta a história que a mãe de uma miúda do Risca a Cena lhe contou. A jovem estava a ter problemas na escola porque dizia à professora que não tinha feito os trabalhos – que tinha feito – só para não correr o risco de ir ao quadro apresentá-los. Ao fim de uns meses no grupo, era ela que levantava o dedo a oferecer-se para apresentar.

Depois há o crescimento, que é sempre um espanto para quem está de fora. “O Vicente mudou a voz de um verão para o outro», ri-se o encenador. A Kika, «que era um bebezinho autêntico” quando entrou, já vai no quarto ou quinto ano e a mudança é enorme. “Do primeiro para o segundo ano, há uma evolução brutal neles. Ficam muito mais à vontade.” Miguel desconfia que o teatro leva crédito a mais: “Se calhar pensam que foi aqui que ganharam as ferramentas, mas foi na vida normal, só que, por estarem aqui, olharam a mesma situação com olhos um bocadinho diferentes.”

E eis que os Trupe em Cena se despedem do respeitável público. Foto: Rita Ansone

E há alguns que querem mesmo seguir o palco. O Salvador, no terceiro ano, é dos mais empenhados: vai a audições fora do grupo e é ele que avisa o encenador das próximas. A Carolina, também com três anos de casa, “cresceu imenso como atriz” e entrou entretanto numa escola profissional de teatro – mas ficou também aqui. No espetáculo que agora preparam, é assistente de encenação: vai fazer as luzes e a música e ajudou nos figurinos.

Dez anos depois de ter começado, o encenador admite que às vezes perde a noção do tempo e acha que não está muito longe da idade deles. É essa, talvez, a medida do que ali se faz: um lugar onde os miúdos crescem depressa e os adultos envelhecem devagar.

Vinte e dois de cerca de trinta atrizes e atores que compõem o grupo Teatro das Nações. “É de bater palma, mesmo”, dizia a certa altura Fernanda (na fila de cima, à esquerda), brasileira, atualmente a única imigrante do grupo, sobre a coesão, participação e longevidade deste coletivo de teatro amador. Foto: Rita Ansone

De regresso à segunda-feira, o elenco dos mais velhos parece adivinhar esta conversa. “As pessoas deste grupo de teatro, independentemente da idade, aparentam todas ser muito mais jovens”, diz Jú. Manuel Sardinha, psiquiatra reformado, que fez sessenta mais dez anos, concorda e promete continuar «até aos 80 ou 90, como o Ruy de Carvalho, que aos 99 vai voltar aos palcos». Almerinda, 81 que parecem muito menos, fala em segunda juventude: “Acho que o teatro é vida. Mantém-me ativa, mental e fisicamente.”

O Parque das Nações, a freguesia mais jovem de Lisboa, talvez ainda esteja à procura de raízes. É bem capaz de as encontrar à segunda-feira à noite e ao sábado de manhã, nos vizinhos, dos 8 aos 80 anos, que se juntam num palco e dele fazem um bairro.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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