À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

“Quero cantar como a rola, quero cantar como a rola, como a rola ninguém canta.” Uma Gotinha de Água, moda tradicional do Baixo Alentejo, une as vozes das cerca de 30 pessoas, a maioria mulheres e todas acima dos 65 anos, dispostas em círculo à volta de Joana Negrão, a maestra do Cant’Alegre, o coro da Quinta Alegre.

São da freguesia de Santa Clara e da vizinha Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e juntam-se para cantar todas as terças-feiras, ao início da tarde. De vez em quando, se a música puxar e as pernas deixarem, também dançam, como a Paixão, de 90 anos, corpo magro e frágil, mas o mesmo espírito galhofeiro de quando era varina, que, mal vê uma aberta, dá a mão à Andreia, da equipa da Quinta Alegre, e vai ao centro da roda dançar.

Foi pelas “Paixões” de Santa Clara que começou a Música Andarilha, um dos projetos mais antigos deste espaço cultural e que deu origem ao coro Cant’Alegre. Numa ronda pelas instituições, disseram a Susana Duarte, coordenadora da Quinta Alegre – Um Teatro em Cada Bairro, que as pessoas mais velhas gostavam muito de cantar. Ela tinha visto um filme de Sérgio Tréffaut que acompanhava um grupo de seniores que se juntavam num jardim do Rio de Janeiro para cantar. Não importava se sabiam cantar, importava o encontro.

Foto: D.R.

“Nós temos um jardim, temos uma árvore, vamos fazer isto, pensei eu”, lembra Susana, que convidou a compositora Teresa Gentil, a quem se juntou o músico Nuno Cintrão, e desenvolveram a oficina Música Andarilha, para os mais velhos da freguesia, com a colaboração de instituições locais – da ERPI aos centros de dia e à Associação de Reformados da Charneca. “Era para durar seis meses e já lá vão mais de três anos e vários concertos”, conta Susana.

Joana Negrão é a maestra do coro Cant’Algre desde setembro de 2025. Foto: D.R.

A cantautora Joana Negrão, A Cantadeira, herdou o projeto no fim do ano passado. “Quando cheguei, estavam um bocadinho de pé atrás: ‘quem é esta que para aqui vem com estas músicas esquisitas?’, pensariam eles.”

De maneira que foi tentativa e erro, com canções tradicionais do cancioneiro alentejano e beirão e umas modinhas mais populares para dançar. Quando Joana deu conta, diz ela, “já éramos as melhores amigas. Todas as terças-feiras, caminhamos mais um bocadinho.”

O caminho faz-se no antigo Palácio do Marquês de Alegrete, no Campo das Amoreiras, freguesia de Santa Clara, onde funciona, desde finais de 2021, a Quinta Alegre, um lugar de cultura nascido com a premissa de levar as artes, todas elas, aos territórios onde a oferta cultural escasseia – razão pela qual, em 2023, passou a integrar o programa municipal Um Teatro em Cada Bairro. Um lugar que vai sendo construído coletivamente, de forma participada, e que nunca está acabado.

Ainda bem.

“Ena, tatuagens de parede!”

Propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e cedido à Câmara Municipal para fins culturais, o palácio foi construído no início do século XVIII como solar de veraneio por Manuel Teles da Silva, 1.º Marquês de Alegrete. Um século depois, José Bento de Araújo mandou decorar tetos e paredes interiores com pinturas neoclássicas, como então se usava.

Susana Duarte conta a história do lugar e não é por acaso que as pinturas vêm à baila. Além de serem a alma da casa, têm sido inspiração para muito do que ali acontece.

Uma vez, um miúdo que veio pela primeira vez com a escola olhou em volta e disse: “Ena, tantas tatuagens de parede!”. Da exclamação nasceu uma oficina de artes visuais, concebida e realizada pela artista visual Andreia Salavessa, convidada a explorar a ideia da pintura mural – o que se pintava, porquê, o que se pintaria hoje. Chamou-se “Tatuagens de Parede” e abriu-se às escolas, durante a semana, e ao público em geral, ao fim de semana.

De outra vez, foi uma menina que confessou que o que mais queria era pintar as paredes da Quinta Alegre. “Eu disse-lhe que não se podia, mas que ia arranjar uma solução. Então, convidámos a ilustradora Maria Remédio, que, em 2022 e de novo no ano passado, criou o Laboratório (In)visível, uma das oficinas mais bonitas que tivemos”, conta Susana. “Com acetatos e retroprojetores, cada criança desenhava o próprio rosto ou o da família e projetava-o nas paredes. Era pintá-las sem as pintar. Os miúdos adoraram.”

Derrubar paredes, salvo seja

Susana Duarte vai apresentando os espaços, no piso de baixo, no de cima e, claro, no jardim, partilhado com a ERPI. Na Quinta Alegre, tudo serve para tudo. As paredes não são fronteiras, os espaços não estão formatados, e a liberdade e a criatividade são o que mais ordena. Nas salas maiores, do piso de cima, que têm capacidade para 30 ou 40 pessoas no máximo, acontecem as sessões de cinema, teatro, artes performativas ou concertos; nas restantes, oficinas e exposições.

No dia em que se celebrou na Quinta Alegre o aniversário da Associação Lugar Comum, com o evento Ka Ten Cerimónia, várias salas foram transformadas em galeria. Foto: Líbia Florentino

A cozinha, onde a equipa almoça todos os dias, já serviu de palco e acolhe oficinas de culinária ou eventos como o de uma escola vizinha, que levou mães e crianças a fazer biscoitos no Dia da Mãe. O sótão, para o qual não existe elevador, não recebe atividades, porque estas, por princípio, têm de ser acessíveis a toda a gente, mas é usado para ensaios, residências artísticas, reuniões e até como estúdio de rádio.

“Claro que não nos importaríamos de ter um grande auditório, mas, não tendo, não é por isso que limitamos a nossa programação”, diz a coordenadora. “As artes performativas podem acontecer em qualquer lado.”

Susana Duarte, socióloga, é a coordenadora da Quinta Alegre – Um Teatro em Cada Bairro. Foto: Líbia Florentino

Susana lembra a peça Memórias de uma Falsificadora, de Catarina Requeijo, sobre a história de Margarida Tengarrinha, artista plástica, escritora e lutadora antifascista, apresentada numa das salas do piso de cima. O público estava mesmo ali, a quarta parede, essa barreira invisível entre a plateia e o palco, tornou-se impossível e talvez isso tenha criado um impacto ainda maior do que se tivesse sido visto numa convencional sala de teatro.

“Lembro-me de uma sessão para escolas, em que os risinhos de uma turma do secundário se calaram assim que o espetáculo começou. A Catarina olhava-os nos olhos. No fim, veio um miúdo dizer-me que parecia que estava dentro da peça.”

Se puderes ouvir, escuta

Susana Duarte, 51 anos, coordena o projeto desde a primeira hora e concebeu-o ainda em pandemia. Não conhecia o território, mas vinha em caminhadas com o pessoal do Festival Todos, que se “instalou” em Santa Clara entre 2021 e 2023. Falou com pessoas e instituições, fez inquéritos, estudou o terreno.

Socióloga de formação, trabalhou na área da juventude em várias autarquias e esteve onze anos na produção do Teatro São Luiz, onde lançou o programa de mediação São Luiz Mais Novos. Quando, em 2021, lhe propuseram este trabalho, percebeu que as duas matrizes se cruzavam. “Tinha as ferramentas da sociologia, de olhar o território e as pessoas, e o que fui adquirindo nas artes, e pensei: isto faz mesmo sentido.”

A premissa estava lá desde o início: delinear um projeto, mas chegar ao território com liberdade “para escutar o que ele tem para dizer e trabalhar a partir daí. Há uma boa parte da nossa programação que é sempre essa resposta à comunidade, ao público, aos fregueses. Uma ideia é lançada e nós desenvolvemo-la e devolvemo-la.”

A horta é um bom exemplo. A Muda – a Terra une gerações é um projeto intergeracional que nasceu de um pedido triplo: os utentes da ERPI queriam uma horta, uma turma da Escola Pintor Almada Negreiros também, e uma educadora de infância, quando soube da atividade, pediu para se juntar. Hoje participam quatro turmas, do ensino básico e do jardim de infância, e os idosos da ERPI, neste projeto que a Junta de Freguesia de Santa Clara ajudou a operacionalizar. “Isto era só terra e agora já comemos produtos da horta. Eles já levaram para as escolas”, diz Susana, satisfeita.

O Cine Alegria é outro pedido dos fregueses e nasceu de uma surpresa. Há três anos, em parceria com o DOC Lisboa, passou-se um documentário sobre a apanha da cortiça. “Temíamos que não viesse ninguém, mas qual não foi o nosso espanto quando a sala encheu”, lembra a coordenadora. Havia todo um público com mais de 65 anos que já não ia ao cinema – porque é longe, por falta de companhia, por diversas razões – mas que veio ao cinema à Quinta Alegre.

Agora, mensalmente, um filme e um tema juntam na mesma sala um grupo de mais velhos e uma turma de mais novos. Em colaboração com a Cinemateca Júnior, que dinamiza as conversas, trabalham-se grandes temas: liberdade, democracia, habitação, género, bairros. “É muito gira a troca de ideias entre eles, gerações completamente diferentes, com vivências e referências distintas e que encontram aqui um espaço seguro onde podem conversar à vontade, sem julgamentos.”

Andreia Luís, Marta Azenha, Susana Duarte, Margarida Ferra e Dina Lopes, quase toda a equipa da Quinta Alegre. Foto: Líbia Florentino

É o que pratica também, todos os dias, a equipa da Quinta Alegre. Oito mulheres – a Susana, a Dina, a Margarida, a Andreia, a Luísa, a Albertina, a Marta e a Madalena – mantêm este espaço cultural a funcionar e são elas que, todos os meses, distribuem pessoalmente os desdobráveis com a programação da casa por escolas, instituições, associações, cafés e equipamentos da freguesia.

Desde 2023, convidam fregueses e vizinhos a serem “a capa” da Quinta Alegre. Em maio foi a vez de Rafael Barreto e Nuno Varela, da Associação Lugar Comum.

Ka Ten Cerimónia

Foi esta associação que, num sábado caloroso de maio, encheu o Palácio do Marquês de Alegrete. A Lugar Comum escolheu a Quinta Alegre para celebrar nove anos de existência com uma festa de nome certeiro, Ka Ten Cerimónia – em crioulo, sem cerimónia. E não houve. Houve convívio, exposições, música, dança, encontro e, claro, cachupa.

Aula de dança, orientada por Nuno Varela, da Lugar Comum, um dos momentos mais esperados do evento Ka Ten Cerimónia, que celebrou os nove anos da associação, que nasceu no Bairro da Cruz Vermelha, no Lumiar e se estende a Santa Clara. Foto: Líbia Florentino.

“A arquitetura sugere cerimónia, mas isso era exatamente o oposto do que eu queria. Queria que as pessoas conversassem, dançassem e conhecessem a casa por dentro”, conta Rafael Barreto – Rafa –, que começou como bailarino e hoje é ator, ativista, investigador, agente cultural.

Ele e Nuno Varela começaram, miúdos ainda, no Centro de Artes e Formação (CAF) da Junta de Freguesia do Lumiar, e lá se fizeram bailarinos, professores de dança, mediadores culturais. Nuno coordena agora o CAF e juntos dirigem a Lugar Comum, fundada em 2017.

Nuno Varela e Rafael Barreto são fundadores e dirigentes da Associação Lugar Comum. Foto: Líbia Florentino

Nascida de um projeto BIP/ZIP, Praceta di Sodade, que tinha como objetivo recuperar o sentimento de pertença dos moradores do Bairro da Cruz Vermelha, a associação deu origem a espetáculos como Um Dia Serei Livre, a percursos encenados como O Meu Bairro a Pé e ao grupo de dança Born2Fail, dinamizado por Nuno Varela. “O trabalho comunitário encontrou-nos”, diz Rafa.

O Bairro da Cruz Vermelha foi entretanto parcialmente demolido e os moradores realojados, na sua maioria, em Santa Clara, muito perto da Quinta Alegre. A relação, que já existia, aprofundou-se – e, quando Rafa falou com a Susana para celebrar ali o aniversário da associação, as portas abriram-se e o Palácio foi ocupado pela Lugar Comum.

Na energia de Rafa está a da mãe, a Dona São, autora da cachupa. Nascida em Cabo Verde, criada em São Tomé e Príncipe e a viver em Lisboa desde o fim dos anos 1980, chegou ao Bairro da Cruz Vermelha “quando não havia lá nada, nem casa”. Trabalhou “nas obras, nas ‘senhoras’ e depois na Câmara Municipal de Lisboa”, de onde se reformou.

“Bom proveito”, diz ela.

Isto é uma comunidade

Bom proveito têm tido os Alegretes. Desde que a Quinta Alegre abriu, Susana tinha a ideia de criar uma espécie de grupo de amigos da casa. Quando já levavam dois anos de trabalho no território, criadas as relações com escolas, instituições de apoio a idosos e associações locais, desafiaram para um primeiro encontro as pessoas que mantinham uma relação com a Quinta Alegre.

Foi o estágio de Tiago Galrito, então recém-formado em Mediação Artística e Cultural pela Escola Superior de Educação, que deu o empurrão: foi ele que, com o apoio da Susana, da Margarida e da Dina, organizou o encontro.

Madalena Almeida, Gerson, Tiago Galrito e Gil Valério são quatro dos Alegretes. Foto: Líbia Florentino

“Convidámos quarenta e tal, apareceram vinte e poucas. O objetivo era juntar gente que pensasse connosco o que é que isto podia ser, mas a expectativa era que as pessoas quisessem conhecer os bastidores, conversar com artistas. Afinal, isso não lhes interessava nada: o que queriam era fazer acontecer”, lembra Susana Duarte

Assim surgiu, em 2024, o grupo de programação comunitária batizado pelos seus membros de Os Alegretes. É voluntário e diverso – “o mais novo tem 13 anos e a mais velha 68, há professores e alunos, funcionários das instituições, gente das associações, homens e mulheres dos vários bairros da freguesia” – e o único compromisso é querer estar e participar. Reúnem de mês e meio em mês e meio; a equipa medeia, produz, operacionaliza; as atividades que propõem integram a programação. Oficinas de culinária, contos, fotografia, DJ, escrita de canções e uma Feira das Trocas já com terceira edição saíram desta espécie de conselho consultivo de fregueses.

As crianças e jovens das escolas e associações da freguesia de Santa Clara são importantes públicos-alvo da Quinta Alegre. Foto: Líbia Florentino

A 20 de junho, organizaram, no jardim, o evento Isto é uma Comunidade?, um dia dedicado às muitas comunidades de Santa Clara, para se conhecerem e darem a conhecer. Música de várias origens, comidas de sabores diversos, artesanato tradicional de vários cantos do mundo e, ao fim da tarde, uma conversa sobre o que é, então, uma comunidade.

A pergunta faz particular sentido aqui. Santa Clara é uma das freguesias de Lisboa com o metro quadrado mais barato, mas onde se sentem já sinais de que não será assim por muito tempo. “É um território de grandes contrastes”, diz Susana. Cortado por vias estruturantes como o eixo norte-sul, com terrenos baldios entre bairros, é uma geografia sem continuidade da malha urbana onde, queixam-se os moradores, os “bairros são ilhas” e as diferenças socioeconómicas são enormes.

O Palácio do Marquês do Alegrete pertence à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que cedeu as instalações à Câmara Municipal de Lisboa para ali instalar um equipamento cultural: a Quinta Alegre. Foto: Líbia Florentino

No palácio como em casa

É para criar pontes entre as ilhas e desvanecer as diferenças que a Quinta Alegre e os Alegretes trabalham. Dois anos depois daquele primeiro encontro, e apesar de não viver nem trabalhar em Santa Clara, Tiago Galrito, 23 anos, mantém-se no grupo. A mais-valia do mesmo, na opinião dele, é que “não é alguém externo ao território que está a pensar o que este quer ou necessita” – são as próprias pessoas que nele vivem e intervêm que fazem propostas.

Foto: Líbia Florentino

Gil Valério, 39 anos, é um exemplo. Cresceu na freguesia, jogava à bola no Águias da Charneca e lembra-se de, em miúdo, olhar para este palácio “abandonado” com curiosidade sobre o que existiria lá dentro – e com a sensação de que era terreno inacessível.

Hoje, dirigente na Associação de Moradores do PER 11, onde dinamiza o GANG (Grupo Animação Natureza Ginástica) de senhoras maiores de 65 anos, “para combater o isolamento” através do exercício físico, acha maravilhoso contribuir para que as pessoas conheçam o espaço e o sintam como seu. “É fantástico ter no palácio abandonado da minha infância um lugar de cultura onde se passa tanta coisa boa e poder alargar o mapa local de quem tantas vezes está preso na rotina casa-trabalho, trabalho-casa”.

Chelsea Oliveira é uma das mais novas Alegretes. Foto: Líbia Florentino

Chelsea Oliveira, 16 anos, que chegou pela escola aos 11 ou 12, dá razão a Gil. Quando consegue, traz amigos, mas acha que muita gente não vem por “preguiça”, falta de hábito ou até preconceito. “Acho que muita gente ainda não conhece e não é por culpa da Quinta Alegre, que faz tudo para divulgar a programação. Mas depois quando vêm, gostam.”

“É verdade”, diz Madalena Almeida, educadora de infância numa IPSS da Charneca. “Já reparei que muitas passam ou apanham o autocarro à porta e não sabem que aqui dentro acontece tanta coisa bonita”.

Moradora em Casal de Cambra, no concelho de Sintra, trabalha na freguesia há 17 anos e desde que a Quinta Alegre abriu que vem com as crianças a atividades. “Ando sempre a ver o que é que há para os meus meninos e devo confessar que sou Alegrete um bocadinho ‘por interesse'”, diz a rir.

“Estou sempre a pensar como contribuir com atividades para as crianças e famílias com quem trabalho, o que podemos oferecer perto de casa, gratuitamente e sem que precisem de apanhar metro ou autocarro”.

Any Souza é educadora de infância e Alegrete, com muita alegria.

O mesmo faz Any Souza, 46 anos, também educadora de infância na Charneca e moradora na Pontinha. Para ela, a grande virtude dos Alegretes é a diversidade: “O facto de ter professores dos vários ciclos é muito bom porque existe uma continuidade. Isso é muito importante porque cria os hábitos culturais.”

Tanto traz os meninos com a escola como as famílias ao fim de semana, e já lhe aconteceu encontrar aqui meninos que foram seus na creche e continuam a vir. “Você vê que aquela sementinha ficou lá. Fui criada com cultura. A minha filha diz: mãe, você passou o que a ‘vó te passou. É uma herança.”

Uma herança que é também a da Quinta Alegre – tornar a cultura acessível, semeada e colhida como um legume da horta, num lugar onde uma pintura do século XIX no teto de um palácio acolhe todos da mesma forma. É aí que mora a alegria.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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