Vão chegando, bebem um café no bar – assegurado nesta manhã por Carlos Cardoso, segundo vice-presidente do Belém Clube – e conversam antes de entrar no ensaio da escola de música. A chegada de Tiago Balsinha, o professor, notório espalha-brasas, anima as hostes: cerca de 25 hoje, a maioria acima dos 60 anos, que chegam a ser 35 quando estão todos. Sentam-se em semicírculo, violas e cavaquinhos ao colo – e há um bandolim que aparece quando o dono, que ainda trabalha, não está de turno.

O ensaio é de porta aberta. Qualquer sócio pode entrar e participar. Não há limite de idades, para cima ou para baixo, nem é preciso saber tocar: a ideia é mesmo aprender, e divertir-se pelo caminho. Tiago, de Alhandra, professor de educação musical com vocação paralela para o stand-up comedy, garante as duas coisas. E os “alunos” agradecem.

Foto: Líbia Florentino

O “recreio” dos sábados de manhã

Cidália e Vicente andam nisto há mais de vinte anos. Começaram num grupo de violas e cavaquinhos no Casa Pia e vieram atrás do maestro, o “engenheiro Marcelino”, quando este se mudou para o Belém Clube. Ficaram quando Tiago Balsinha veio substituí-lo. “Isto é um recreio que temos aqui”, diz Cidália. “Estamos à vontade, brincamos, aprendemos, e ocupa-nos a mente.” Vicente veio com a mulher: tentou a viola, não se entenderam, passou ao cavaquinho e não o largou. “Já somos mais de trinta, mas é um grupo coeso, amigo, faz-nos esquecer as coisas mais maçadoras da vida.”

Jorge, Vicente, Cidália e Teresa, quatro cavaquinhos do grupo de violas e cavaquinhos do Belém Clube, que ensaia ao sábado de manhã. Foto: Líbia Florentino

Teresa começou no ano passado, trazida por Cidália. Nunca tinha tocado. O Tiago emprestou-lhe um cavaquinho e agora não falha um ensaio.

José, de Campo de Ourique, juntou-se há quinze anos, ainda o clube era na Calçada da Ajuda. Tem 73 anos, foi administrador de uma empresa de importação e exportação e considera a música “indispensável, porque põe tudo a trabalhar – os dedos, a cabeça, os olhos”.

Manuel, belenense adotivo, natural de Oliveira do Hospital, 91 anos, antigo taxista que jura ter feito mais de cinco milhões de quilómetros em meio século de estrada, juntou a música à ginástica, à dança e às caminhadas de cinco quilómetros das segundas-feiras.

Olímpio, 81, que veio em pequeno de uma aldeia perto da Guarda para ser marçano e fez carreira na hotelaria, sócio há muitos anos do Belém Clube, distrai-se com a viola – “tradição que trouxe da aldeia, onde havia muito este espírito de comunidade”.

O Jorge, antigo professor de Educação Física, xadrezista autodidata (e sortudo, diz ele), pouco pontual e parceiro de Tiago na vocação para o humor, canta em vários coros e há três anos desafiaram-no a juntar-se a este grupo. Ele nunca recusa um desafio. “Sentei-me aqui, cantaram-se cinco ou seis canções, até que o Tiago me põe cavaquinho nas mãos. ‘Não sei tocar isto’, disse eu. E ele: o que custa são os primeiros 10 anos. Foi assim”.

Higino, 75 anos, economista reformado, está no grupo há sete ou oito e resume o que todos parecem sentir: “A música é o leitmotiv, mas o que nos traz aqui é este encontro feliz, que faz bem à cabeça. É uma terapia coletiva e um espírito de comunidade que já é raro encontrar hoje.”

Além dos encontros de sábado, o grupo de violas e cavaquinhos do Belém Clube junta-se para atuar em eventos da Junta de Freguesia de Belém, no aniversário e outras festas da coletividade e, uma vez por mês, sai para tocar em lares e centros de dia da zona. Atividade encarada como missão.

Gilfa e Júlio Jacob são um casal, ambos professores de música e violas do grupo do Belém Clube. Foto: Líbia Florentino

Gilda Jacob, professora de música como o marido, Júlio Jacob, ambos na viola, é a porta-voz da satisfação que dá levar a música aos mais velhos. “Sentimos que estamos a dar alegria às pessoas e isso é muito gratificante”, diz. “O nosso repertório é feito de música popular portuguesa e, quando começamos a tocar e cantar canções que as pessoas conhecem, começam logo a cantar connosco”, acrescenta Júlio.

É o Belém Clube a cumprir, ao sábado de manhã e fora de portas, um dos principais objetivos de uma coletividade: juntar gente, num coletivo.

O Belém Clube está na atual sede, na Rua da Junqueira, desde 2016. Foto: Líbia Florentino

A coletividade de elite que se tornou popular

A história desta coletividade é longa e atribulada. 127 anos de altos e baixos, completados em março de 2026. Fundado em 1899, na Rua de Belém, em frente ao número 20, onde, cinco anos depois, nasceria o Sport Lisboa e Benfica, o Belém Clube cedo precisou de mais espaço para as festas, os bailes e o teatro, atividades que levaram à sua criação e eram, no virar do século, o “entretém” da sociedade da época, fosse numa versão mais popular, como a Cossoul ou Os Combatentes, ou mais elitista, como era o caso desta.

“Está lá uma placa a assinalar o nascimento do Benfica, mas não há nenhuma a dizer que o Belém Clube nasceu em frente, ainda antes”, nota José Caroço, que foi presidente da coletividade por mais de trinta anos e hoje preside à Mesa da Assembleia Geral.

A explicação pode estar no facto de, em 1911, o clube ter-se instalado na Calçada da Ajuda, num pequeno teatro à italiana, construído por um comerciante local e inaugurado a 10 de junho de 1880, por ocasião do tricentenário do poeta Luís de Camões, nome que adotou (e que mantém até hoje). O Teatro Luís de Camões, atualmente sede do LU.CA, foi a sede histórica do Belém Clube durante 105 anos, até 2016.

José Caroço foi presidente da direção do Belém Clube durante três décadas. Foto: Belém Clube

Nos anos 1960, os sócios moveram influências para que o edifício, que tinha problemas estruturais, sobretudo no telhado, fosse intervencionado. O município fez as obras de forma coerciva e, não tendo os proprietários como pagá-las, fez-se um acordo, passando a posse do edifício para a CML, que se tornou então senhoria do Belém Clube.

“Até aos anos 1970 era uma coletividade de elite. Havia festas e bailes, que era onde, na primeira metade do século XX, rapazes e raparigas se podiam encontrar, mas não entrava qualquer um, era só quem eles queriam. Estava até no estatuto que, dos militares, só os oficiais podiam ser sócios”, recorda Caroço, sócio desde 1972, década em que se operou uma abertura. “E nós ainda hoje estamos a pagar por isso”, diz Humberto Figueiredo, atual presidente da direção e herdeiro de uma tradição diferente, a do associativismo popular.

“Vivo na Ajuda, mas sou da Picheleira e cresci no Vitória Clube de Lisboa. Foi lá que aprendi este espírito da coletividade de bairro”, diz o dirigente, que recebeu de José Caroço a tarefa de continuar este legado com mais de 100 anos.

Além dos bailes, das festas e do teatro, havia uma atividade à porta fechada que durante décadas sustentou a casa: o jogo ilegal. “Era uma espécie de Casino do Estoril só para sócios, e era conhecido por isso”, conta Caroço. Era às mesas de jogo que se ia buscar dinheiro quando era preciso – “o telhado do teatro andou anos a ser remendado com o dinheiro do jogo”.

Humberto Figueiredo, atual presidente do Belém Clube. Foto: Belém Clube.

Mas o ADN sempre foi outro. “O ADN da coletividade era o teatro”, diz Humberto Figueiredo, que tem procurado, apesar das dificuldades que a mudança de sede coloca, não deixar cair essa tradição. Houve também pesca desportiva, hóquei em campo, voleibol, uma escola de xadrez – as taças ainda enchem a parede do corredor do primeiro piso, tudo trazido da antiga sede da Calçada da Ajuda, de onde vieram também, para memória futura, as cadeiras do teatro.

A saída desse espaço explica muito do presente. “Ninguém disse que tínhamos de sair”, lembra José Caroço. “O que me disseram foi simples: se não saírem, não podemos fazer as obras. Sem as obras aquilo caía e, então, chegou-se a acordo.” Vieram, em 2016, para a Rua da Junqueira, onde a sala de espetáculos tem cerca de oitenta lugares. “Quem é que quer um teatro com oitenta lugares?”, pergunta Caroço, não esperando resposta.

Um clube no divã

“Pode fazer-se aqui muita coisa”, contemporiza Humberto Figueiredo, “na verdade, esta sala é multiusos”, diz, preferindo ver o copo meio cheio – ele, que entrou para a direção do Belém Clube já cá em baixo, assumindo a necessidade de reinventar a coletividade para a adaptar ao novo espaço e contexto.

Da Calçada da Ajuda trouxeram o teatro amador, o teatro infantil, a Marcha de Belém e a escola de música; juntaram o ioga, a dança, as milongas, a capoeira, o karaté.

“Três Amigas no Divã”, de Beto Valles. Foto: Belém Clube.

Apesar de a sala de espetáculos ser mais pequena, o teatro continuou a ser a âncora da coletividade. Humberto Figueiredo lembra em particular a comédia de Beto Valles, responsável durante anos pelo grupo teatro amador do Belém Clube, levada a cena em 2019, “Três Amigas no Divã”. Foi um sucesso. Mas também havia teatro de revista, musicais, teatro infantil, mais do que uma produção por ano.

Até que a pandemia parou tudo durante dois anos e levou o mais difícil de recuperar: os miúdos do teatro e do karaté, que cresceram, e o público, que perdeu o hábito. Ainda assim, até 2024, foram-se aguentando. Neste momento, o teatro está num intervalo, mas esperam-se novidades brevemente.

O que neste momento, além da escola de música, traz mais gente ao clube é o ioga, que começou com dois ou três alunos e tem perto de oitenta. “É bom para todos – o professor e os alunos participam noutras atividades, dão ideias, fazem eventos”, diz Humberto, ciente, ao mesmo tempo, da fragilidade: “Se o ioga, de um dia para o outro, quisesse mudar de sítio, estes sócios iam-se embora.”

Mais de metade dos cerca de 180 sócios ativos – num universo de 600 inscritos – são alunos de uma atividade. “Tentamos ter sócios fora das atividades, que tragam ideias e participem”, explica Carlos Cardoso. “Mas são poucos. O que, na verdade, não acontece só no Belém Clube, é mais ou menos transversal a todas as coletividades”, diz o vice-presidente.

As taças, troféus e placas que o Belém Clube foi conquistando ao longo dos seus 127 anos ocupam mais do que uma longa parede no primeiro piso da coletividade. Foto: Líbia Florentino

O karaté, por exemplo, resulta desse espírito. Teimosia confessa de Humberto Figueiredo, antes da pandemia tinha trinta alunos, atualmente tem oito. “Isto só não acaba porque eu não deixo. Não ganhamos nada, mas também não perdemos e acho que é importante manter uma atividade para os miúdos da freguesia.”

O mesmo se passa com a escola de música. “A junta paga ao professor, o clube não perde nem ganha, mas ganham as pessoas que a frequentam e é para isso que cá estamos”, concorda José Caroço, que criou esta atividade há cerca de vinte anos.

“Não me daqui vou embora sem fazer uma marcha

A Marcha de Belém é outro capítulo de esforço e teimosia, desta feita de José Caroço que, incentivado por Beto Valles e Rafael Rodrigues, convenceu a Junta de Freguesia a apoiar a sua criação. Estreada em 2009, nunca chegou aos primeiros dez classificados e anos houve em que ficou nos últimos. Em 2024, ficou em 20º; 2026 foi o segundo ano em que não participou.

José Caroço com os marchantes, no último ano em que Belém participou no desfile das Marchas Populares de Lisboa, em 2024. Foto: Nuno Trabulo/Belém Clube.

Caroço, que era o coordenador, encontra a explicação para os maus resultados na falta de fidelização dos marchantes, nos poucos apoios para a logística e na falta de condições para ensaiar. “Em Belém, não há o espírito bairrista de outros bairros e freguesias de Lisboa. A maioria dos marchantes vêm de fora”, diz, lamentando também a indiferença da vizinhança. “Não havia dia em que não tivéssemos queixas por causa do barulho. Até no 12 de junho, com a cidade em festa, faziam queixa.” Fizeram entretanto obras de insonorização da sala – para as marchas, mas também para os espetáculos e as aulas de música.

Foto: Nuno Trabulo/Belém Clube.

A inexperiência foi outro calcanhar de Aquiles. No primeiro desfile, em 2009, gastou-se “um balúrdio no guarda-roupa – o mais caro de sempre”; a modista avisou que aquilo não era próprio e ninguém a ouviu. “Bastou chegar ao pavilhão para perceber que ou éramos nós que estávamos bem e os outros todos mal, ou o contrário. Era o contrário. Tivemos zero no guarda-roupa”, lembra Caroço. “Nós éramos do teatro de revista e, apesar das afinidades, as marchas não são teatro de revista.” Organizar uma marcha, conclui, não é “pera doce”.

Mesmo assim, é um projeto acarinhado, e Humberto Figueiredo – que tem a do Beato no coração – promete: “Não me vou daqui embora sem fazer uma marcha!”

Fregueses e sócios, precisa-se!

É uma relação contraditória a que Humberto Figueiredo tem com o Belém Clube e não é estranho, é até comum em coletividades centenárias. Constata-se o mesmo sentimento na SFUCO, dos Olivais, na Academia de Santo Amaro, em Alcântara, ou n’Os Combatentes, na Estrela. A vontade de dar futuro às coletividades, de as dinamizar e de honrar não só a história de cada uma como a do próprio associativismo, convive com a sensação quixotesca de estar a lutar em vão.

O retrato que Humberto faz da relação da freguesia com o clube é duro. “Passam centenas de pessoas aqui à porta, mas vão de palas nos olhos. Quando muito param para tirar fotografias aos azulejos”, diz, constatando o que também não é um exclusivo de Belém.

“A freguesia mudou e os fregueses também. Muitas casas, até vizinhas, passaram a alojamento local, e os apartamentos mais baratos nos condomínios novos custam um milhão de euros. Acha que essas pessoas vêm aqui à marcha ou ver uma peça de teatro?”

Quem sabe? Mas o que cansa e às vezes desanima Humberto são casos como o que se passou numa Assembleia Geral recente. Uma sócia queixou-se de que o clube estava sempre fechado e que não podia vir aqui beber um café. A direção decidiu pagar a um dos elementos da direção, que está reformado, para garantir a abertura diária às três da tarde. “A senhora vem cá beber café?”, pergunta Humberto. “Nunca cá pôs os pés.”

Foto: Líbia Florentino

Isso é o que pesa mais, mas quando a conversa parece encaminhar-se para a desistência, Humberto Figueiredo explica a resistência. “Fazemos um trabalho importante para a freguesia de Belém em termos culturais e recreativos, mas não quero palmadinhas nas costas nem apoios para aumentar a conta bancária do clube”, diz, “quero é trazer associados, traçar o nosso caminho, ter projetos e ter quem beneficie deles, porque são esses o interesse e o propósito de uma coletividade e é isso que justifica os apoios”, conclui.

Carlos Cardoso, segundo vice-presidente do Belém Clube desde 2025, cargo que aceitou pela amizade que o liga a Humberto e pela consciência de que é importante não deixar cair estas casas e o espírito associativo que as sustenta, é exemplo disso e concorda com o companheiro de direção. “Isto tem de ser renovado, é a lei da vida.”

E está a ser. A temporada de música de câmara, nascida de uma ideia de sócios – entre eles o professor de ioga –, traz desde setembro um concerto por mês à sala: erudito, clássico, jazz, “para captar vários públicos”. Já lá tocou o pianista Francisco Sassetti, que faz ioga no clube, e vêm aí projetos de artes performativas. “A sala não é grande nem pequena, leva setenta, oitenta pessoas, e tem uma acústica interessante”, diz Carlos. “Há aqui um potencial.”

Tiago Balsinha, professor de música e maestro do grupo de violas e cavaquinhos do Belém Clube. Foto: Líbia Florentino

A ambição é simples: que quem vem uma vez volte e que os sócios sejam mais do que alunos. Como os que, ao sábado de manhã, enchem a sala do Belém Clube de música popular portuguesa, participam em outras atividades e, uma vez por mês, cantam e tocam em instituições da freguesia.

“A música serve para agregar, nunca para excluir”, diz Tiago Balsinha. É talvez essa, ao fim de tantas voltas, a definição de coletividade que interessa – e a razão por que, ao passar pelo nº 243 da Rua da Junqueira, vale a pena parar e entrar. Nem que seja só para beber um café.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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