“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.



O bar-restaurante-sala-de-convívio da Academia de Santo Amaro (ASA) foi-se enchendo, mais do que seria de esperar para o fim do dia de uma sexta-feira de fevereiro, ainda por cima fria e chuvosa. As mesas foram sendo ocupadas por sócios, atores, famílias, espectadores, com a intimidade própria dos lugares onde toda a gente se conhece. Era a última noite da comédia musical Plumas à Cabeça, espetáculo do grupo de teatro amador da ASA, com encenação profissional de Paulo Vasco.
Nos camarins, atrizes e atores preparavam-se. Não havia o frenesim das estreias. Era maior a confiança do que os nervos. Últimas afinações de falas, entre maquilhagens e figurinos, palavras de motivação e balanço e o abraço coletivo antes de entrar em cena. Os rituais próprios de uma noite de despedida.


José Maria Esteves, 87 anos, o mais velho do elenco, faz a visita guiada com a desenvoltura de quem conhece todos os cantos à casa. E conhece. Entrou no primeiro espetáculo da Academia – uma opereta – estreada a 14 de abril de 1956, dois meses após a inauguração da sede, a 9 de fevereiro.
Setenta anos depois, cá continua. Só falhou o tempo em que esteve na tropa e na guerra colonial, entre 1966 e 1969, e os anos em que trabalhou em Mem Martins, para onde foi viver na década de 1970. Lembra-se que, quando voltou da guerra, em 1969, a Academia estava para estrear um espetáculo e como não havia papel para ele, assumiu a função de contrarregra. O que não podia era ficar de fora.

Zé Maria, como toda a gente lhe chama, fala baixinho, como se contasse um segredo, e mantém intacta a memória do dia da inauguração da sede da Academia de Santo Amaro: “Estava à pinha, até havia polícia. O presidente foi a casa vestir-se para a ocasião e quando voltou a polícia não queria deixá-lo entrar porque não tinha identificação. Foi um sarilho”, lembra, a rir.
A Catedral do Teatro Amador
O ator Ruy de Carvalho, amigo antigo da casa e “ASA de Ouro”, galardão com que a Academia de Santo Amaro distingue todos os anos uma personalidade do teatro, batizou a coletividade de “Catedral do Teatro Amador”, conta, com orgulho, Fernanda Dias, vice-presidente para a área das Atividades Artísticas e Culturais.

Epíteto generoso, mas justo. Do palco da Academia saíram várias gerações para a representação profissional: Carlos Areia, Rosa do Canto, Miguel Dias (sobrinho de Fernanda Dias e do fotógrafo Abel Dias, que também cresceu na ASA), Miguel Amorim, José Condessa (filho de Jorge Condessa, ator do grupo amador e atual tesoureiro da coletividade), Flávio Gil, David Esteves (neto do Zé Maria) são apenas alguns deles.
Miguel Dias, que faz teatro, televisão, música e hoje integra o elenco do Maria Vitória, começou aqui aos 17 anos e de 4 de março a 29 de abril comemorou na ASA os 30 anos de carreira com o “monólogo musical” Ai, que Nervos!.
Entre comédia, revista, musical e teatro infantojuvenil, os dois grupos de teatro amador da ASA, o dos adultos e o dos mais novos, levam a palco dois ou três espetáculos por ano.
“Em 2025, fizemos três revistas. Do Plumas à Cabeça já fizemos uma série de apresentações. Mas o Amo-te tanto que te odeio, Porra!, do Miguel Dias, bem, eu digo-lhe uma coisa, já há muitos anos que não me lembro de ver tanta gente. Sempre cheio. Em maio, levámos o espetáculo a Nisa, e esgotou, estavam umas 400 pessoas”, conta, em surdina, Zé Maria, que fez parte do elenco.


Além do teatro amador, a ASA tem aulas de ballet, uma equipa de futsal, um arraial que ganhou o prémio de “Melhor Arraial de Lisboa 2025” e uma programação que inclui teatro de revista, musicais, comédias, bailes, concertos, festas, noites de fado, noites de jogos, dança, galas de Natal e de Fim de Ano, o prémio ASA de Ouro, o recém-criado prémio revelação Zé Maria e o Festival Internacional de Improviso, que terá este ano a 5ª edição. A maioria dos eventos com preços especiais para sócios e fregueses de Alcântara.

Tendo como principais fontes de financiamento a quotização (cerca de 800 sócios, com quotas de um euro mensal); as receitas do bar e da bilheteira; o arraial, durante os Santos Populares, que faz parte dos Arraiais Populares de Lisboa, apoiados pela EGEAC (o que, em contrapartida, obriga ao cumprimento de uma série de exigências técnicas e logísticas); e apoios pontuais da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de Alcântara, a Academia de Santo Amaro tem uma grande vantagem: a sede é propriedade da coletividade.
“É, de facto, uma mais-valia e por isso é que pudemos investir na recuperação do edifício e nas condições da sala e dos camarins”, diz Fernanda Dias, referindo-se às obras de beneficiação e modernização que têm sido feitas. “Agora estamos a fazer uma intervenção na fachada exterior, que estava a degradar-se”, explica, justificando os andaimes em torno do edifício principal.

“Hoje, temos uma sala de espetáculos com condições extraordinárias, que nos permite abrir a porta a companhias profissionais. Claro que isso obriga a uma gestão mais complexa da programação da sala e dos outros espaços, que também alugamos para eventos, mas proporciona um aumento da receita e do alcance, que é o que nos garante a continuidade”.
Duas sociedades rivais, uma casa comum
Oitenta anos de “continuidade”. Mas a história da Academia de Santo Amaro começa muito antes de 10 de março de 1946, data da sua fundação. Desde meados do século XIX, a vida social e cultural do bairro de Santo Amaro organizava-se em torno de duas sociedades rivais: a Sociedade Filarmónica Esperança e Harmonia – a “Sociedade da Travessa”, criada em 1865 – e a Sociedade Filarmónica Alunos de Harmonia – a “Sociedade do Largo”, de 1868.
Tinham bandas, grupos de teatro, ensino de música e até escola primária para os filhos dos sócios. Competiam entre si, mas dessa rivalidade nasciam espetáculos, bailes, marchas e operetas que animavam o bairro e as suas gentes. Em 1915, o Grupo Dramático e Musical Apolo veio reforçar essa energia coletiva.


Fotos: Arquivo da ASA
Tudo mudou em 1943, quando as obras de urbanização de Alcântara obrigaram à demolição de duas das sedes. Perante o risco de desaparecimento, as coletividades fizeram o que antes parecia improvável: uniram-se. Juntaram pessoas, memórias e património numa casa comum, inaugurada a 9 de fevereiro de 1956.
Houve apenas um contratempo. O primeiro nome escolhido foi União Recreativa das Sociedades Santamarenses. A sigla – URSS – foi recusada na Conservatória. Era um tempo em que tudo era vigiado, incluindo as palavras. Ficou Academia de Santo Amaro. E ficou a ideia, que perdura, de que naquele bairro a cultura era forma de resistência e de encontro.
“Não havia uma família que não fosse sócia”

António “Carichas” Albuquerque tem quase 80 anos e é o sócio nº 10. Foi presidente da Academia durante uma década e é hoje vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral. Chegou a Santo Amaro, com 14 anos, “do Alentejo, pé descalço”, como costuma dizer, e encontrou ali um lugar de pertença.
“Não havia uma família em Santo Amaro que não fosse sócia da ASA”, recorda. Alcântara era então uma freguesia operária, densa de vida e de vizinhos.

Quase dez anos mais nova, Fernanda Dias é filha do bairro no sentido mais literal. “Nasci e cresci aqui. Foi onde conheci os meus maridos. Os dois”, diz, a rir, a produtora teatral e jornalista – que, entre muitos outros títulos por onde passou antes de se reformar, foi diretora da revista Caras.
Os pais foram sócios fundadores e o pai, Albano Dias – diretor, ator, encenador –, foi uma das figuras mais marcantes da história da coletividade.
João Braga, vice-presidente para a Área Financeira e do Património, chegou à ASA adolescente, atrás da “Academélia”, um concurso inspirado na Visita da Cornélia (o famoso programa televisivo de 1977). “Era tudo igual ao concurso da televisão e foi um sucesso”, diz João, que se tornou frequentador e durante anos foi ator e encenador do grupo de teatro amador da ASA. “A Academia era a minha segunda casa. A minha mãe já nem me perguntava para onde eu ia, sabia que estava aqui.”
Juntam-se três “históricos” da Academia de Santo Amaro e é o bastante para que as se memórias atropelem. Os bailes às quintas, aos sábados e aos domingos. O Carnaval em três noites, com Enterro do Entrudo, concurso de Reis do Carnaval, pinhata e chouriço assado madrugada dentro. “O pior era quando o aniversário da ASA colava com o Carnaval. Ficávamos até às tantas e às nove da manhã tínhamos de ir buscar a fanfarra dos bombeiros do Dafundo para a festa de aniversário”, lembra João Braga.

A Academia deu-lhe, a ele, como a Fernanda e a tantos outros, mais do que entretenimento. “Os meus pais casaram aqui. Sou filho único, mas tenho uma amiga que trato por irmã – ela é madrinha da minha filha, eu sou padrinho do filho dela. Não somos família de sangue, mas é como se fôssemos e isso foi a Academia que nos deu. A criação destas relações e destes laços aconteceu-nos a todos”, diz João Braga.
O bairro que mudou
Como lembrava, há pouco, António “Carichas” Albuquerque, Alcântara era uma freguesia operária, onde se concentrava parte do tecido industrial de Lisboa. As fábricas davam trabalho, os trabalhadores davam sócios, os sócios davam vida à Academia. O próprio Carichas trabalhou numa fábrica, como administrativo, Zé Maria foi operário em várias fábricas da vizinhança, antes de ir para Mem Martins e de voltar, em 1987, para assumir a taberna do pai, ali ao lado da Academia, que era quase um prolongamento desta e onde existe hoje um condomínio.
As fábricas foram fechando, os prédios foram crescendo e os moradores históricos foram desaparecendo, ou porque morreram ou porque o preço das casas os levou a sair.
“Quando casei, em 1992, comprar casa em Santo Amaro já era deixar de comer pão”, conta João Braga, que foi viver para Casal de Cambra e hoje vive na Charneca da Caparica. Não é o único, garante. “Já são poucos os filhos de Santo Amaro que vivem no bairro”, diz. Mas são eles que continuam a manter a Academia.

O desafio, agora, é atrair os novos moradores. “Ainda não chegámos a muitas dessas pessoas”, admite Fernanda Dias. “Mas estamos a trabalhar para isso”, diz. A estratégia de abrir portas a companhias profissionais e acolher produções externas tem duplo objetivo: garantir a sustentabilidade financeira e atrair novos públicos.

“Pode não vir o bairro ao teatro, mas vem muita gente de fora”, observa Carichas, que todas as sextas-feiras em que há jantares vem servir às mesas.
“Nunca fiz teatro, nunca joguei à bola, não sei jogar às cartas. Gosto é de pessoas, de conversar com elas. Aqui trabalhamos para as pessoas. E o que é que gostamos de ver? Casa cheia, no bar, no teatro. É pelas pessoas que aqui estamos, não é?”, pergunta, em jeito de afirmação, o alcantarense adotivo, que sempre esteve ligado ao movimento associativo e é eleito na Assembleia de Freguesia de Alcântara.
“É”, responde João Braga. “O associativismo é exatamente isso, é trabalhar para as pessoas. Não faz sentido ser de outra maneira.”
“O problema é que o associativismo não está na moda”, diz Fernanda com a ironia de quem está envolvida nestas andanças desde miúda, mas não desiste. As fotografias a preto e branco nas paredes do bar confirmam-no: “aquela sou eu em 1968, na Fonte dos Milagres, a dançar. Foi uma opereta que passou na RTP e esteve dois anos em cena”.

Quem é o jovem que quer meter-se numa coisa destas?
Não é só na Academia de Santo Amaro que este sentimento se manifesta. Nas várias reportagens sobre coletividades centenárias de Lisboa, incluídas nesta série “À Vontade do Freguês”, é unânime a opinião de que existe uma crise do associativismo.
Grande parte das 985 coletividades de cultura, recreio e desporto que sobrevivem no concelho de Lisboa enfrenta dificuldades financeiras, risco de despejo e falta de massa associativa e crítica. A gentrificação, o êxodo dos lisboetas para concelhos vizinhos, o consequente despovoamento dos bairros e a falta de disponibilidade para o trabalho associativo (e voluntário) levam a que a renovação destas estruturas seja um desafio.

Sobretudo em Lisboa, nota João Braga, onde a oferta cultural é vasta, a ideia de se vincular a uma coletividade – com as reuniões semanais, trabalho voluntário, turnos para assegurar o funcionamento do bar, a montagem e realização de arraiais, festas, jantares, ensaios, produções, etc., muitas vezes noite dentro, depois de um dia de trabalho – não é para todos.
“Quem é o jovem que quer meter-se numa coisa dessas, quando pode ir divertir-se com os amigos sem obrigações?”, provoca João, olhando em volta, a rir.
“O Carichas tem quase 80 anos, a Fernanda tem 71, o Jorge tem 65, eu fiz 60, o Luís é mais ou menos da minha idade. Está a ver o escalão etário, não está? Havia dois jovens na direção, mas saíram a meio do mandato, de fininho. Portanto, no ano em que fazemos 80 anos estamos numa aflição”, diz.
“A questão não é só arranjar pessoas ou pessoas mais novas”, diz Fernanda. “É arranjar gente que tenha o espírito da ASA e que continue o trabalho que está a ser feito”.
Passa por mim em Alcântara
A aflição resolveu-se, como quase sempre acontece, na Academia de Santo Amaro e em tantas outras coletividades, porque também esta é uma história que se repete, com os do costume, a “prata da casa”. Quando esta conversa aconteceu, a direção cessante estava em gestão.
Os novos órgãos sociais, que tomaram posse a 26 de março, mantiveram o núcleo duro, com quatro novidades na direção: João Braga na vice-presidência para a Área Financeira e do Património, Jorge Condessa, como tesoureiro, Pedro Ataíde enquanto vice-presidente para a Área das Atividades Recreativas e Desportivas e Ricardo Delgado, como vogal.

“Não conseguimos viver sem isto. A Academia é uma casa para nós. Trabalhamos, mas divertimo-nos e manter a continuidade é uma forma de retribuir tudo o que ela nos deu”, resume João.
Naquela noite de 13 de fevereiro, quando o pano desceu pela última vez sobre Plumas à Cabeça, essa continuidade estava a ser preparada. O calendário da Academia estava cheio: o baile de Carnaval à porta, a estreia de Ai, que nervos!, de Miguel Dias, no início de março, eleições para os novos corpos sociais e, a 17 de abril, a estreia da nova revista – Passa por mim em Alcântara.
Uma revista que é sátira, lantejoulas, música, dança e humor – e sobretudo um convite. Aos novos fregueses de Santo Amaro e de Alcântara, para passarem na coletividade que dá nome à rua onde a sua sede foi construída – porque não existia rua antes de existir a Academia de Santo Amaro.


Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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