
Eliseo Tarlattini maneja agilmente a concha na superfície escura e densa, fazendo surgir como num passe mágica o reluzente gelado de chocolate. Tudo leva um segundo, dois, o gesto talhado pelo tempo, repetido todo santo dia por quase meio século de ofício. Triunfo da experiência, é verdade, mas também da vocação, da tradição, do sangue que pulsa no coração de Eliseo – também conhecido como o homem que levou para a Costa da Caparica a conhecida conchanata (um nome-fantasia, nascido de um gelado que, para fazer jus, sabe a fantasia, servida tradicionalmente numa taça “concha”).
Sangue e coração são detalhes fundamentais nesta história de amor ao prazer de saborear um gelado inesquecível. A fila que se forma diante da gelataria Tarlattini, no largo da Praça da Liberdade, numa soalheira tarde de sábado, é a prova disso.

O apelido Tarlattini estampado na placa da gelataria não deixa margens para dúvidas: Eliseo é neto de Quintilho Tarlattini, o italiano que deixou a Toscana nos anos 1940 do século passado para fugir da guerra e trazer para Lisboa os segredos dos gelados da sua Itália.
Uma arte cristalizada na Conchanata em Alvalade, na Avenida da Igreja, comandada pelo irmão três anos mais novo de Eliseo, Michele – uma fraternidade que faz da Tarlattini parente de primeiro grau da tradicional gelataria lisboeta.

O que talvez poucos saibam é que a história da irmã mais famosa deve muito ao primogénito dos Tarlattini. É aí que o sangue entra nesta história. O sangue e, especialmente, o coração. Aos 13 anos de idade, Eliseo foi obrigado a afastar-se dos estudos para, ainda adolescente, garantir que a gelataria fundada pelo avô Quintilho em Alvalade não fechasse as portas.
À época, era o pai dos dois irmãos, Alfo, o responsável pela Conchanata, ainda sob o nome “Gelados Itália”. O que ninguém esperava era que o coração de Alfo pregasse um grande susto na família e um infarte lhe tirasse subitamente de circulação.
A data do evento segue viva na memória de Eliseo, fresca como os gelados na montra da gelataria: “Foi em 12 de junho de 1978, véspera de Santo António”, recorda-se, o olhar distante, mirando o passado.
Enquanto o pai recuperava, o feriado do dia 13 foi de trabalho duro na pequena cozinha industrial da gelataria para reabrir as portas no dia 14. O que ocorreu, graças a Eliseo. A Conchanata tinha oito funcionários, é verdade, mas nenhum deles sabia a receita de preparo dos gelados, desde sempre um segredo de família.
Um segredo repassado pelo avô Quintilho ao neto mais velho.
Repassado pelo avô ao pequeno Eliseo.
O inventor de um ícone da Avenida da Igreja
A memória de Eliseo é pródiga, datas, lembranças, rostos não lhe fogem. “Está a ver aquela senhora ali”, diz, em direção à esplanada, onde uma mulher está concentrada num gelado. “Conheço ela há 30 anos ou mais, era cliente em Alvalade”, revela. Aos 62 anos, as cenas da infância ao lado do avô Quintilho, o nonno Quinto, também seguem vivíssimas.
“Aprendi com o meu avô a fazer os gelados. Comecei com a parte líquida, sentado num banquinho, a bater os ovos e o açúcar ao leite”, recorda-se.
As tardes de lições em família valeram as portas abertas da Conchanata até a recuperação total do pai. O período de convalescença paterna marcou também o afastamento do pequeno Eliseo da escola naquele ano.
Bem mais tarde, concluiria a oitava classe. Pouco para aprimorar o talento em desenhar, não artisticamente, mas de forma técnica e objetiva, como o próprio Eliseo.
O gelataio (palavra italiana para fabricante ou vendedor de gelados artesanais) aponta para a parede da gelataria, como se pudesse ver através dos tijolos. Talvez até conseguisse, mas não o repórter. “Fiz o desenho de todo o sistema elétrico”, diz, orgulhoso. Eliseo também desenhou o projeto de encanação e o balcão sob medida da Tarlattini.

Deve realmente saber o que faz. Trinta anos depois, o balcão segue firme e não há sinais de vazamentos hidráulicos nem de curto-circuitos.
Em 4 de maio de 1996 – as datas, lembre-se, ele tem sempre em mente – o neto mais velho do avô Quintilho abriria a sua gelataria, onde antes funcionara uma casa do mesmo ramo, mas sem o mesmo apelido de família. Da experiência adquirida em duas décadas em Alvalade, a Costa da Caparica ganharia a sua Conchanata.
Incluindo a famosa versão do gelado que batiza a concorrida gelataria lisboeta, composta por três bolas de gelado – geralmente, mas não obrigatoriamente em sabor nata – cobertas por uma calda quente de morango, servidas numa taça em forma de concha. “A receita do gelado é a mesma. Afinal, o meu irmão aprendeu-a comigo”, diz.
Apesar de os Tarlattini de Lisboa terem os direitos sobre a marca, a permissão de levar a Conchanata para a Margem Sul foi concedida pelo pai dos dois irmãos, Alfo, durante uma das várias visitas à gelataria de Eliseo.
Uma forma de reconhecimento a quem fez da antiga Gelados Itália a Conchanata de hoje. Foi Eliseo o primeiro a insistir na mudança de nome. A alteração começou ainda quando dividia o balcão em Alvalade com o irmão.

É de Eliseo também a ideia de erguer sobre a parreira plantada pelo avô Quintilho há mais de oito décadas o letreiro luminoso onde se lê Conchanata, um ícone da Avenida da Igreja, instalado em 1994, poucos meses antes do primogênito cruzar o Tejo para realizar um sonho.
O gelado da moda
O calor de fins de junho faz as oito mesas da esplanada lotarem. A maioria dos clientes, gente madura, cabelo prateado, saciando o desejo do menino e da menina ainda vivo em cada um deles. “Conheço 80 a 90% dos meus clientes”, estima Eliseo, elencando a bio de cada um deles, do tipo “aquele trabalhava numa loja de discos, aquele fazia isso, aquele outro aquilo“.
Quando jovem, o antigo funcionário da loja de discos provavelmente enfrentou a longa fila em frente à gelataria para ter em mãos o “gelado da moda”. Isso foi logo após a inauguração, quando o visionário Eliseo trouxe da Espanha não um sabor diferente, mas um casquinho, um cone, diferente.
Ou melhor, um cascão diferente.

O dankone é uma espécie de cone XXL. Comporta facilmente três bolas ou mais, sem que gelado fique para o lado de fora do casquinho, evitando indesejáveis vazamentos nos meses mais quentes. É possível ainda adicionar uma calda, ou como na versão da Tarlattini, chantilly.
A aposta num modelo desconhecido para os portugueses garantiu a Eliseo a exclusividade do produto. A verdade é que o casquinho T3 caiu na graça dos clientes, que se acotovelavam diante do balcão em busca do “gelado da moda”. E por muito tempo, só quem o tinha era o Eliseo. A moda passou, mas o cone da casa ainda está lá para quem quiser desafiá-lo.
Outro diferencial em relação à irmã lisboeta é a cassata, o típico gelado italiano que parece mais um bolo, servido em grossas fatias. Eliseo garante que ensinou a receita ao irmão Michele, mas um pequeno detalhe talvez tenha pesado na decisão de não servi-lo em Alvalade. “Isso dá um imenso trabalho para fazer”, conclui.

E Eliseo parece não fugir ao trabalho. Nem quando o médico mandou abrandar o ritmo, após o coração, sempre o coração, voltar a entrar nesta história de família.
De Benfica para a Costa da Caparica
Em 2020, mais precisamente no dia 29 de março, quando a pandemia começava a assombrar Lisboa, Eliseo daria entrada no Santa Maria após sofrer um infarte. Se a memória de Eliseo não falha nunca, não se pode dizer o mesmo do coração.
Eliseo não tem problema em falar sobre o assunto. Discorre sobre procedimentos cirúrgicos e stents como se falasse dos sabores dos gelados. Está vivo, é o que importa. Mas o susto foi uma espécie de aviso, traduzido em bom português pelo cardiologista: está na hora de diminuir o ritmo.
“Dormia só três horas por noite”, confessa Eliseo, que, desde a recuperação, começou a desacelerar. Nem tanto, é verdade. Se não para as cinco, seis horas indicadas pelo médico, trabalha agora cerca de dez, no máximo, 12 horas. O que explica o horário de funcionamento da gelataria, entre às 14h e às 19h. Isso se não chover, quando Eliseo não se dá nem ao trabalho de cruzar a 25 de Abril.
Apesar de trabalhar na Costa da Caparica, o gelataio vive em Lisboa, onde nasceu. Mais precisamente em Portas de Benfica. Lá também fica a fábrica de gelados que, durante anos, ainda antes do susto cardíaco, fornecia gelados para uma dezenas de clientes. Hoje, seguindo as orientações médicas, as máquinas também diminuíram a pulsação.
Não só para poupar o coração de Eliseo, que fique claro, mas poupar também o sono de um vizinho responsável pela paz nacional: o segurança do presidente José Seguro. “Ele trabalha à noite e a cama dele fica encostada à parede junto às máquinas. O que me impede de as ligar cedo”, conta, bem humorado.
A segurança do presidente contribui assim para o ritmo mais lento de Eliseo, que já mira a reforma, estimada para daqui a quatro, cinco anos. Pai de dois filhos, uma dentista e um engenheiro, não há sinais de que a gelataria seja comandada por um Tarlattini, o que pode colocar um ponto-final no sangue da família naquele lado do Tejo.
Eliseo dá de ombros sobre o tema. A verdade é que não gostaria de ver os filhos repetirem a dura rotina diária numa gelataria que lhe privou de momentos de lazer e convívio em família e amigos. Uma rotina pesada e longa. A Tarlattini não é a mais antiga da Caparica (essa será a Gelados Pope), mas ele será, sim, o mais antigo gelateiro em atividade por lá, 30 anos, sem precisar somar os outros 20 em Lisboa.
Por isso, já tem em mente o que vai fazer quando não estiver mais por trás do balcão da gelataria: vai atrás de faisões, perdizes e galinholas. Há anos, o gelataio aproveita os três meses de inverno quando a Tarlattini entra em férias para longas e tranquilas (pelo menos, para ele, já as aves não podem dizer o mesmo) tardes de caçada no Alentejo e Ribatejo.
Uma atividade que exige concentração e garante horas de caminhadas, o exercício cardio que o coração de Eliseo tanto precisa. Isso, porém, só mais tarde. Por ora, o alvo são os gelados italianos, incluindo a joia da coroa, a Conchanata.
Ainda é possível saboreá-los também na Margem Sul, enquanto Eliseo não ajusta a mira da sua vida numa outra direção.

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Conheci e privei com o velho Tarlattini, fui amigo de caçadas do Alfo e fiz cicloturismo com o Michelle e o irmão pois praticamente vi-os nascer, o Alfo casou com uma portuguesa. De facto é o melhor gelado do mundo. A conchanata é soberba e a cassata é extraordinária. Cumprimentos e saúde para o que resta dos Tarlattini.