O fado continua a seduzir gente de todas as gerações, e é isso seguramente o que permite que o programa Em Casa de Amália, emitido nas noites de sexta-feira em horário nobre, continue a ter das maiores audiências da televisão portuguesa.

A receita é simples: um anfitrião, ele próprio fadista, convida confrades e músicos para cantarem e tocarem na sala da casa de Amália Rodrigues (que hoje, transformada em museu, é visitável) ou, se o tempo o permite, para um palco improvisado ao ar livre numa qualquer cidade ou vila do País, fazendo a desejada itinerância cultural e contando por vezes com a participação de artistas locais.

As pessoas gostam de ouvir e de conhecer e, na televisão, ao longo dos tempos, houve sempre este género de programas de variedades, umas vezes com fado, outras com música popular ou folclórica. Mas de vez em quando também aparece algo diferente, mais sofisticado e dirigido aos apreciadores propriamente ditos, como é o caso do recente Um fado por dia não sabe o bem que lhe fazia, com apresentação do musicólogo e especialista em fado Rui Vieira Nery (filho do grande Raul Nery, que acompanhou Amália durante muitos anos) e realização de Ivan Dias, que produziu o excelente Fados, de Carlos Saura, e dirigiu também o filme Carlos do Carmo: Um Homem no Mundo.

O programa que nos faz realmente bem estreou no princípio de Junho e tem apenas três episódios, que estão disponíveis na RTP Play e no Youtube, pelo que podem ser vistos e revistos sempre que se queira. Intui-se que, inicialmente, o projecto seria o programa passar em trinta dias seguidos e com um fado por dia, porque Rui Vieira Nery começa sempre a sua alocução por “Hoje o fado é…” e, na verdade, a frase repete-se ao longo da emissão tantas vezes quantas os fados que ouviremos até ao final, o que resulta um pouco estranho. Porém, tirando esse pormenor (e uma opção levemente estapafúrdia de manter uma câmara fixa no apresentador mesmo quando ele já se virou para a outra), vale mesmo a pena assistir ao que a produção define como verdadeiras “pílulas de fado para melhorar a saúde anímica dos portugueses”.

Rui Vieira Nery apresenta-nos o fado a partir do nome da sua melodia (Fado Cravo, Fado Perseguição, Fado Primavera…), indicando-nos o respectivo compositor; e, a seguir, fala-nos resumidamente da letra original e do seu autor, mas, na maioria dos casos, oferece-nos a novidade de uma letra mais recente, dando-nos assim a oportunidade de tomar contacto com letristas novos ou menos conhecidos.

Por fim – e a ideia é excelente – traz para cantar o dito fado, no cenário do estúdio onde Amália gravou, e com um trio de músicos experientes, uma panóplia de jovens artistas talentosíssimos em vias de se tornarem as grandes vozes do fado no futuro próximo: Beatriz Felício, Francisco Salvação Barreto, Sara Paixão, José Geadas, Zé Maria, Ângelo Freire (sim, o guitarrista também canta), entre outros. 

Vale mesmo a pena ficar de ouvido à escuta e tomar a tal pílula milagrosa – e até a podemos dividir em trinta dias, como um tratamento a sério, pois era isso que a televisão deveria ter feito, reproduzindo diariamente um fado a seguir às notícias para que, enfim, servisse de  bálsamo contra tanta desgraça.


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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