Em junho, o Campeonato Mundial de Futebol toma conta da cidade e, vamos assumir, as prioridades não são mais as mesmas. As agendas sociais correm atrás do mesmo plano e as obrigações profissionais conjugam-se com o apito inicial. Em Lisboa, os cafés e restaurantes acertam o relógio para esta temporada.
Ainda assim, decidir o lugar onde assistir não é fácil e as variáveis são muitas: onde há ar condicionado, onde a eletricidade não vai falhar, onde a imperial é mais fresca… A escolha arrasta-se em debates intermináveis.
Este ano, não abdico da minha premissa: tenho a certeza de ter encontrado o melhor sítio em Lisboa para ver os jogos do Mundial. E, como se diz por aí: “em equipa que ganha não se mexe”.
Fica em Alvalade, chama-se Quiosque dos Coruchéus e já conquistou alguns corações, a começar pelo meu. Mesmo estando a viver um Mundial “noturno”, com jogos a más horas, este é um sítio onde o sol se demora. Partilha o espaço com uma biblioteca e um parque infantil, num largo que parece inteiramente reservado à vida de bairro.
Onde mais se veem crianças de caderneta na mão, sentadas no chão a trocar cromos enquanto vão espreitando o resultado na TV?
Aqui, o hino canta-se em uníssono. Multiplicam-se famílias, vizinhos e desconhecidos, à procura de um lugar para sofrer e/ou festejar. Sempre e sem exceção, em conjunto. É isto que diferencia este quiosque de outros lugares onde a comunhão é só a paisagem de muitos corpos juntos a olhar para o mesmo ecrã. Aqui, os corpos são um único país. Todos ligados pela mesma terra.
Quando as cadeiras do quiosque já não são suficientes para tantos patriotas, chegam cadeiras de campismo trazidas de casa, banquinhos de plástico e há quem se sente simplesmente na relva, num piquenique improvisado que se partilha com o resto da cidade.
Tudo regado a bifanas, feitas sem parar e até ao apito final, pela “mãe” da casa. Digam-me: onde mais em Lisboa encontram uma equipa de avental, em frente ao grelhador, a distribuir bifanas ao ritmo dos passes em campo?
Enquanto repetente destas andanças, falo com conhecimento de causa: já assisti a jogos em outros quiosques no centro da cidade, em restaurantes, em cafés de esquina e, inclusivamente, no conforto do sofá de casa. Até então, nada me transportou para o estádio como o ambiente de convívio que se vive no quiosque. Por isso, tornei-me uma espécie de embaixadora deste canto de Alvalade, mobilizando grupos de amigos, jogo após jogo.
Não escapo, claro, às críticas dos meus amigos mais aficionados – aqueles que calculam os metros de distância exatos até ao ecrã ou que discutem as polegadas da televisão como uma estranha superstição.
Seu cá sou menos ambiciosa na técnica e mais, muito mais, no sentido de comunidade. Prescindo de assistir a um livre em 4K, se puder ver o vizinho da mesa ao lado a levantar-se da cadeira quando antecipa o golo. Também não preciso de saber a decisão do árbitro, se o senhor da frente, de cachecol ao pescoço, me assegurar que foi falta. E para quê ver o plano aproximado do festejo do Ronaldo, se posso celebrar com uma pessoa que não conheço, mas que naquele instante partilha a minha euforia?
Então, digam-me: já nos esquecemos que o desporto-rei é também um jogo que se aprende entre vizinhos?
Não me levem a mal, cada um acompanha a Seleção à sua maneira. Eu é que me recuso a tornar este momento em mais um ritual individual dentro da grande cidade. Não fosse ele, lá está, Mundial.

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