Não, o imigrante que vive em Portugal não vai torcer por Portugal no Mundial. Nem se a seleção do país dele estiver fora da competição ou for eliminada do torneio. Isso inclui os asiáticos, os expatriados europeus e os sul-americanos, dentre esses, o imenso contingente brasileiro.
Numa conta de balcão de tasca, isso quer dizer que vinte por cento da população portuguesa e um terço dos lisboetas não vão torcer por Cristiano Ronaldo e companhia.
Não, não se assustem, meu caro lisboeta, minha cara lisboeta. Não é nada pessoal.
Os turcos também estão se lixando para a seleção da Alemanha, assim como a gigantesca comunidade magrebe de Paris quer que a França seja despachada o mais rápido possível.
De preferência, eliminada pelo Marrocos, Senegal, Congo ou Argélia.
Se servir de consolo, os portugueses no Brasil também não vão torcer pela Canarinha. Como os imigrantes portugueses em França, Suíça, Canadá e Estados Unidos não estão nem aí para os gauleses, helvéticos, canadianos e norte-americanos.
Pode perguntar para aquele tio ou primo que migrou. Vá lá, passe um Zap para tirar a teima e depois me diga aqui.
Ingratidão ao país que o acolheu como imigrante? Nada disso.
Coerência.
Toda imigração, umas mais, outras menos, é uma experiência violenta e de esvaziamento existencial. Só quem migra e passa a vivenciar ser o “outro” de alguém, ao mesmo tempo semelhante, da mesma espécie, mas ainda assim “o outro”, sabe do que se trata.
Não apenas um motorista, jornalista, médico, advogado ou aluno.
Mas um motorista indiano, um jornalista brasileiro, um médico ucraniano, um advogado angolano, um aluno, uma criança, vejam só, uma criança nepalesa.
Migrar é ser sumariamente classificado na prateleira humana. É ser tagado no Insta da vida real, do tipo @nacionalidade ou #procedência.
Quando se migra, a naturalidade vira nome de família e se deixa de ser, por exemplo, o jornalista Álvaro Filho para se tornar para toda vida, amém, Álvaro Filho, o jornalista brasileiro.
Assim como a porteira portuguesa em Paris, o padeiro tuga no Rio ou o japa da lavanderia em São Paulo.
E vamos combinar, quem é diariamente e eternamente lembrado que não é português, brasileiro, francês ou alemão, porque diabos de uma hora para outra se converteria em português, brasileiro, francês ou alemão durante um mês de Copa do Mundo?
Não, meu amigo português, sinto muito, não conte com a torcida do imigrante.
Esse pensamento veio à tona quando o meu filho menor confidenciou-me num sussurro que não iria torcer por Portugal no Mundial. Isso quando me preparava para pendurar a bandeira portuguesa na varanda, ao lado da brasileira, como costumava fazer.
Veja só, tem onze anos, dez em Lisboa. Viveu praticamente toda a vida longe do Brasil, aterrou em solo português no ano do título do Euro, testemunhou a melhor fase do futebol lusitano, com direito ao maior jogador da história recente do desporto em ação no relvado.
E ainda assim, Portugal não o cativou.
Prefere o duvidoso Brasil e sua seleção claudicante, na contramão do sucesso português, talvez a pior da história da Canarinha, sem títulos, sem herois, apenas vilões, fracassos, vexames.
Masoquismo? Nada disso.
Coerência.
E olha, que tentei. O mais novo teve direito a camisola portuguesa, foi para jogo e até treinou no Benfica. E nada.
Nestes mesmos dez anos de Portugal, meu filho menor foi diariamente lembrado que não era português. Pelos colegas da escola, pelos professores, pelos funcionários do balcão do SEF e agora da AIMA.
Nos últimos três anos, a residência tem-lhe sido negada, apesar do pai e da mãe já terem o estatuto de portugueses. Tem sua liberdade reduzida, sua felicidade mais reduzida ainda.
Pense aí um minutinho e me responda: por que diabos, então, o meu filho menor iria torcer por Portugal? Pelo país que faz questão de lembrá-lo todo santo dia que ele não é parte desta nação e, recentemente, nem bem-vindo é?
O amor, meu caro e minha cara, não surge do nada, não se compra.
Ou se sente ou não se sente. Simples assim.
E é por isso que quem passar por Alvalade e notar uma bandeira do Brasil pendurada numa varanda não verá mais uma de Portugal ao seu lado.
Apenas um vazio. Um imenso vazio.
Vazio como o amor de Portugal pelo meu filho.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
