Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Maputo está frio. Estamos no inverno. Existe outra estação além do verão em Moçambique? Pois está aí a resposta: andamos com mínimas de 10 graus e máximas de 24. Está frio. É inverno.

Os acasacados esses não sofrem com as alterações. Viste-os ao sol de 35 graus e vê-los-ás agora aos 24. Nós outros vamos alternando. De manhã e à noite, de camisolas. Durante o dia, de camisetas. E as calças jeans de sempre. Já se sabe que os europeus gostam de Maputo neste período do ano, quase indo sozinhos às praias para mergulhar no Índico. Nós, a fugirmos da água, a deixarmos as ruas desertas ao cair da noite, metidos debaixo de cobertores duplicados, e eles de calções e chinelos pela cidade.

Zombeteiros, dizem-nos que em Moçambique não há inverno, pois há. Nestes dias até saio todo precavido, como se nevasse lá fora. Quando fui pela primeira vez em Lisboa, faziam uns 16 graus Celcius, eu estava de calções e fui lambido por um frio que nunca me esqueço. Foi aí que comprei um casado à sério, nem imaginava que depois ia apanhar uns zero graus em Berlim. O problema mesmo é que, em condições normais, não temos camisolas para frio. As nossas casas são preparadas para o verão. Quase nenhuma casa em Maputo tem aquecedor ou sequer chuveiro com água quente. Temos janelas enormes, coberturas de zinco — que transpiram no nevoeiro nocturno e matinal — e chão de cimento queimado.

Ficar doente ao ponto de ser internado num hospital nesta altura do ano é o pior que te pode acontecer. O frio parece instalar-se nos hospitais. Mais vale o verão. Contra a malária já andamos treinados: todas as camas têm redes mosquiteiras. Entras nos quartos das casas desta cidade e não há telhado onde não esteja pendurada uma rede, nem cama que nos cantos não tenha postes para a sustentar. É ela que cria a barreira entre os Anopheles e os humanos.

Vês? Temos inverno, sim, em Maputo. As noites são mais longas. Às 17 horas já começa a escurecer. A luz do dia só começa a espreitar depois das 6 horas. Mas é estranho que nem assim a gente durma mais uma horinha do que o habitual. É chegar a casa às 20 horas e levantar-se às 4, na mesma. É subir no primeiro my love que estaciona na paragem e ter o vento frio a bater no rosto e a electrocutar as orelhas. Nem é que nos doa alguma coisa, até porque viajamos de braços dados ou com os corpos colados uns aos outros. Mas não estamos habituados. Custa-me acreditar que alguém se habitue ao chicote.

Enquanto isso, leio a tua carta e em Lisboa são arraiais e sardinhas. São os casamentos de Santo António e as roupas dos festivaleiros que dão que falar. Deixa-te de sushi e come uma sardinha. E leva a vida menos a sério, em nome de um santo qualquer. Não aprendeste nada sobre a vida em Maputo? Aqui a gente diz “morrer é daqui pra qui”. Então é o agora que importa, mete todo o dinheiro na brasa e come lá umas castanhas. Isso se escrever der dinheiro, que eu sei que tu só escreves. Peguei o vício do “só” que nos colam à cara quando vamos cobrar o honorário.

Fora isso, se Maputo tivesse a moda dos santos, apostava em São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis e dos desesperados.

Em Lisboa tudo é levado com uma seriedade que nos deixa sempre tensos. Para as pessoas se encontrarem, marcam horas. Para um almoço, um jantar, até um chá, combina-se tudo: a hora, o local e as contas, feitas e divididas. Para dançar e cantar pelas ruas tinha de haver um período próprio; não é de espantar.

Em Maputo encontramo-nos sem combinar, comemos e bebemos e logo se vê na hora da conta. Mesmo sendo cinco, pode ser um só a pagar. Quando morre alguém fazemos uma vaquinha. Grão a grão enche a galinha o papo, e o morto vai descansar em paz.

Numa festa então há lugar para mais dois ou dez, que não faz mal. Até porque é preciso que alguém venha dançar e animar a festa. Já agora, os não convidados, essas almas voluntariosas que vão curtir a comida dos outros, são sempre os que mais dançam, por isso, só lhes agradecemos que tenham vindo mesmo sem serem chamados. Damos por nós somos todos primos. Também podíamos usar a expressão São Tomé e Príncipe.

Dito assim, parece que está tudo bem. Que reina a paz. Que estamos felizes. Que não é preciso emprego para a malta. Que não é preciso sequer um plano sobre o que fazer, no futuro, com todas as crianças que nascem todos os dias neste país.

E o que fazer com a malta dos 25 aos 35 anos que anda por aí sem plano A nem plano B?

Bom, a moda agora é o empreendedorismo: ter um skill, fazer o budget, mudar o mindset, e fazer o grow up; criar uma start-up, dar emprego aos outros, leadership. É o que ditam os coaches e os políticos visionários. Do nada, viramos uma cidade em que todo mundo sonhar em ser rico, faz negócios e enfia-nos ouvidos adentro um tal de mindset. Já os outros que não conseguem engrenar no vocabulário successful, fica nos semáforos a lavar para-brisas a troco da generosidade dos condutores. Vender fruta no semáforo. Ou ir mais directamente ao assunto: interpelar as viaturas de mão estendida. E se os carros estão estacionados? Os jovens aparecem com baldes para os lavar por uma nota. Ou então ganham uma moeda por terem guardado o carro. E se não pagas nada? Diz adeus ao farol, ao pneu ou ao espelho. 

E se em tudo isso não fores bem-sucedido, abre uma igreja, converte-te e ide pelo mundo anunciar a palavra. Os pobres adoram dar dinheiro em nome de Deus. Aposta nisso, Ana Bárbara. Quando vieres, fala qualquer coisa em nome de Deus e chamamos-te mãe, profeta, pastora, vidente ou deusa.

Isto já vai longo e não vou a tempo de falar-te da tragédia que foi a minha instrução religiosa nem dos ratos que expulsaram o governador da residência. Capaz de o meu chefe pensar que passo mais tempo a escrever-te cartas do que a produzir comunicados de imprensa.

Tenho de aprender contigo a praticidade. Essas meias palavras ainda me fazem as delícias quando te leio. Já te disse que te leio com a mesma flexibilidade com que acho que dizes as coisas?

Sabes que já apresentaram queixa do teu feitio de duas ou três palavras e pronto? Sem beijinhos, sem abraços e tal e tal?

Nesses casos digo sempre que é isso que te torna melhor. Dizem que os nossos santos bateram, mas eu digo que foi o encurtar das frases que nos juntou. Ou seja, para quê dizer numa hora o que cabe num minuto?

Mas isso não se aplica às relações aqui em Moçambique.

Vê, sou eu a comunicar a um primo que o meu pai morreu:

— Bom dia.
— Bom dia.
— Tudo bem, primo?
— Numa wella. E aí?
— O papá morreu.
— Morreu?
— Sim.
— O tio António?
— Ya.
— Já não está entre nós?
— É isso mesmo.
— Oh, my God!
— Ya.
— Epa, como isso é possível?
— Epa, é a vida, primo.
— E a tia, como está?
— Epa, sabes como é, né?
— E como fazemos?
— Enterramo-lo. Avisa o resto da família, os tios, os outros primos.
— Claro. Não são boas notícias, mas…
— Ya.
— Mas é a vida, não é?
— É.
— Oh, my God!
— Está bem, primo. Vou voltar aqui às coisas.
— Claro. Muita força.
— Obrigado.

Vês? Assim um morto dá a volta existencial e ressuscita antes do terceiro dia!

Por isso prefiro falar de política. E da vida das pessoas. Porque aqui a morte não vem só. Na verdade, perder um familiar dá tanto trabalho que não nos sobra tempo para nos contorcermos na angústia. Se for o patriarca, é mesmo o fim do mundo.

E os políticos aperceberam-se disso. É comum, nas campanhas eleitorais, prometer-se uma morgue, serviços funerários gratuitos, etc., etc. E fico a perguntar-me se ao menos essa gente leu O Bem-Amado.


Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

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