“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
O Filipe já estava à porta da escola básica n.º 110 uma hora antes de o ensaio da Marcha de São Domingos de Benfica começar. Olhar curioso e solícito, a dispor-se à conversa. Tem 36 anos, cresceu na Quinta dos Barros, ali na freguesia, e não trabalha. Tem dificuldades cognitivas, explica, não sabe ler nem escrever e, por isso, é complicado arranjar emprego. Mas isso não o impede de saber quem precisa de ajuda para carregar os sacos das compras, quem vive sozinho e agradece uma visita, quem precisa de apoio pro bono na limpeza da casa.

Em São Domingos de Benfica, se perguntarmos quem é o Filipe, toda a gente sabe, garante ele. Este ano, é aguadeiro da marcha. No ano passado foi porta-estandarte – “o que leva a marcha à frente”. No anterior, par suplente. Há sempre um lugar para ele aqui, e isso diz muito sobre esta marcha.
“O aguadeiro faz tudo o que é preciso para ajudar”, explica Filipe Damas, orgulhoso da função que lhe foi atribuída e que tem tudo que ver com o que faz todos os dias.
Isabel Mendes fala dele com ternura. “É um miúdo com dificuldades, mas é muito prestável e muito bem-educado e encontramos sempre um lugar para ele, como tem de ser, porque a nossa marcha é de todos e é muito importante para nós esse papel integrador”.
Não deixe a marcha morrer, não deixe a marcha acabar
Isabel é a presidente da Comissão de Moradores de São Domingos de Benfica e a pessoa sem a qual talvez já não existisse a Marcha de São Domingos de Benfica. É também, conforme se vai percebendo ao longo da conversa, uma mulher determinada.

A história dela com a Marcha de São Domingos de Benfica começou em 2015, quando a filha Inês recuperou de uma doença grave e as duas decidiram celebrar a vida nas marchas de Lisboa. A Associação de Moradores Flor da Serra estava a organizar a marcha pela primeira vez em mais de duas décadas e mãe e filha inscreveram-se e foram selecionadas.
Com Isabel Mendes e Inês Correia, candidataram-se umas 100 mulheres, lembra a atual coordenadora da Marcha de São Domingos de Benfica, que sentiu ali qualquer coisa que não podia ignorar: a freguesia queria muito estar representada nas Marchas Populares de Lisboa e desfilar na Avenida. Em 2016, a Associação de Moradores Flor da Serra desistiu. Isabel não.


“Fiquei muito triste, porque é um projeto que eu adoro e faço de paixão. E achei por bem pegar nele.” Em 2017, criou a Comissão de Moradores, com um objetivo claro, devolver a marcha a São Domingos de Benfica, e um ponto de partida mais claro ainda, do zero. “Não tínhamos sede, não tínhamos dinheiro, só tínhamos uma imensa vontade de manter viva a Marcha de São Domingos de Benfica”, diz.
Nove anos depois, continuam sem sede. A Junta de Freguesia emprestou-lhes duas lojas, onde guardam os materiais e se reúnem quando é preciso. Antes disso, não tendo onde guardar os adereços, tinham de deitar praticamente tudo fora. O que continuam a não ter também é um lugar com as condições necessárias para ensaiar. Já reuniram várias vezes com a Câmara Municipal de Lisboa e a resposta é sempre a mesma: a freguesia tem poucos espaços.
As colinas são feitas de marcha, de marcha para a gente marchar
Numa noite de abril, o ensaio acontece ao ar livre, no pátio da escola básica nº 110 de São Domingos de Benfica, não há marcações, a iluminação é má, mas não chove, o que é uma sorte – se chovesse, estariam ali na mesma, como já estiveram.
“O mercado, onde fizemos os primeiros ensaios, é demasiado pequeno, e, portanto, ensaiamos nesta escola, que teve a gentileza de nos emprestar o espaço”, diz Isabel, que chegou a pedir à Mesquita Central de Lisboa e à Fundação Aga Khan a cedência de pavilhão, que não foi possível por questões de calendário.

“Se for a outras marchas, vai concluir que a que tem menos condições é a de São Domingos de Benfica”, diz Isabel, a sorrir, porque não é isso que a demove, até porque também não é a competição que a move.
“Claro que gostamos de brilhar e queremos ficar bem classificados, mas é também importante para nós sentirmos a nossa freguesia representada”, diz, voltando a fazer uma pergunta que diz estar farta de fazer, sem conseguir que lhe respondam: “qual é a lógica de algumas freguesias terem quatro marchas na Avenida e outras nunca saberem se vão ser sorteadas? Se são as festas populares de Lisboa, não deviam todas as freguesias estar representadas?”
Afinal eram duas as perguntas de Isabel Mendes e fazem sentido, sobretudo se pensarmos que marchantes, organizadores e aguadeiros participam de forma voluntária e amadora, seja por amor ao bairro, à freguesia ou simplesmente à tradição das marchas populares.



Durante os pelo menos três meses que antecedem a apresentação, todas ou quase todas as noites são dedicadas às marchas, após um dia de trabalho, às vezes exigindo troca de turnos, para quem trabalha por turnos, e cimeiras negociais para organização da logística familiar, quando há filhos pequenos.
“Tem de se gostar muito disto”, repete Isabel Mendes, como um refrão.
“Pobrezinhos, mas honestos”
É esse gosto que a leva a adiantar parte do financiamento, enquanto os financiamentos oficiais, da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica, que têm prazos nem sempre compatíveis com a preparação de uma marcha organizada por uma estrutura sem fontes de receita como a Comissão de Moradores, não chegam.
Sem patrocinadores, sem jantares de angariação de fundos, noites de fado ou outros eventos que tragam receita, as contas fazem-se com a Comissão de Moradores de São Domingos de Benfica a gerir cada euro com a exatidão de quem sabe que a margem de erro é zero.

“Estamos a 8 de abril, a dois meses da Avenida. Os arcos já estão a ser feitos, os tecidos já foram comprados, a costureira já está a fazer os figurinos. Felizmente, eu tenho possibilidades, mas é muito complicado”, assume Isabel, ressalvando que enquanto puder, cá estará para apoiar.
“Pobrezinhos, mas honestos”, atira, com humor, Cristina, que está a ouvir a conversa. Isabel ri e apresenta-a como sua “assistente comercial”. “A Cristina trabalha nesta escola e é ela que vende as t-shirts, as sweats, os bilhetes e afins”, explica.
Nuno, “braço direito e esquerdo” de Isabel, acrescenta que há umas marchas que têm um apoio financeiro substancialmente maior por parte das respetivas juntas de freguesia do que outras. “Mas estamos aqui e isso é que importa”, diz.

Para quem não conhece o processo: das vinte marchas que desfilam na Avenida da Liberdade na noite 12 de junho, dezassete ficam apuradas automaticamente para o ano seguinte. As restantes três vagas são distribuídas entre as candidatas que ficaram de fora através de um sorteio que se realiza em novembro. Para 2026, foram a sorteio nove marchas para três lugares. São Domingos de Benfica, que em 2025 ficou em último lugar, foi uma das sorteadas.
Mas há anos em que não “saem no pote”. Anos em que meses de trabalho e esperança se dissolvem numa noite. “Quando não se fica, é um desgosto para esta malta, porque andam aqui três ou quatro meses a trabalhar, a abdicar do descanso, do tempo com os filhos, e dá em nada. É uma tristeza”, diz Nuno, realçando que, por outro lado, saber só em novembro se vão participar é uma desvantagem.
«Começamos com cinco meses de atraso em relação às que sabem logo em junho. Nesses cinco meses podíamos fazer muita coisa: planear, angariar fundos, ensaiar, enfim”, lamenta Isabel.
“São Domingos de Benfica é que é”
Ainda assim, não faltaram candidatos. “Muitos homens, o que não é costume”, diz a responsável, habituada a ter muito mais mulheres do que homens nos castings. São 50 marchantes, metade homens e metade mulheres.
Nem todos são da freguesia, mas todos partilham o entusiasmo de representar São Domingos de Benfica, uns mais afincadamente do que outros, claro está, o que levou o ensaiador, João Bravo, a um intenso trabalho durante os três meses de preparação.



O Bruno, que é um bonacheirão, tem 21 anos, é gerente de um restaurante, e nasceu e cresceu em Alvalade, no bairro Fonsecas e Calçada. Marcha por São Domingos desde 2018, quando tinha 16, porque Alvalade não tem chegado à Avenida.
A Xana e a Joana são mãe e filha, vieram de Setúbal, convidadas pelo ensaiador. A Xana marcha há mais de vinte anos; a Joana começou aos três, como mascote.

João Félix, engenheiro de 61 anos, estreante nestas andanças, veio de Algés realizar um sonho antigo.
Este ano, a aposta foi alta. Isabel e a equipa escolheram como ensaiador João Bravo, sugerido pelo figurinista e cenógrafo Paulo Miranda. João Bravo esteve muitos anos na Marcha da Madragoa e, diz a coordenadora, “a vida dele são as marchas”. A exigência aumentou: cinco ensaios por semana em vez dos habituais três. E os marchantes responderam.
Joana Tecedeiro, focadíssima durante o ensaio, tem 32 anos, é gestora de produto e nasceu e cresceu em São Domingos de Benfica. Marcha desde 2021 e, quando a marcha não entrou na competição, recusou um convite para ir para outra. “Ou é por aqui ou não é”, diz, emocionada. “Embora sejamos conhecidos como uma marcha pequenina, quando lá estamos, somos os maiores.”

Como concilia os cinco ensaios semanais com o trabalho? Ao início parecia impossível, mas percebeu que não é. “Chega-se mais tarde, sai-se mais tarde, faz-se das tripas coração”. E depois há o que não se mede em horas: “Isto não é terapia, mas é terapêutico e eu, quando fazemos uma interrupção, sinto logo falta, uma espécie de vazio.”
Cristina é outra das mulheres que aqui faz tudo. Nasceu em São Domingos de Benfica e marchou pela primeira vez em 1992, quando a Junta de Freguesia organizou a marcha. Depois houve um interregno de muitos anos. Agora voltou. “É a minha terra. Eu nasci aqui na rua. A gente vai pela terra, não é?”
Ela e Elisabete – que é do Alto Pina mas veio atrás do filho, que se inscreveu sem ela saber – são “chefes da claque” e também se vestem a rigor para apoiar a Marcha Infantil das Escolas. “Não é só apoiar os grandes, também estamos lá para os pequeninos.”

A Avenida da Liberdade à espera
Estão lá para todos e uns para os outros, é isso que Isabel Mendes sublinha. “O envolvimento não é só com a marcha, é também com o bairro e com os vizinhos”, diz.
Durante os meses de preparação das marchas, fazem-se amizades, há sempre ombros à disposição quando é preciso, há o abraço de grupo no fim dos ensaios, e no resto do ano, há a brincadeira da Miss e do Mister São Domingos de Benfica, que mobiliza o bairro, a recolha solidária de roupa de bebé no Natal, o grupo de dança que entretanto nasceu.
“Eu gosto destes convívios”, diz Isabel. “Uns chegam aqui a brincar, outros a queixar-se ou a chorar porque tiveram um dia mau ou então a deitar fumo pelas orelhas porque o dia foi péssimo, mas acalmam quando aqui chegam. Acho que é isto. Também é isto que nos faz andar.”

Também é isto. A Comissão de Moradores de São Domingos de Benfica está à espera de uma sede, não tem verbas próprias e não tem a certeza de que a sua Marcha vai descer a Avenida no ano seguinte, mas tem gente, como Isabel Mendes, que não desiste. “Às vezes, canso-me, mas alguma vez estas melgas me deixavam desistir?”.
No dia 12 de junho, a Avenida da Liberdade espera-os.
“É pena isto durar tão pouco tempo”, dizem as “chefes” da claque. “A gente começa a habituar-se a este ritmo e a 13 de junho já está tudo acabado.”
Depois de toda a noite a ver quem ganhou e quem não ganhou, sem voz de tanto gritar de apoio, no dia seguinte vem a cura e a promessa de que para o ano se volta. Se calhar.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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