“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

O pavilhão da Polícia Municipal, em Campolide, soa a marchas de Lisboa. A música que ecoa cá fora funciona como bússola a quem está meio perdido. Não é desporto que hoje se pratica naquele espaço de luzes acesas e gente à porta às dez da noite. É um ensaio da Marcha da Bela-Flor Campolide.

Lá dentro, 50 homens e mulheres, de idades diversas, a maioria de Campolide, mas também de outras freguesias e até da outra margem, movem-se em fila, atravessam o recinto da esquerda para a direita, voltam atrás, fazem uma volta, formam pares. Nas bancadas, a assistir, familiares, miúdos e graúdos, e os elementos da comissão organizadora, que desde 2024 é garantida pela Academia de Artes Internas (ADAI), sediada em Campolide.

Este ano, o ensaiador da Marcha da Bela- Flor Campolide é Gucca Coutinho, que se iniciou como marchante aos dez anos e desde então vive para as Marchas Populares (não só de Lisboa). Foto: Rita Ansone.

Os ensaios começaram em março, de segunda a sexta, das nove às onze. Tudo isto – os meses de planeamento e preparação, as letras e as músicas, as decisões sobre figurinos e cenografia, os dias e horas de ensaios e a criação das coreografias – para dois grandes momentos: a apresentação no Meo Arena (em 2026, acontece entre 29 e 31 de maio) e a exibição na Avenida da Liberdade, na noite de 12 de junho, no desfile-concurso das Marchas Populares de Lisboa.

O “maestro” este ano é Gucca Coutinho, 32 anos, coreógrafo e ensaiador, vindo da Costa da Caparica. Marca passos, corrige posições, aproveita ao máximo o pavilhão, que só está disponível para os ensaios da marcha três dias por semana. “Este pavilhão tem o espaço que é preciso para fazer as marcações, como se estivéssemos no Meo Arena”, explica. Nos outros dias, o ensaio é na escola Marquesa de Alorna, ali perto, o que obriga a “fazer meia marcha, depois outra meia e depois tentar juntar tudo.”

Tudo e todos, em torno dos bairros da freguesia: Bela-Flor, Campolide, Serafina, Liberdade e Calçada dos Mestres. Também há quem venha de fora, mas quando veste a camisola desta marcha passa a ser daqui. É disto que se sustenta a Bela-Flor Campolide, do voluntariado, do amor ao bairro e do apego à tradição, em espaços emprestados e com ensaios à noite, depois de um dia de trabalho.

A marcha que ninguém queria

José Carlos Almeida cresceu no centenário Sport Lisboa e Amoreiras, onde ganhou o gosto pela causa associativa, durante 18 anos foi presidente da direção do Clube de Recreio Popular (CRP Campolide) e, em dezembro de 2021, fundou a ADAI, “com o propósito de trabalhar com pessoas mais velhas e com diferenças, para combater a inércia e o isolamento e criar dinâmicas desportivas, culturais e recreativas”, explica.

José Carlos Almeida é o presidente da direção da Academia de Artes Internas, que organiza a Marcha da Bela-Flor Campolide. Foto: Rita Ansone.

Em pouco tempo, as expetativas estavam mais do que superadas. A ADAI chegou às 500 pessoas em atividades – entre elas, cerca de 400 praticantes semanais de Tai Chi terapêutico, diz José Carlos, que já estendeu a oferta à vizinha Campo de Ourique. “Estamos a trabalhar lá com pessoas invisuais e universidades seniores e tem sido muito gratificante”, diz.

Foi à ADAI que, em 2024, o Presidente da Junta de Campolide, dada a orfandade a que estava votada a marcha, propôs a missão de a adotar.

“Toda a vida vi marchas, mas nunca me tinha surgido a possibilidade de gerir um projeto desta natureza”, conta José Carlos Almeida. “Não fazia ideia de como é que se organiza uma marcha, mas achei que não seria impossível. Quando se quer uma coisa, consegue-se.” Aceitou.

Este é o terceiro ano que a ADAI leva a Marcha Bela-Flor Campolide ao Meo Arena e à Avenida da Liberdade. Do 17º lugar, em 2024, subiu ao 11º, em 2025 e quer continuar a subir.

“Ninguém queria a marcha e depois de nós termos avançado, já toda a gente a queria. É típico”, diz o dirigente da ADAI, com meio sorriso e um encolher de ombros.

“A ideia é ficar acima do oitavo lugar, a nossa melhor classificação”

Depois de muitos anos como marchante, Andreia Oliveira aceitou o desafio de coordenar a marcha do coração. Bela-Flor é o bairro onde nasceu e cresceu. Foto: Rita Ansone.

A coordenadora da Marcha da Bela-Flor Campolide é Andreia Oliveira, 47 anos, auxiliar de educação e mãe de três filhos. As marchas populares estão-lhe no sangue. A mãe era marchante, o pai organizou o primeiro arraial popular do bairro, que foi no Alto de Campolide, e ela marcha desde pequena.

No entanto, a coordenação da marcha é uma estreia. “É a primeira vez que me meto nestas andanças. Nos outros anos, tenho estado sempre ali onde eles estão”, diz, apontando para os marchantes. Este ano teve de abdicar. “Não dá para acumular. A coordenação implica muito trabalho.”

A preparação começou em agosto do ano passado: figurinos, letras, músicas, escolha do ensaiador, inscrições, casting. As coreografias são com o ensaiador. O resto está a cargo da comissão organizadora, coordenada por Andreia. “Na verdade, o trabalho é coletivo. Eu dou mais o aval, mas trabalharmos e decidimos sempre em equipa”, explica

O casting é talvez o momento mais difícil. “Há muita gente que se inscreve, mas isto é só uma marcha, é impossível ficarem todos e às vezes custa um bocadinho”. São cinquenta marchantes, 25 homens e 25 mulheres. Depois há os porta-estandarte, os aguadeiros, as mascotes e a claque, mas para esses, felizmente, não há audições.

Kalo é do bairro da Serafina, em Campolide, nunca foi marchante, sempre ficou na bancada, a ver. Até que este ano aceitou integrar a Comissão Organizadora, para tentar ajudar a marcha a ir mais longe. Foto: Rita Ansone.

Muitos marchantes já vêm de trás, outros chegam pela primeira vez. Há também quem não seja da freguesia: vêm da Margem Sul e das freguesias vizinhas, principalmente. Andreia explica: ser de Campolide tem peso na escolha, mas não é um critério absoluto.

Kalo, que, na verdade, se chama Rui, faz parte da comissão organizadora. Tem 35 anos, tem uma empresa de TVDE e vive no bairro da Serafina, desde sempre. Nunca foi marchante, mas a mãe dos filhos é. “Sempre gostei e sempre a acompanhei e este ano decidi entrar para ajudar a nossa marcha a dar um passo em frente. A melhor classificação da Bela-Flor Campolide até hoje foi o oitavo lugar. A ideia é tentar melhorar”, diz Kalo, cujos filhos, Gustavo e Marquito, já foram mascotes. Gustavo repete este ano.

A pressão existe. Das vinte marchas que descem a Avenida, dezassete continuam automaticamente para o ano seguinte. As três últimas vão ao saco com as outras candidatas a entrar. “Este ano foram nove a sorteio. Só entraram três”, diz o organoizador.

Quatro gerações de marchantes e o significado de vestir a camisola

O que significa, hoje, ser da Marcha da Bela-Flor Campolide? A pergunta encontra muitas respostas, mas antes delas, é importante perceber de onde vem a tradição das marchas.

As origens das Marchas Populares de Lisboa são diversas e ancestrais, mas a tradição de que é herdeiro o desfile na Avenida da Liberdade remonta a 1932, quando Campos de Figueiredo, proprietário do Parque Mayer, inaugurado 10 anos antes, convidou o cineasta e jornalista José Leitão de Barros, então diretor da revista Notícias Ilustrado, para organizar as Marchas Populares de Lisboa, de forma a dinamizar a nova sala do Capitólio [1931]. Logo nessa altura, foram as coletividades de cultura e recreio e as sociedades recreativas, filarmónicas, dramáticas ou de instrução de cada bairro lisboeta, que agregavam e mobilizavam os moradores desses bairros, as escolhidas para organizar as marchas.

Marcelo Coelho, o marido de Andreia, tem a árvore genealógica ligada às Marchas Populares de Lisboa. A tradição vem da avó e já vai na filha. Quatro gerações a descer a Avenida.

Isso explicará o bairrismo e o sentimento de pertença associados às marchas populares. A família de Marcelo Coelho, marido de Andreia, ilustra essa história, sintetizada no “Pedido de Inventariação das Marchas Populares de Lisboa no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial”.

Marcelo marchou pela primeira vez com a Bela-Flor, em 2003, no primeiro ano da marcha. Os pais sempre marcharam por Campolide. Quando a mãe morreu, em 2007, a marcha homenageou-a. “A minha avó, os meus pais, eu e já a minha filha. São quatro gerações nas marchas de Lisboa”, diz o marchante, olhando em volta à procura de uma pequena, que é neta de um primo e anda por ali. “Falta pouco para já passarmos à quinta geração”.

Eugénia, 27 anos, trabalhadora num call center, e a amiga, Vanda, são exemplo de outro fenómeno comum no que respeita às marchas. As fronteiras esbatem-se, quando a marcha do coração não se classifica. Tanto uma como outra são de Campolide, mas ambas marcharam pela Ajuda até 2023, ano em que esta ficou em 19º lugar. Eugénia mudou para a Bela-Flor em 2024. “Para ser sincera, foi porque é mais perto da minha casa, mas estou a gostar muito.” Vanda confessa um misto de emoções “Nasci aqui e sinto-me em casa, mas estive dez anos na Ajuda, é a minha marcha do coração.”

A primeira marcha em que Gucca entrou foi a da Costa da Caparica, onde vive e que também já ensaiou. Em Lisboa, ensaiou Belém e Benfica. Agora, está em Campolide e com vontade de vencer. Foto: Rita Ansone.

Rafael, 32 anos, é de Benfica, marcha que Gucca Coutinho ensaiou. Quando Gucca veio para a Bela-Flor, Rafael veio com ele. “É diferente, mas apanha-se bem. O mais estranho vai ser não marchar com a minha mãe e o meu irmão, que ficaram na Marcha de Benfica”. Lá se encontrarão na Avenida.

O próprio ensaiador, Gucca, tem uma história curiosa. Marchou pela primeira vez aos dez anos, pela Costa da Caparica, por acaso, e isso ditou-lhe o resto da vida. “Assim que entrei, no primeiro dia, acabou tudo para mim, vivo para as marchas, respiro marchas, só sei fazer marchas.” Já ensaiou Belém e Benfica, e sente que já existiu mais bairrismo. “Acho que hoje as pessoas vêm pela tradição das marchas, vêm para ser felizes e é isso que trabalho com elas, porque faz toda a diferença”.

O orgulho de ser Campolide

A Marcha da Bela-Flor Campolide é a parte visível de um projeto maior. A mesma associação e os mesmos voluntários que escolheram letras, músicas, figurinos, cenários e ensaiador, trabalham, no resto do ano, na dinamização das atividades da ADAI e estão a reerguer o Sport Lisboa e Amoreiras em torno do fado e do ténis de mesa, que distinguiram a centenária coletividade ao longo da sua história.

Um trabalho desenvolvido para as gentes de Campolide, os mais velhos, os mais desfavorecidos, os diferentes, que de outro modo ficariam em casa, mas também os outros todos. Vista assim, a marcha não é uma exceção no calendário da Academia de Artes Internas. É a mesma ideia levada à Avenida: tirar gente da solidão, da rotina, de casa, juntá-la, dar-lhe um chão comum.

Apesar de existir verdade no que Gucca Coutinho lamenta – “infelizmente, já quase ninguém mora nos bairros de Lisboa” – para explicar a mobilidade dos marchantes, que mudam de freguesia, seguem o ensaiador, escolhem a marcha que fica mais perto, mantém-se em muitos a pertença, a fidelidade.

É o próprio Gucca que o reconhece ao completar o raciocínio: vestir a camisola, diz, “quase iguala quem vive cá ou nasceu cá”. Uma coletividade viva é isso: o lugar onde essas pertenças todas, antigas e novas, coexistem.

Campolide precisa desse lugar. José Carlos Almeida não “doura a pílula” quando faz o retrato da freguesia. “Temos pessoas que ganham muito bem e pessoas muito pobres. Ainda há casas que não têm casa de banho.” É para essa freguesia, e não para uma versão idealizada dela, que a marcha desce a Avenida. A ambição declarada é o primeiro lugar – sabe que é difícil, mas quer tê-lo como objetivo.

Foto: Rita Ansone.

“Não é um ganhar por ganhar. É porque os campolidenses merecem. Eu gostava de poder dar aos mais desfavorecidos, e também aos mais abonados, um momento de glória e de orgulho de pertencer a esta freguesia.”

Quando o ensaio termina, já passa das onze. As crianças saem com os pais. Os marchantes adultos demoram-se a falar mais um pouco junto à porta. No fim de maio há o Meo Arena. Em junho há a Avenida. A Bela-Flor Campolide vai descer outra vez e cumprir o que se decidiu há três anos: que não faltaria.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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