“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
A tarde caminha para o fim, mas ainda há luz do sol, bendito horário de verão, e reina a quietude, benditas colinas. Em Lisboa velha, na Mouraria – bairro que já foi mais castiço, mas ainda é um bocadinho, apesar dos alojamentos locais, das casas vazias, das obras constantes e da falta de moradores –, há uma “ilha de resistência”, como lhe chamou o Francisco, com quem falaremos mais adiante. É a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, no número 11 da rua a que foi buscar o nome.
É quarta-feira, um dos dias em que a Casa da Achada encerra, abrindo apenas à noite, para o ensaio do coro, e, antes que o dito comece, Pedro Rodrigues, membro da direção da associação e maestro do Coro da Achada, faz as honras da casa.

Uma casa que nasceu da vontade de tornar acessível ao público o espólio de Mário Dionísio [1916-1993], poeta, escritor, pintor, ensaísta, crítico, professor e militante antifascista. Quando morreu, em 1993, deixou uma herança cultural imensa, não apenas material – livros, correspondência, documentos de trabalho, pinturas – mas também simbólica, que pode sintetizar-se na ideia de que a cultura não é nem pode ser privilégio de uma elite, é e deve ser um direito de todos.
Família alargada
É essa ideia que continua a alicerçar hoje, em 2026, quase 110 anos depois do nascimento de Mário Dionísio, a casa comprada em 2008, pela filha, Eduarda Dionísio, na Rua da Achada, para partilhar a herança deixada pelos pais.
Com mais 57 pessoas, Eduarda fundou uma associação cultural sem fins lucrativos, a que deu o nome de Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, e que, a 29 de setembro de 2009, abriu as portas ao público.
De um lado, o Centro Mário Dionísio, acessível por marcação, onde está o arquivo: a biblioteca, a correspondência, os documentos de trabalho de Mário e da mulher, também professora, Maria Letícia Clemente da Silva, e o espólio artístico.



“Mário Dionísio pintou a vida inteira, desde meados da década de 1930, embora poucos soubessem que ele era pintor”, conta Pedro Rodrigues. O livro de poesia Memória de um Pintor Desconhecido (1965) seria testemunho disso, seria ele próprio o pintor desconhecido, embora só em 1989, já com 73 anos, tivesse feito a primeira exposição individual.
Do outro lado, a Casa da Achada, espaço aberto ao público, amplo, que é galeria de exposições, palco e sala de ensaio do coro, sala de cinema, atelier de artes visuais, foyer para conversas, debates e lançamentos e o mais que for. Ao fundo, um balcão que é bar e livraria, em cima, uma mezzanine que acolhe a biblioteca pública feita de livros oferecidos por amigos, e, nas traseiras, um pátio exterior onde, no verão, a cultura também acontece.
A porta está aberta cinco dias por semana – segundas, quintas e sextas, das 15h às 20h, sábados e domingos das 11h às 18h. Fecha à terça e à quarta, mas à quarta à noite há sempre ensaio do coro. E à segunda, às 21h, há cinema.
A morte é para os outros
Musicólogo, crítico musical e estudioso da obra de Mário Dionísio, Pedro Rodrigues conheceu Maria Letícia Clemente da Silva, mas nunca conheceu o escritor. Esteve com Eduarda Dionísio numa outra associação, a Abril em Maio, e foi um dos 58 sócios fundadores da Casa da Achada, bem como os pais, João Rodrigues, editor, e Clara Boléo, revisora, que também participam no coro conduzido pelo filho.

Uma família, a de sangue e a que se escolhe, os amigos: a Casa da Achada também é isso. Está-lhe na génese. Como está a vontade de partilhar um arquivo de forma a mantê-lo vivo.
“A ideia da Eduarda foi sempre a de que o espólio do Mário Dionísio e da Maria Letícia tinha de ser posto à disposição, para ser usado e estudado por toda a gente, desde o investigador de história da arte ou da literatura até ao vizinho do lado”, explica Pedro. “O objetivo nunca foi apenas de preservação e arquivo, mas de o pôr a mexer, em relação com o presente e com as questões sociais atuais.”
Exemplo disso é a exposição recentemente inaugurada, a 26 de abril, com festa e atuação do Coro da Achada, no largo vizinho, O Riso Dissonante – A caricatura social em Alfonso Castelao e Jean Bruller (Vercors), que estará patente até 28 de setembro.



O título vem de um livro de poesia de Mário Dionísio. O texto de apresentação propõe-na como “uma oportunidade para falar de caricatura social, de arte e intervenção política” e justifica a sua pertinência num tempo “em que os que dormem em democracia podem acordar em ditadura”.
É uma posição política explícita, e a casa assume-a. Mário Dionísio foi militante antifascista, e a herança não é só estética. Pedro Rodrigues lembra-o sem rodeios: há motivos para endurecer o olhar e a atenção, em Portugal e fora dele.
À volta das exposições, e em paralelo, acontece o resto. Os Leitores Achados, grupo de leitura mensal. Houve, durante seis anos, um grupo de teatro comunitário, saído do projecto Kantata da Algibeira, com texto de Regina Guimarães. Há oficinas quase todos os fins-de-semana – pintura, desenho, escrita, artesanato, saberes e fazeres em que se mexe nos materiais e se experimenta. Há cinema às segundas. Há debates sobre Mário Dionísio e os seus pares, e sobre o que o presente impõe: paz, guerra, direitos, feminismo, habitação, cidade.
Mudam-se os tempos, não se mudam as vontades
Eduarda Dionísio morreu em maio de 2023. Hoje, a presidente da Casa da Achada é a filha, Diana Dionísio, mas a matriz, que vem da mãe e dos avós, mantém-se.
“Cabeça e mãos”, gesticula Pedro. “Sempre o fazer e o pensar juntos, tentar ligá-los ou voltar a ligá-los, porque socialmente, muitas vezes, estão separados. Estão os pensadores e os fazedores, os que sabem e os que não sabem, e são essas barreiras que tentamos quebrar.”
Não se trata, esclarece o maestro, de “educar o povo”. Não é por aí. “A ideia, que vem muito da Eduarda, é sempre criar pontos de encontro entre os que sabem e os que não sabem, ou que sabem coisas que não são normalmente valorizadas, é contrariar o preconceito de que a cultura é para os cultos.”




Daí as oficinas onde se mexe nos materiais, se toca na tinta, se experimenta. Daí o coro aberto a todos os que queiram cantar (mesmo que não cantem bem). Daí o convite a todos para que se tornem Amigos da Casa da Achada e, tornando-se, participem, envolvam-se e proponham atividades. Daí o princípio, firme, de que tudo o que se faz ali é gratuito, com exceção das edições, que têm custos de produção.
“Claro que há outras barreiras, que não são feitas por nós, que são sociais, que afastam as pessoas das artes e da cultura”, reconhece Pedro Rodrigues. “Mas esta [a do custo], que depende de nós, aqui não existe.”
Quanto às outras, o trabalho desenvolvido procura justamente desfazê-las, desfazer cerimónias, criar proximidade, intimidade, com a cultura.
“Muita gente entra aqui e acha que é para fazer silêncio”, diz Pedro, “nós desconstruímos isso, fazendo coisas em que quem participa não é remetido ao papel de mero espetador”.
Traz outro amigo também
A programação não obedece a uma lógica convencional, resulta do trabalho coletivo de um Núcleo de Atividades, composto por Amigos da Casa e membros da direção, que também acolhe sugestões, opiniões e propostas de todos quantos participam no espaço. O fio condutor é sempre, de uma forma ou de outra, o universo de Mário Dionísio.


Rubina Oliveira faz parte desse núcleo e da direção. Começou pelo coro, em 2009, e foi-se envolvendo e envolvendo. “A Casa da Achada foi uma revelação para mim. Eu trabalho numa empresa de seguros, das nove às cinco, que não tem nada a ver, e aqui estou, sempre a descobrir coisas, pessoas, e a descobrir-me a mim própria, a pensar, a criar, a cantar. Também faço contas, mas faço muito mais que isso”, diz.
O Coro da Achada é uma das portas de entrada para a casa. Tem uma característica que se calhar não é única, mas é rara: é aberto. Qualquer pessoa pode chegar e cantar. Não há audições. “É um coro de pessoas que têm vontade de cantar”, diz Pedro. “É o que basta”.
Muita gente que nunca tinha vindo à Rua da Achada acabou amiga da casa porque veio cantar. Vinte ou trinta pessoas regulares, outras que aparecem pela primeira vez e voltam, na quarta-feira seguinte ou meses depois. Muitos chegam trazidos por amigos, outros porque ouviram o coro numa qualquer iniciativa e identificaram-se.

À porta, antes de o ensaio começar, está o Francisco, que já morou em Lisboa, agora mora no Cacém e está há quinze anos no coro. Veio porque uma amiga insistiu – encontravam-se em jantares e acabavam sempre a cantar. Quando se reformou, recentemente, passou a estar mais presente e a contribuir mais com trabalho voluntário para a casa.
“A Casa da Achada é uma ilha de resistência”, diz. “Admiro imenso o que se faz aqui, não só no coro, em todas as atividades: o cinema, as exposições, os debates. Tivemos um grupo de teatro, temos os Leitores Achados, vamos ter agora, em finais de maio, a Leitura Furiosa. Há sempre tanta coisa. É entusiasmante”.
Françoise dá corpo às palavras de Francisco. Tem um sorriso feliz e isso tem que ver com este lugar e com o ensaio que está à espera que comece. Francesa, vive em Portugal desde 1985 e conheceu Eduarda Dionísio no ano em que chegou. “Foram os primeiros amigos que fiz em Lisboa”, lembra com saudades e lamentando só ter chegado ao coro em 2013, porque estava em França quando a Casa da Achada abriu. Desde então não falha, nem quando está fora (acompanha os trabalhos à distância).




Concorda com Francisco quando este diz que o Coro, como a Casa, está em contínua construção. “Há um núcleo de ‘históricos’, entre muitas aspas, mas há sempre gente nova a chegar, a gostar e a passar palavra”, diz o veterano.
Uma das recentes “aquisições” é Rose, norte-americana, há cinco anos em Lisboa, coralista há menos de um ano, graças ao desafio de Françoise, que conheceu nos Jardins Abertos. Tímida, fala baixinho e num português tirado a ferros. “Aprendo palavras portuguesas a cantar”, revela.
Já Pedro, Mário e Rita têm em comum o facto de terem ficado a conhecer o Coro da Achada em manifestações do 25 de Abril ou do 1º de Maio e se terem identificado com as canções e com a informalidade do grupo.
“Quando os ouvi, pensei que este era o coro certo para mim”, diz o Pedro, professor de filosofia. Mário, arte-terapeuta, diz exatamente o mesmo. A Rita, que já cá tinha estado em 2018, e se afastou por causa de ensaios de teatro à noite, voltou em setembro de 2025 e voltou a sentir-se como em casa. “Sinto que aqui também é o meu lugar”, diz.
100 por cento para a cultura
Os mais de 600 Amigos da Casa da Achada são uma das principais fontes de receita da associação. Pagam uma quota semestral (mínimo 15 euros) ou anual (mínimo 30 euros), com o valor que entenderem, e dessa forma contribuem para a sustentabilidade do espaço e sobretudo para a manutenção da gratuitidade das atividades.
Em troca, recebem a possibilidade de participar, discutir e dar ideias, pôr-se a par da vida da Casa, usar a Biblioteca Pública, tomar um café e estar por ali à conversa, além de descontos nas edições da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio e da possibilidade de empréstimo domiciliário dos livros da Biblioteca Pública.

A casa sustenta-se com as contribuições dos Amigos da Casa da Achada, um pequeno apoio da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, um apoio regular da Câmara Municipal de Lisboa, as receitas da venda das edições próprias e de angariações de fundos pontuais, em eventos festivos. Há três pessoas contratadas que garantem o horário de abertura, o trabalho no arquivo e tarefas de organização, divulgação e comunicação, e o resto é trabalho voluntário.
Tem uma vantagem rara nestes tempos: ao contrário de muitas associações lisboetas, não tem o peso de uma renda. O espaço pertence à família Dionísio e está cedido à associação “Nos tempos que correm, é uma vantagem enorme”, reconhece Pedro. “Há muitas associações lisboetas que já foram despejadas ou estão em risco real de despejo. Aqui na freguesia, por exemplo, a Academia de Recreio Artístico está a passar por isso.”
Os efeitos da gentrificação também se sentem na Casa da Achada. Muitos dos amigos da casa já não vivem em Santa Maria Maior – a freguesia que, segundo os Censos de 2021, foi a segunda da capital, atrás da vizinha Misericórdia, a perder mais habitantes (20 por cento). Outros nem sequer vivem em Lisboa.
“Um dos sinais concretos disso são as crianças que vinham às nossas oficinas. Eram muito mais, nos primeiros anos. Claro que algumas cresceram, mas outras saíram do bairro e sobretudo não vieram novas”, diz Pedro Rodrigues.
A cultura é uma arma
A Casa da Achada faz o que pode contra essa geografia que se esvazia. Trabalha com associações vizinhas, sai para a rua, aproxima-se das freguesias do lado, não se fecha no bairro. Deixa-lhe as portas abertas, mas vai mais além. Na verdade, sempre foi. “Pensamos com horizontes mais largos – Lisboa, Portugal, Europa, mundo”, diz Pedro.
São 21h00. O ensaio começa, finalmente. Uma roda de mulheres e homens, de idades e nacionalidades e bairros diversos e, ao centro, Pedro Rodrigues, o maestro bailarino. É difícil não dançar, quando as vozes se enchem de canções e entusiasmo.

O Coro da Achada nasceu antes de a casa abrir oficialmente. A história é assim: no espólio de Mário Dionísio havia duas canções musicadas por Fernando Lopes-Graça, com letra de Dionísio. O grupo da Casa da Achada pensou “vamos convidar um coro para cantar isto na inauguração”. E alguém perguntou “por que não cantamos nós?”.
Cantaram. Essa e outras. E há 17 anos que continuam a cantar, na Casa da Achada, no largo vizinho, por Lisboa fora, pelo país fora e até fora do país. No fim de semana do 25 de Abril fizeram cinco apresentações solidárias em vários pontos da cidade.

É possível olhar para a Casa da Achada como um caso particular: uma associação cultural pequena, uma família que decidiu partilhar um legado, um coro que aceita toda a gente que tenha vontade de cantar. Mas este lugar é mais que isso. Tem que ver com uma ideia de cultura enquanto direito e não privilégio, enquanto instrumento de cidadania e garante da democracia e da liberdade.
A Casa da Achada é um lugar que faz o que devia ser óbvio em cada bairro, em cada freguesia, em cada concelho do país: garantir que a cultura está ao alcance de quem ali vive ou de quem ali passa. Com porta aberta e entrada livre.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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