“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

À esquerda da Rua Wanda Ramos, as traseiras das casas azul-gasto do não cumprido projeto SAAL, assinado pelo arquiteto Manuel Vicente [1934-2013], e que deu o nome a todo o bairro: Portugal Novo. À direita, os blocos de prédios da Gebalis, em amarelo-claro e cor de tijolo, que realojaram, na década de 1990, os moradores do “comboio” – conjunto de pré-fabricados que existia onde é hoje o edifício dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa – e dos bairros de barracas que persistiam nas antigas quintas do vale do Areeiro.

No fim da rua, fica o espaço da AMPAC – Associação de Moradores Paz, Amizade e Cores, e o princípio desta história.

A Associação de Moradores Paz Amizade e Cores (AMPAC) nasceu no Bairro Portugal Novo, nas Olaias, Areeiro, para dar a estes jovens e crianças cultura, educação e mundo. E eles têm sabido aproveitar a oportunidade. Foto: Rita Ansone.

À porta, um grupo de jovens à conversa, lá dentro mesa posta para o almoço que a “dona Joana” está a ultimar, uma cachupa de chorar por mais (choro que compensa, porque há sempre mais), seguida de frutas várias que, por enquanto, assumem o papel artístico-decorativo de centros de mesa.

Não são raros estes encontros da AMPAC, associação de moradores fundada por Nuno Furtado e vizinhos do bairro Portugal Novo, em janeiro de 2019. Nasceu precisamente para defender os direitos de quem o habita e lutar por melhores condições e qualidade de vida – o que passa não só pelo espaço público, os serviços e os prédios, mas pela cultura, o lazer e a educação.

O bairro onde não havia nada e havia todos

Nuno chega, com a filha Laura, para dar as boas-vindas. A cachupa está quase. Tem 44 anos, nasceu em Portugal, filho de pais cabo-verdianos acabados de chegar, no início da década de 1980, e cresceu nas Olaias, primeiro nas barracas, depois no “comboio”, os pré-fabricados que ganharam o nome graças à disposição, que se assemelhava a uma correnteza de carruagens, e, finalmente, nas casas da Gebalis.

A infância e juventude foram passadas nas ruas desertas de tudo, nem campo de futebol, nem parque infantil, nem um café. Nada. Nunca foi de férias com os pais, que iam trabalhar antes de o sol nascer e voltavam depois de este se pôr. Também nunca foi com eles ao cinema, nem ao teatro. Não só porque não havia dinheiro. Também porque não havia o hábito nem a disposição. O domingo (porque ao sábado muitas vezes também se trabalhava) era dia de descanso.

A história que Nuno conta é comum à da maioria dos que cresceram no bairro, da geração dele e da seguinte, e nem sempre teve bons resultados. “Estivemos esquecidos durante décadas. Só se ouvia falar do Portugal Novo quando acontecia alguma coisa de mal”, diz o fundador da AMPAC, sublinhando, no entanto, que não alinha em narrativas de “vitimização”.

O ponto de partida de Nuno, ao criar a AMPAC, foram as memórias da infância no bairro Portugal Novo, onde faltava tudo. A pouco e pouca têm sido feitas conquistas, como o campo de futebol, que Nuno aponta, e um parque infantil, que está a ser construído. Foto: Rita Ansone.

“Agora, chegou um momento em que já não já não queremos ser o problema”, diz Nuno. “Queremos ser a solução para os nossos problemas.”

Foi isso que o levou a juntar alguns vizinhos e fundar a AMPAC. Entre os fundadores estavam pessoas da comunidade cabo-verdiana, cigana, indiana e portuguesa, as mais significativas do bairro.

“Sempre ocupámos o mesmo espaço e nunca houve uma divisão porque este é cabo-verdiano e aquele é cigano ou indiano, mas, para chegar ao maior número de moradores possível e passar a mensagem de que o espaço é de todos, era importante ter gente de todas as comunidades”, explica o presidente da associação de moradores.

Quando criou a AMPAC, fez uma revisão da vida dele no bairro para lembrar o que lhe faltou, o que falhou, e foi essa memória que usou como ponto de partida.

Entre o bairro Portugal Novo e o centro do Areeiro distam cerca de 1000 metros, dez minutos a pé, mas a realidade de um território e de outro são muito diferentes. A AMPAC procura esbater essas diferenças. Foto: Rita Ansone.

“Como filho do bairro, posso ajudar a que outros miúdos não tenham as necessidades que eu tive. Isso é uma das coisas que a associação procura trabalhar, as competências deles, a nível pessoal, social e cultural, para lhes alargar horizontes”, diz.

“Não vimos das mesmas oportunidades. Tenho noção de que se me tivessem sido dadas ‘ferramentas’ mais cedo, teria chegado mais longe, o meu percurso profissional e intelectual teria sido diferente.”

“Eu próprio sou um projeto”

O contraste das Olaias e particularmente do Portugal Novo com a zona ocidental da freguesia do Areeiro não é, para Nuno, uma fatalidade urbana, mas uma consequência de transições mal feitas e de políticas públicas falhadas em matéria social e urbanística.

Da imigração sem acompanhamento, primeiro. Dos bairros de barracas para os prédios, depois. “Parece tudo muito simples, mas não é”, diz Nuno, que lembra que nas barracas as portas ficavam abertas, todas as mães tomavam conta de todos os filhos, partilhava-se a comida. A passagem para os prédios obrigou à adaptação a um novo estilo de vida, mas mais uma vez sem acompanhamento.  

“Por isso é que o trabalho nos bairros não é o mesmo que na Av. João XXI ou na Av. de Roma, aqui ao lado, onde há outra base, outra estrutura, outra educação, outro estilo de vida e onde as pessoas estão muito mais capacitadas. Os moradores dos bairros só agora começam a ocupar o seu lugar”, explica o presidente da AMPAC, reconhecendo que este é um processo lento e difícil.

“Os nossos pais não tiveram a audácia de querer mais. Os filhos já estudaram em Portugal, abriram horizontes, conheceram melhor os seus direitos. A terceira geração chega já com outras bases, porque os pais se capacitaram para serem mais iguais. Vai-se construindo, mas não é fácil.”

É isso que justifica a existência da AMPAC e foi por isso que Nuno Furtado a criou. Mas Nuno só fundou a associação, explica ele, porque alguém o preparou ou “capacitou”, como prefere dizer, para isso.

A cachupa da D. Joana é como uma fogueira à volta da qual todos se juntam, conversam, convivem. É um ponto de encontro. Foto: Rita Ansone.

“Eu próprio sou um projeto de outra associação que criou projetos para integrar e capacitar jovens e me deu a oportunidade de tirar um curso de líderes locais, outro de dinamizador social e outro de organizador de eventos. Se hoje faço este trabalho é porque lá atrás alguém me apoiou, formou e incentivou. Estou a devolver isso à minha comunidade”, diz, acrescentando que, de entre os projetos da AMPAC, um dos que mais se orgulha são as Batucadeiras das Olaias.

Tempu pa bo

Meia-lua de mulheres, e alguns homens, a chabeta de napa entre os joelhos batucada com mãos firmes e em uníssono com as vozes que ecoam cantares crioulos da terra, do arquipélago das origens. Ao centro, uma ou duas mulheres dançam com os quadris o pulsar ancestral. As Batucadeiras das Olaias nasceram aqui, no Portugal Novo, e desde então não pararam de passar fronteiras.

Hoje, não há batuque no bairro, mas a Clarisse e o filho, Manuel, que também integra o grupo de batucadeiras, vieram almoçar.

Manuel, filho, e Clarisse Monteiro, mãe. Foi ele um dos grandes impulsionadores das Batucadeiras das Olaias, grupo dinamizado por Clarisse, com a AMPAC, e a que o filho também pertence. Foto: Rita Ansone.

Clarisse Monteiro tem 57 anos e a voz tranquila (não só a voz) de quem não precisa de levantá-la para ser ouvida. Chegou de Santiago em 1991, com a filha de 11 meses, para se juntar ao marido, primeiro nos pré-fabricados, onde era vizinha da família de Nuno Furtado, depois para o bairro da Gebalis, nas traseiras da esquadra da PSP. Sempre trabalhou em limpezas e sempre precisou de tempo para mais do que trabalhar. O batuque nunca lhe saiu da cabeça. Seria a evasão natural. Mas o tempo não chegava.

“O trabalho, os filhos pequenos, o marido que passou por uma doença grave, uma leucemia aguda, quando eu tinha 28, 29 anos, não permitiram e, sabe, tudo tem de ser quando tem de ser”, diz.

Cabo-verdianos, indianos, ciganos, portugueses. A AMPAC juntou o que nunca esteve dividido, segundo Nuno Furtado, para dizer que todos tinham lugar na associação. Foto: Rita Ansone.

A vida não lhe deu folga, mas Clarisse, percebe-se, é sábia e obstinada. Ainda antes do batuque, conquistou o tempo para si e para conhecer o que havia para lá do bairro e do trabalho. Uma colega organizava passeios ao sábado e Clarisse trabalhava até mais tarde à sexta à noite, no Colombo, para libertar o dia. Foi assim que conheceu o Castelo de São Jorge e Alfama e o Bairro Alto e Coimbra.

“Saía contra a vontade de alguém em casa, e isso tornava as visitas alegres e tristes ao mesmo tempo, mas sabia que não estava a fazer nada de errado e precisava daquilo”, conta Clarisse, que hoje sente que esta foi também uma forma de se preparar para o que estava para acontecer: o grupo de Batucadeiras das Olaias.

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Atuação das Batucadeiras das Olaias, na Feira do Relógio, Foto: Líbia Florentino

O filho Manuel foi o maior instigador. Andava sempre a ver vídeos de batuque no YouTube e mostrava à mãe. “Mamã, porque não junta um grupo?”, insistia, até que Nuno Furtado decidiu criar um projeto da AMPAC dedicado a esta música e dança tradicional de Cabo Verde.

Clarisse percebeu que era agora que tinha de ser.

Logo em 2019, falou com três ou quatro mulheres. “Cada uma a quem eu dizia ‘vamos’, respondia “tenho o trabalho, não tenho tempo”. Foi daí que tirou o nome do projeto: Tempu pa bo. Tempo para si.

As portas que o batuque abriu

Começaram com umas tralhas dentro de um saco plástico, na sede, a batucar – assim era o “batuku” também na terra natal, explica Clarisse. Depois veio a pandemia, o confinamento. Pararam, mas já não havia volta. Compraram as napas e uma companheira que sabia de costura começou a fazer as chabetas e, quando puderam voltar a juntar-se, em 2021, já havia com que tocar e dançar.

O batuque, para estas mulheres, é muito mais do que expressão artística. “Estou sempre a dizer: deixa a janela para limpar, deixa a roupa para passar, deixa a panela. Sinto essa necessidade bem profunda do batuku ou de uma roda de chá, qualquer coisa que nos tire de casa, que nos dê aquele tempo para nós, umas com as outras”, diz Clarisse, que percebeu cedo que o batuque era a única porta que ninguém fechava.  

Propor um jantar entre mulheres não era bem visto. Ir ao cinema, nem pensar. O teatro estava fora de questão. “O batuku é muito antigo, mas mesmo assim não tinha a certeza se conseguiríamos fazer essa caminhada e conseguimos. Não se muda a cabeça das pessoas de outra forma, muda-se através do batuku.”

Atuação das Batucadeiras das Olaias, na Mensagem ao Vivo, no Teatro São Luiz. Foto: Vasco Leão

A porta abriu-se e não voltou a fechar. Subiram a palco no Teatro São Luiz, com a Mensagem de Lisboa, na Mensagem ao Vivo. Em Portalegre, participaram na peça Inseta, do UMCOLETIVO, de Cátia Terrinca. Fizeram parte do cartaz da World Music Week, da BOTA. Apresentaram-se em festivais como o Iminente, o Morabeza, o Ao Largo, o Motherland, entre tantos outros. Deram concertos Lisboa fora, país fora, levando o batuque aonde chamarem por ele.

Lisboa. Porto. Vila Real. Braga. Odemira. Festivais. Eventos. Museus. Teatros. Discotecas. O B.Leza, três vezes. “A primeira vez que estive no B.Leza, nem queria acreditar. Passavam aquelas luzes na minha cabeça e eu pensava: é verdade?”, conta a batucadeira.

Clarisse, Joana (a autora da cachupa) e Ricardina foram as primeiras. Alguém tinha de dar o primeiro passo. Começaram com cinco ou seis elementos, hoje são dezasseis, dezassete. Não têm mãos a medir, mas para Clarisse, cada saída, paga ou não, tem o mesmo valor. “Digo-lhes sempre, vamos aproveitar o momento, os aplausos, a alegria de quem nos ouve. É sempre a primeira vez”.

Clarisse Monteiro leva Lucas, às costas, de acordo com a tradição das mulheres de Cabo Verde, a terra natal. Foto: Rita Ansone.

“A sensação que tenho quando as vejo batucar é que estão a voar. Ajudá-las a recuperar uma expressão da nossa cultura, que trazem dentro delas, e chegar a um ponto em que já não precisam de ti é o melhor”, diz Nuno Furtado, que compara as batucadeiras a uma “árvore que, a partir de uma semente plantada, cria as suas próprias raízes”.

Ontem, hoje e amanhã

A Márcia, a Diana e a Sheila, que trabalham na AMPAC, com os miúdos e o mais que seja preciso, são outras das sementes lançadas pela associação. Tal como os 24 miúdos que integram os Jovens em Ação, um dos recentes projetos de capacitação da associação, criado em 2024.

Márcia tem 32 anos, trabalha na Mango e é a mais velha das monitoras. Diana tem 19, trabalha em marketing digital e, além de ser monitora, gere as redes sociais da AMPAC. Sheila, que está cá desde pequena, agora que tem 17 anos e está a fazer o 12.º na área de Ação Educativa, no ensino profissional, tornou-se monitora.

A infância de Márcia é a régua. Escola, ATL, casa. A mãe saía às cinco da manhã, voltava às oito, nove da noite. Cinco filhos, mãe sozinha, a prioridade era pôr comida na mesa. Os fins de semana eram passados a pentear as quatro filhas para a semana toda. As férias eram as que as instituições à volta davam – a Pastoral dos Ciganos, a Junta de Freguesia.

Márcia, 32 anos, é uma das monitoras da AMPAC e braço direito de Nuno Furtado na criação de projetos para a comunidade. Foto: Rita Ansone

“As férias eram o máximo e é por isso que este trabalho aqui é tão importante para mim, para dar aos miúdos aquilo que tive, proporcionado pelas associações aqui perto”, lembra. O resto do ano era diferente. Chegava à escola na segunda-feira e quando perguntavam aos meninos o que tinham feito no fim de semana, os outros diziam que tinham ido ao parque, aqui, ali. Ela inventava. “Dizia que também tinha ido ao parque, mas não havia parque nenhum. Literalmente nenhum”, lembra, a rir.

Diana nunca morou no bairro, mas passava as férias todas cá, na casa da “avó” Joana, mãe de Márcia, a D. Joana da cachupa e do batuque, uma verdadeira matriarca. A memória mais marcada da infância, que partilha com Sheila, é a de ficarem a brincar na rua até tarde e nunca quererem ir para casa.

Márcia ecoa, de forma mais despachada, o que Nuno dizia sobre dar mundo. “O bairro é uma espécie de bolha, as pessoas acham que esta é a única realidade que existe. Nós trabalhamos para rebentar essa bolha”, diz.

Os jovens que integram a AMPAC falavam durante o almoço das colónias de férias de verão, o ponto alto das atividades desenvolvidas pela associação. Foto: Rita Ansone

“Estamos sempre a criar novas dinâmicas, dias da cultura, aulas de dança, na Páscoa organizámos um piquenique em Belém, fazemos aqui encontros, temos as colónias de férias, que são o ponto alto do ano”, avança Diana.

A ideia é que este espaço seja uma segunda casa para eles, sem o peso da escola, longe dos problemas da família, onde se estimula o trabalho em equipa e se ‘ensina’ limites, direitos e deveres.

“Acho que eles precisam disso. Às vezes, sinto que fogem para aqui, quando não fogem para o telemóvel. Por isso, fazemos esse trabalho complementar de os manter ocupados com coisas criativas e produtivas que os afastem de coisas erradas nas ruas.” diz Sheila, que por ser a mais próxima em idade, é a que mais eficazmente faz a ponte para eles.

Portugal Novo numa panela de cachupa

A cachupa da D- Joana. Foto: Rita Ansone

O resultado concreto do trabalho desenvolvido surpreendeu até o próprio Nuno Furtado, num evento da Vida Justa, na Voz do Operário, no 25 de Abril deste ano. Depois da manifestação, o grupo Jovens em Ação montou lá uma banca de venda de cachupa e grogue. A AMPAC financiou os ingredientes, a D. Joana cozinhou. Eles trataram do resto.

Os Jovens em Ação, da AMPAC, na festa da Vida Justa, na Voz do Operário, no 25 de Abril, onde fizeram sucesso. Foto: @ampac.olaias

Quando a cachupa acabou, o evento ainda ia a meio. Não arredaram pé. Ligaram a coluna de som e dançaram as coreografias que têm aprendido na dança. As pessoas foram-se juntando e o lamento foi geral quando a bateria se esgotou. Voltaram a não arredar pé. Sem música, mas com público, improvisaram jogos de perguntas. Quem não acertasse o desafio pagava 1 euro. As pessoas queriam perder.

“Criou-se ali uma dinâmica fantástica e depois viemos a falar no caminho de regresso sobre o que fariam com a receita do evento”, conta Nuno. “Sugeri que a investissem noutros eventos. É isto que queremos também trabalhar com eles. Não queremos fazer-lhes a papinha. Queremos ajudá-los e depois sair e vê-los a fazer a papinha sozinhos. É isso que dá prazer fazer”.

Mais gratificante ainda, para Nuno, é vê-los perceber que conseguem, que têm as mesmas capacidades e podem ter os mesmos sonhos que os outros, do lado de lá do bairro.

A coragem de existir

Nestes oito anos, muito se conseguiu. Quando fala disso, a alegria do presidente da AMPAC é temperada pela constatação de que são coisas que para outros podem não ter grande valor, mas neste território são mesmo conquistas.

Em breve, as crianças do Potugal Novo terão um parque infantil. Foto: Rita Ansone

“São coisas básicas, que todos os bairros deveriam ter, e que durante anos faltaram”: um campo de futebol, um parque infantil, que está agora a ser construído e era uma aspiração da população há décadas, um espaço para se desenvolverem encontros e atividades com e para a comunidade.

Em 2021, ergueu-se uma capela e um altar à Senhora da Graça, há muito celebrada pela comunidade na noite de 14 para 15 de Agosto.

“Isto foi conseguido graças à AMPAC e isso é o que nos orgulha a sério, a nossa existência, o termos juntado cabo-verdianos, ciganos, indianos, portugueses e tido a coragem de assumir as nossas responsabilidades como moradores e como gente que quer fazer a mudança.”

Para isso tem sido fundamental, a articulação e trabalho com a Junta de Freguesia do Areeiro e a aprovação de alguns dos projetos alvo de candidatura ao programa BIP/ZIP, da Câmara Municipal de Lisboa. É daí que vem o grosso do financiamento da associação de moradores.

“Em oito anos, tivemos quatro projetos aprovados e temos o apoio da Junta de Freguesia do Areeiro, que tem sido um parceiro muito importante e nos tem apoiado muito, porque percebe que nós conhecemos o bairro melhor que ninguém e o que fazemos tem resultados positivos. É assim que conseguimos desenvolver o nosso trabalho”, explica Nuno Furtado, ressalvando que quando não há projetos financiados, continuam a ter de pagar as contas da luz, da água, do espaço. “Não é fácil, mas trabalhamos, angariamos fundos, organizamos eventos, temos é de garantir que continuamos”.

Foto: Rita Ansone

À mesa do almoço, a cachupa cumpriu-se. Em oito anos, este pedaço de Areeiro entre traseiras de SAAL e blocos da Gebalis ganhou uma associação de moradores, um grupo de batucadeiras, um espaço cultural, um campo de futebol, uma capela, em breve um parque infantil. E ganhou outra coisa, mais difícil de inventariar: a noção de que é possível. A distância para a Avenida de Roma continua a ser de mil metros. A outra começa a encurtar.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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