“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Às sextas, sábados e domingos, as portas do Lusitano da Penha abrem. Atrás do bar pode estar um arquiteto que se fez produtor cultural. Na cozinha, uma futura procuradora. A fazer as entradas, um engenheiro informático. Também podia ser uma cantora, um músico, uma advogada ou uma mediadora imobiliária. O trabalho que fazem é voluntário, têm entre os vintes e muitos e os trintas e poucos e estão ali porque acreditam numa causa: a importância de manter vivos espaços associativos, culturais e comunitários como aquele a que resolveram dedicar tempo e energia.

Quando tomaram posse, em novembro de 2025, e andaram em arrumações, encontraram uma caixa cheia de relíquias que contam a história do Lusitano da Penha. Fotografias de bailes e matinés de dança, registos das primeiras reuniões de associados, a sala grande, o salão nobre, a bandeira do clube de futebol que um dia animou a freguesia.
Ariana Paraíso, atual presidente da Direção, ficou deslumbrada. “São coisas maravilhosas, que queremos pôr aqui nas paredes, porque fazem parte da história desta casa”, diz.

O clube Lusitano da Penha, na Rua Padre Sena de Freitas 22A, na Penha de França, nasceu em 1953 como tantas outras coletividades recreativas, culturais e desportivas da Lisboa de então – com vida associativa intensa, bailes, desporto, e uma presença forte no bairro. Depois ficou quieto durante anos. Dívidas acumuladas, rendas por pagar, portas fechadas. O edifício, que nunca foi propriedade da associação, ficou à espera de alguém que tivesse coragem para voltar.
Esse alguém apareceu em março de 2020. Marta, neta de um dos fundadores, e as amigas Filipa, Inês e Catarina resolveram, durante a pandemia de covid-19, aproveitar a suspensão do tempo para pegar na herança e ressuscitá-la.
Limparam. Pintaram. Negociaram um acordo de pagamento das rendas em dívida com o senhorio. Foi, como Ariana diz com admiração, “um trabalho hercúleo”, que permitiu uma abertura faseada, por causa das medidas de segurança impostas pela pandemia, mas convicta.
Ariana conheceu o Lusitano em maio de 2021, quando foi à festa de reabertura, convidada por um amigo. “Entrei aqui e fiquei encantada. Comecei a frequentar e tornei-me amiga delas também”, conta.
“Estamos a conseguir fazer coisas muito bonitas”
Não demorou muito a que de frequentadora assídua passasse a vogal da direção e, agora, quando a anterior direção, que estava em funções há quatro anos, começou a sentir o peso do voluntariado e decidiu sair, o então presidente desafiou-a a agarrar o projeto.
“Quando o Hugo me lançou esse desafio, achei que era o universo a dizer que eu devia mesmo aceitar e avançar. Já estava dentro, já conhecia os cantos à casa, já adorava isto e então comecei a chatear pessoas”, diz, a rir.

Pessoas, que é como quem diz amigos e amigas que pensassem de forma semelhante – com a mesma noção de comunidade, a mesma vontade de criar um sítio para toda a gente.
“Quando Lisboa está a passar uma fase não muito agradável para tudo o que são coletivos e associações culturais, fez-nos todo o sentido agarrar um projeto com tudo o que tem de bom, mas também de desafios, que são muitos e diários, e tentar criar alguma coisa para a comunidade”, diz Ariana, que sente que estão a “conseguir fazer acontecer coisas muito bonitas, com pessoas incríveis”.
“Estamos a ter finalmente os nossos primeiros projetos aqui, a ocupar o espaço, para além da programação cultural que vamos tendo ao fim de semana, e é ótimo ver a comunidade que se cria e o trabalho que desenvolvemos a dar frutos. Era este o nosso objetivo: criar uma base aqui”, diz Ariana, nascida em Coimbra, criada numa vilazinha da Serra da Estrela e lisboeta adotiva, graças ao curso de Direito, tirado em Lisboa, onde ficou a viver.
A completar doutoramento em Direitos Humanos em Lisboa, que a levou agora a Liubliana, na Eslovénia, para fazer investigação, Ariana vai forjando tempo para presidir à direção do Lusitano da Penha no “amor à camisola” e na vontade de dar dinamismo à freguesia onde vive – a Penha de França.

Hoje, a direção tem mais de uma dezena de pessoas. Juristas, músicos, um carpinteiro mestre em Economia, um engenheiro informático, uma cantora engenheira ambiental, um músico designer, um arquiteto que se dedicou à produção cultural, uma especialista em relações internacionais com formação no Hot Club, um inspetor das finanças, uma mediadora imobiliária. Cada um de sua área, cada um com a sua vida, mas juntos em torno desta causa.
“É uma simbiose perfeita”, garante Ariana. “Funcionamos muito bem e há muito amor à camisola. E isso faz acontecer coisas.”
“As pessoas estão mesmo sedentas destes espaços”
Concertos ao vivo, lançamentos de livros e conversa a acompanhar, ciclos de cinema, performances, sessões de poesia, noites de quiz, dança, teatro, artes plásticas são algumas das coisas que têm acontecido no Lusitano da Penha.
Na noite em que lá fomos, o concerto era de Madama & Camafeu. Música que soa às entranhas da terra (e do mar), influenciada pelos ritmos do Peru, onde Gonçalo Madama viveu.
Gonçalo, 38 anos, é o vice-presidente do Lusitano da Penha, mas diz, com humor, que é a Primeira-Dama, para rimar com o apelido e porque é namorado da presidente. De Coimbra, fez lá a licenciatura em Design Gráfico, mestrado e pós-graduação em Londres, viveu em Itália e no Peru e encontrou-se na música, paixão de sempre.



Chegou ao Lusitano “por osmose”, diz ele, através da Ariana. Antes de entrar na aventura de pertencer à direção, frequentou o clube, tocou lá e trabalhou no bar.
“Gosto de fazer parte da solução e não do problema e Lisboa não vive bons tempos, há muitos espaços a fechar, as rendas estão todas a aumentar e era preciso reagir”, diz Gonçalo, para quem, por ser músico e viver mesmo aqui ao lado, a perda da oferta cultural de bairro é algo que se sente na pele.
“Nós, sendo malta da cultura, pensámos: dá para fazer uma série de coisas aqui, workshops, cinema, concertos… Sempre vimos imenso potencial neste espaço. E, quando a Ariana quis avançar, pensámos, olha, ‘bora, porque de facto sentimos falta de coisas do bairro para o bairro”.

Foi esse o espírito que fez Carlota Loureiro, 28 anos, engenheira do ambiente e cantora aceitar também o desafio de fazer parte da direção da associação.
Vive na freguesia ao lado, São Vicente, e descobriu o Lusitano recentemente, quando veio cá atuar. “Para além de ser um espaço com o qual me identifiquei muito, senti que havia uma certa obrigação de o defender, para o manter aberto, numa altura em que há tanta coisa a fechar na cidade.”
Fala com a clareza de quem sabe o que está em jogo para os artistas emergentes: “Já são raros os espaços culturais sem propósito comercial e por isso é uma urgência lutar pelos que ainda existem. São fundamentais para o desenvolvimento da cultura e para dar oportunidade a quem está a começar, porque é daí que surgem coisas novas”, diz Carlota, ainda surpreendida com a receção das pessoas.
“Não estava à espera que tivéssemos público tão rapidamente, mas de facto as pessoas estão mesmo sedentas destes espaços. É impressionante”, diz.

Os objetivos estão a ser atingidos, mas há ainda muito a construir. A grande ambição agora é que quem vem uma vez volte, se torne regular e faça do Lusitano segunda casa.
Um recente concerto de moradores do bairro foi um sinal de que o caminho está a ser aberto. O equilíbrio desejado passa por trazer propostas para diversificar a oferta cultural e por atrair artistas e dinamizadores locais que se apropriem do espaço.
“A Open Call para 2026 recebeu 300 candidaturas”
Do primeiro piso do Lusitano da Penha, vamos chamar-lhe foyer, desce-se para o lugar onde tudo acontece. Uma sala grande, onde fica o bar, as mesas e cadeiras, uma velha mesa de bilhar, sofás aqui e ali. Ao lado, o salão nobre feito sala de espetáculos.
Não é enorme, não tem palco fixo, nem plateia com filas de cadeiras, mas tem ambiente, condições técnicas, paredes forradas de cultura e uma programação diversa e adaptada ao espaço.


João Albano Fernandes, 36 anos, é arquiteto de formação e trabalha no Fórum Dança (perto do Lusitano) na área da produção e da comunicação. Chegou aqui da forma mais simples possível: seguia o Lusitano no Instagram, viu um anúncio a pedir ajuda, apareceu.
“Fui conhecendo as pessoas, dei-me bem com toda a gente e a determinada altura perguntaram-se se eu queria fazer parte da direção que estava a formar-se. Identifiquei-me com o projeto e aceitei, claro”.

Hoje, com a Carlota e a Sofia, é um dos responsáveis pela programação artística e cultural do Lusitano da Penha. No início de dezembro de 2025 foi lançada uma Open Call, abrindo oficialmente candidaturas para que artistas, coletivos e estruturas culturais das mais diversas áreas – música, teatro, dança, literatura, artes visuais, comédia, performance, instalações, feiras temáticas, entre outras práticas – apresentassem projetos para integrar a programação do espaço no ano de 2026. Foram recebidas 300 candidaturas.
“Analisar 300 projetos foi uma estafa”, confessa, lamentando que algumas propostas excelentes tivessem sido preteridas devido a limitações do espaço, mas, das 300 candidaturas, foram selecionadas 54 para serem apresentadas ao longo do ano.
Por causa desse trabalho mais invisível de curadoria, há muito que Albano não fazia um turno no bar, mas hoje ele e a Rita, da Mesa da Assembleia Geral, estão de serviço aos comes e bebes. “Tem corrido bem. Hoje, até está calmo, mas amanhã vai ser a loucura, com o Bailinho Queer. Da última vez, tivemos aqui umas 150 pessoas”.

De volta das bifanas, Rita Zungailia, 32 anos, que está a fazer formação de magistrada do Ministério Público, mora em Alvalade, mas nasceu na Penha de França. Quando Ariana a convidou para a direção, hesitou, mas depois aceitou.
“Sim, é verdade que podia estar em casa a ver séries ou outra coisa qualquer e estou aqui a fazer bifanas, mas acho que é mais importante estar aqui e contribuir para preservar este espírito comunitário e garantir esta oferta cultural de proximidade. É isso”, diz.
É desse impulso que nasce a próxima Open Call do Lusitano da Penha. Propostas de projetos que ocupem os dias de semana com workshops, aulas, terapias, ensaios, formações. A ideia é dar vida ao espaço de segunda a quinta-feira. “Temos condições, espaço e vontade de acolher. Queremos que a nossa casa seja também a casa de outros projetos”, diz Ariana.
“Não ponho a hipótese de o Lusitano não ir adiante”

Quando o trabalho é voluntário, sabe bem perceber que não é em vão. Miguel Regouga, 28 anos, é quem está de serviço às entradas. Engenheiro informático, na faculdade participou em iniciativas de serviço à comunidade e depois, quando entrou na vida profissional, perdeu esse fio da meada, mas a vida das nove às cinco (ou às seis) não é para ele e quando um amigo lhe disse que estavam a formar uma equipa para os órgãos sociais do Lusitano, apresentou-se.
“Não conhecia ninguém, mas fiquei e tem sido uma experiência fantástica. Saio sempre com aquele sentimento de estar a fazer parte de uma cena fixe, que faz falta à cidade”, diz, notando que cada vez vai reconhecendo mais caras, sinal de que as pessoas estão a voltar.
A sustentabilidade (e até razão de existir) do Lusitano da Penha assenta nos fregueses que voltam, na comunidade que se cria.
A equação é simples, mas frágil. A quota de pessoa associada, necessária para frequentar o espaço, é de três euros por ano. Os preços dos concertos são definidos pelos próprios músicos e revertem integralmente para eles. À associação cabem sobretudo as receitas do bar, principal fonte de financiamento. O trabalho é todo voluntário. E é isso que garante o funcionamento.




Ainda assim, Ariana não duvida do futuro.
Reconhece que os mandatos são de dois anos e que o voluntariado tem limites, mas considera que está a ser construído algo de sólido, que terá sempre quem garanta a continuidade. Ela, para começar. “Sou muito idealista, movo-me por causas e por amor à camisola e para mim, não se põe a hipótese de o Lusitano não ir adiante.”

Idealismo? Otimismo? Talvez, mas é nisso que assenta a ideia de coletividade. No Lusitano da Penha, vão-se abrindo as portas. Porque um bairro precisa de cultura e a cultura precisa de uma casa. Como esta. De portas abertas.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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