Mesmo de frente para Lisboa, ficou uma tragédia à vista, nas arribas que deslizaram por causa das tempestades de fevereiro, no Porto Brandão. Nesta espécie de aldeia, a 10 minutos de barco de Lisboa, com apenas uma estrada de acesso, as vidas de centenas de pessoas ficaram alteradas, nalguns casos irremediavelmente. Os deslizamentos destruíram edifícios, fizeram ruir estradas e obrigaram ao desalojamento de centenas de pessoas. A situação continua sem solução à vista.

É verdade que o perigo era conhecido há muito e que aqui os deslizamentos de terras também não são novidade. Mas a chuva persistente deste inverno foi pior. Durante duas semanas, praticamente todos os moradores tiveram de sair de casa. Muitos tiveram de ser retirados por barco, porque ficaram sem estrada para sair. Entretanto, se há quem esteja de volta, há também quem já saiba que a sua casa será demolida e ainda quem continue sem saber como será o futuro, alojado em casas de família ou com amigos.

São 102 famílias que, desde 11 de fevereiro, não voltaram a dormir em casa.

Das 500 pessoas, 400 foram retiradas no dia 11 de fevereiro; 238 continuam desalojadas. A situação mais grave vive-se na encosta oriental, mais perto da arriba, na Azinhaga dos Formozinhos. Aqui, concentra-se a maioria das famílias desalojadas, e 35 habitações com ordem de demolição.

11 de fevereiro: “Fiz uma pequena mala e fui-me embora”

Da sua janela, Ângelo Oliveira observa Belém, do outro lado do Tejo. Há sete anos, trocou Lisboa, onde trabalha e sempre viveu, pela vida pacata do Porto Brandão. “Tinha um amigo a viver aqui e, como “falava tão bem disto, um dia vim cá ver uma casa e acabei por decidir ficar. Isto funciona como uma pequena aldeia. Toda a gente se conhece. Eu caí aqui de paraquedas, mas fui bem recebido”.

Olha-se para Lisboa, em silêncio, neste pequeno lugar onde se vive em ritmo lento. Na parte baixa, há três pequenas ruas. Três restaurantes, um pequeno café de bairro.

O silêncio é cortado a intervalos pela passagem de camiões, algo pouco comum por aqui. Fazem viagens sucessivas para recolher terra.

Mais acima, na Rua 1º de Maio, uma escavadora continua a retirar a terra que deslizou sobre a localidade. “Há uma série de casas que quase vieram parar à estrada. Foi uma derrocada muito grande”, conta Ângelo.

Os trabalhos, de desobstrução e movimentação de terras, representam um investimento de, pelo menos, 2,6 milhões de euros. À Mensagem, a Câmara Municipal de Almada não arrisca custos finais – “a imprevisibilidade do fenómeno de deslizamento e movimento de massas, ainda ativo, impede-nos de apurar os custos finais da operação.”

Ângelo soube da ordem de evacuação através da chamada de um amigo. A filha, com casa em Lisboa, estava fora da cidade, em férias, o que lhe facilitou a vida. “Fiz uma pequena mala e fui-me embora”. Saiu por volta das 11 horas e, “por acaso”, foi dos últimos a conseguir passar com o carro. A seguir deu-se nova derrocada e a única estrada que permite a saída do Porto Brandão, ficou intransitável. Com pessoas ainda a tentar sair, o barco da Transtejo, que faz o percurso Belém – Porto Brandão – Trafaria foi a única solução.

Em colaboração com o Serviço Municipal de Proteção Civil de Almada, e já com o terminal fluvial encerrado a passageiros, a Transtejo Soflusa (TTSL) realizou viagens de barco, nos dias 11 e 12 de fevereiro, para apoiar a evacuação de pessoas, animais de companhia e veículos. O serviço regular de passageiros para Porto Brandão, desde a Trafaria e Belém, só foi retomado duas semanas depois, a 26 de fevereiro.

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Acredito genuinamente que não vamos voltar”

No pequeno café de bairro, junto à capela e ao parque infantil, entram e saem vizinhos. Todos se conhecem. Ana, nome fictício, é uma das poucas moradoras da zona baixa do Porto Brandão que permanece desalojada. Mudou-se para aqui há “sete, oito anos”, conta. “O meu filho já nasceu cá”.

Foi das primeiras a ser desalojada, no dia 5 de fevereiro, data em que foi declarada a situação de alerta no concelho de Almada. No próximo domingo, faz dois meses que está fora de casa. Já pôde retirar alguns pertences de menor dimensão, mas para retirar outros, como eletrodomésticos, não tem ainda autorização da Proteção Civil.

Vive com o marido e o filho num apartamento situado num pátio situado junto da Rua 1º Maio, o único acesso automóvel do Porto Brandão. Antes, vivia no Pinhal Novo e a mudança para Porto Brandão não aconteceu por acidente.

“Viemos especificamente para aqui fazer a nossa vida, escolhemos este sítio para morar. Portanto, agora ainda pior nos sentimos.”

Ana estudou perto, na EPED – Escola Profissional de Educação para o Desenvolvimento, e, por isso, ganhou afinidade com o lugar. “Era uma zona de que gostávamos muito e, por trabalharmos em Lisboa, acaba por nos ser prático estar deste lado, mas perto de Lisboa.”

“Foi uma jogada calculada, que nos saiu completamente furada”, conta, em jeito de desabafo.

“Tínhamos feito obras na casa, apesar de ser arrendada, está toda nova”. Agora, apesar de ainda estar a pagar as obras, receia não mais poder regressar a casa. É uma das poucas moradoras na zona baixa do Porto Brandão ainda desalojada. No pátio em que tem o apartamento, originalmente uma quinta, há 16 outros fogos, cujas famílias também permanecem nesta situação.

Por dentro, a casa ainda não evidencia sinais de instabilidade estrutural, mas nas paredes e escadas exteriores são visíveis várias fendas. Até que cesse a movimentação de terras e seja possível uma vistoria para avaliação técnica do risco, Ana continua sem saber se poderá regressar à sua habitação.

Publicado no final de fevereiro, um relatório de acompanhamento e monitorização de movimentos de terra no concelho de Almada retrata o cenário de exceção vivido no Porto Brandão como “um dos períodos mais críticos de instabilidade geológica em décadas, na sequência das chuvas intensas das últimas semanas”, cita uma notícia do Expresso. O relatório descreve a recente deslocação de terras na zona do bairro dos Formozinhos, acima da casa de Ana. É aqui que reside a maioria das pessoas atualmente desalojadas e é aqui que vão ser demolidas 25 habitações.

Por agora, Ana, o marido e o filho dormem num hostel, disponibilizado pela Câmara de Almada. E Ana não tem dúvidas de que as autoridades “estão a mexer-se para nos ajudar”. Critica só alguma falta de recursos e de equipas no terreno, bem como o facto de não ter sido declarado em Almada o estado de calamidade. Apesar de o concelho ter registado 500 desalojados em consequência do deslizamento de terras e da instabilidade de arribas, o governo declarou apenas estado de alerta, impossibilitando, entre outros, o recurso ao programa Turismo Acolhe, lançado a 30 de janeiro e que permitiria a estada em hotéis de pessoas sem casa por causa do mau tempo.

Ana está pessimista e não acredita no regresso a casa:

O que tinha, já perdi. E acredito genuinamente que não vamos voltar.”

No horizonte, uma situação que Ana encara com inusitada calma: a perda do investimento da família na casa, e a necessidade de regressar ao impossível mercado imobiliário, na procura de uma renda que a família consiga suportar: “Mesmo estando os dois a trabalhar, não tenho orçamento para pagar mil euros de renda, não consigo. Muito honestamente, não sei como é que vamos fazer.”

De facto a Câmara Municipal de Almada e a Junta da União das Freguesias de Caparica e Trafaria, têm acompanhado a situação e disponibilizado apoio para o alojamento, apoio psicológico e ajuda alimentar. A autarquia está a trabalhar em soluções com o IHRU e a prestar apoio às famílias na preparação da “documentação necessária para a formalização de candidaturas ao Programa Porta de Entrada, que irá permitir o acesso a apoio financeiro para arrendamento de uma habitação no mercado privado”.

A pedido da autarquia de Almada, também o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) tem estado no terreno a monitorizar o movimento de terras, que continua a colocar em perigo estradas e habitações.

Um festival de música para ajudar a comunidade do Porto Brandão

É já nesta sexta-feira e sábado, dias 3 e 4 de abril, que mais de uma dezena de músicos vão atuar no Festival de Música Solidário, um evento musical de dois dias, organizado com o objetivo de angariar fundos para os moradores do Porto Brandão.

Durante os dois dias, passam pelo palco do Auditório Costa da Caparica, mais de uma dezena de artistas, entre os quais estão Benjamim, Samuel Úria e Xullaji.

Cartaz do Festival de Música Solidário. Fonte: Produções Hipotéticas

A iniciativa é da Produções Hipotéticas, produtora independente de Almada, em parceria com a Associação Lifeshaker, que, desde 2009, trabalha com jovens do concelho. Todo o lucro resultante da realização do festival será direcionado para a comunidade de moradores afetados no Porto Brandão. A distribuição da receita será responsabilidade da Associação Lifeshaker, sediada no Monte da Caparica.


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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