A viagem desde Lisboa até ao Cacém pode fazer-se em menos de 30 minutos de mota, que era como os estudantes e amigos Tomás e Afonso andavam. Já a recuperação de um clube… isso é um processo bem mais demorado, sabem agora.
Quem entrava na sede do Clube Unidos do Cacém (C.U.C.), fundado em 1975 em Sintra, no rescaldo da Revolução, tinha a sensação de que o tempo parecia ter congelado. O clube que nos anos 80 e 90 fervilhava com artes marciais, patinagem artística e andebol, tornou-se uma sombra do que foi. Até a memória de “Tuca” – o lendário jogador de futsal que disparava do meio-campo para somar 40 golos por época – parecia guardada em arquivos a ganhar pó. E as balizas, hoje devoradas pela ferrugem, são o retrato do abandono.








Dos 3900 sócios restaram pouco mais de 300, resistentes que ali permaneciam entre o baralho de cartas e o silêncio de quem já não esperava mudanças. Até Tomás e Afonso chegarem.
Esta é a “semana 10 a recuperar o clube do bairro”, diriam os obreiros da nova vida do Clube Unidos do Cacém.
Dois jovens, um acidente… e um recomeço no Cacém
Afonso Garcia, de 26 anos, e Tomás Antunes, de 24 anos, são o “corpo estranho” que veio de fora para agitar as águas. Um natural de Trás-os- Montes, o outro do Alentejo.
Conheceram-se no primeiro dia de aulas no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, no curso de engenharia informática e de computadores. No dia seguinte, já iam juntos para a Universidade de mota. E, desde então, nunca mais largaram o guiador da mesma mota: entre a gestão de uma startup tecnológica e o curso, decidiram salvar um clube que encontraram por mero acaso (e por culpa de um susto).
“Tinha uma mota e andávamos nela por todo o lado. Um dia, fomos ao chão e foi um bocadinho assustador. Então, passámos a vir a pé para casa”, recorda Tomás. Foi nesse trajeto, ao subirem as escadas em frente ao clube, que viram miúdos a chutar bolas num cenário de degradação. Mais do que as condições daquele campo, foi a ausência de “alguém que estivesse a olhar por aqueles miúdos” que lhes ficou na cabeça.
Então, ficaram. E tentaram falar com os mais velhos, os sócios antigos, para saber como poderiam mudar aquilo.



Mas o choque geracional foi a primeira barreira. “No princípio, houve alguma desconfiança. Eles conhecem-se há 30 ou 40 anos, a nós não nos conheciam de lado nenhum, portanto, ficaram com reticências sobre o que estávamos a querer fazer com o espaço, se tínhamos ou não boas intenções”, explica o agora presidente Tomás Antunes.
Então, a burocracia deu lugar à ação: depois de despacharem a papelada para salvarem aquele clube e assumirem a direção, trocaram os algoritmos pelas sardinhadas e concertos, para estancar a hemorragia financeira da coletividade. Atualmente, Tomás Antunes ocupa o lugar de presidente e Afonso Garcia o de vice-presidente.





O pulmão social de duas gerações
A porta de acesso à cozinha ainda tem as tradicionais cortinas mosquiteiras e as arcas frigoríficas que nos transportam para o cenário de uma tasca antiga. Na sala principal, o cenário é de ressaca desportiva: as cadeiras e mesas continuam orientadas para o ecrã da televisão, como se o jogo da noite anterior ainda estivesse a decorrer.
O C.U.C. não fecha. Está aberto 365 dias por ano e é como o pulmão social do bairro.
“Nós temos este espaço a funcionar também com um propósito social, os sócios têm quase todos mais de 65 anos. São pessoas reformadas portanto acabam por vir aqui, em vez de estarem em casa o dia todo, estão entre amigos a conversar, a jogar à sueca ou ao rami e ainda há espaço para beber uma mini.”
Tomás Antunes

O silêncio dos reformados é várias vezes interrompido pela energia dos miúdos do bairro. Aos fins de semana, o campo desgastado enche-se de grupos que não esperam por convite para começar a jogar. Para a nova direção, a missão é híbrida: tanto se promove o drible como a educação. Afonso explica que “este é um sítio onde eles podem vir chutar umas bolas e pedirem ajuda com um exercício de matemática”.
Para Manuel Gomes, de 68 anos e residente no bairro desde 1983, ver este movimento é ver o Cacém recuperar a alma.
“Eles são ativos e dinâmicos, estão a assegurar isto para o futuro, não só para o conforto dos que vão um dia partir, mas para garantir o sucesso do que estão a chegar, não podemos deixar este tipo de associativismo cair.”
Manuel Gomes


Dorsais, suor e o orgulho de bairro
Os sinais de que o gigante está a acordar são visíveis. Recentemente, o clube voltou a federar-se no atletismo e participou numa competição de atletismo em São Marcos. Tomás relembra com entusiasmo a experiência de proporcionar a miúdos de 9 e 10 anos o peso do dorsal no peito. No final, sobrou tempo para um pequeno lanche no clube que representaram, ainda com as camisolas da prova vestidas, como se a meta ainda estivesse por atravessar.
O espaço é descrito como uma segunda casa para muitos que ali passam.
O bairro do Cacém é marcado pela diversidade. E o clube abraçou esta manta de retalhos cultural como o seu maior ativo criativo. “Dá-nos oportunidade de fazer um almoço de cachupa à quinta-feira, um evento de pagode brasileiro à sexta-feira e trazer os Santos Populares a um domingo”, explicam os dirigentes.
Os mais novos sentem-se seguros e os pais já guardam o número de telemóvel do presidente, por sentirem uma maior tranquilidade ao saberem que os filhos estão no clube sob a supervisão de adultos.
E se os mais novos encontram também as regras, os mais velhos encontram também a liberdade. “Às vezes, até demais”, brinca Tomás. De vez em quando, lá “têm que levar avisos sobre o palavreado”.
Da ferrugem ao viral… e o “Harry Potter” do Cacém
A ressurreição do C.U.C. não se faz apenas com papéis, almoços e desporto, mas também com algoritmos. “Semana 1 a recuperar o clube do bairro”, relatam Tomás e Afonso nas redes sociais do clube. Com vídeos que misturam o humor e a crueza do dia a dia, provam que um clube de bairro pode ter o mesmo alcance que um gigante.
Afonso Garcia explica que, ao contrário do passado, em que apenas clubes grandes conseguiam comunicar com os sócios através da televisão ou da rádio, hoje os clubes mais pequenos também conseguem criar uma ligação mais próxima com a comunidade.
Uma forma de chamar a atenção dos mais novos, que até já dão uma alcunha ao membro mais ativo a comunicação do clube, o vice-presidente. “Alguns miúdos chamam-me pelo meu nome, mas a maioria chama-me de Harry Potter, porque tenho óculos e sou eu que trato da parte da comunicação”, conta Afonso.
Na rua, Tomás e Afonso ouvem gritar “ Viva ao C.U.C”. Um sinal de que o sentimento de pertença às coletividades de bairro voltou.


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