Erguida como um palco temporário para a Expo’98, a Praça Sony marcou o imaginário de uma geração de lisboetas: um anfiteatro que descia em patamares até alcançar um palco, com um grande ecrã da multinacional japonesa Sony. Recebeu concertos históricos até agosto de 2003, da estreia dos Oasis a Lou Reed, e transmissões de jogos de futebol, antes de se tornar um dos fantasmas da arquitetura da cidade. É este e outros 99 projetos nacionais, assinados por arquitetos portugueses nos últimos 50 anos, que compõem a sétima edição da exposição “Habitar Portugal“, um projeto da Ordem dos Arquitetos na Garagem Sul do Centro Cultural de Belém – CCB (que é, simultaneamente, local e objeto da exposição).

A praça Sony, em Lisboa, em 1998, durante a transmissão de um jogo de futebol entre Brasil e Escócia. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Em 2006, era noticiada a transferência do palco, do ecrã e do sistema de som para o município da Amadora, selando o fim deste espaço público lisboeta. Duas décadas depois, o espaço que a praça ocupava continua vazio, despido de mobiliário urbano e vedado à população. As palmeiras, que resistiram até 2018, foram removidas. Desde então – e sem que lhe seja dado destino definitivo – o terreno tem sido utilizado como área complementar da Feira Internacional de Lisboa (FIL), sendo comum a colocação de tendas temporárias para acomodar a expansão de eventos e conferências.

“Foi muito marcante. Precisamos de espaços com estas vivências nas nossas cidades”, diz Alexandra Saraiva, arquiteta e uma das curadoras da exposição. Parte das obras selecionadas para a exposição lembram que “a arquitetura não é simplesmente um edifício ou um equipamento, mas também espaço público”.

Complexo Habitacional “Pantera Cor de Rosa”, em Chelas. Foto: Inês Leote

E nem tudo são obras fantasma nesta exposição. O Complexo de Habitação “Pantera Cor de Rosa”, de Gonçalo Byrne e António Reis Cabrita, construído nos anos 1970 no Bairro dos Lóios, em Chelas, está entre as 100 obras escolhidas para a exposição.

Assim como o Bairro Alto do Moinho, na Amadora – construído logo após a revolução, é um bairro nascido do SAAL, programa habitacional que resultou em projetos de habitação codesenhados pela comunidade residente.

E o Edifício Piloto no Lote 4 do Loteamento da Avenida das Forças Armadas, um projeto de habitação de renda acessível do município de Lisboa, da autoria das arquitetas Susana Rato e Joana Couto. Com 128 fogos, foi inaugurado em 2022 e faz parte de um dos maiores projetos de habitação municipal liderado pela Câmara Municipal de Lisboa ao longo das últimas três décadas.

O trabalho de seleção das obras também procurou destacar projetos de espaço público. A intervenção cerâmica Cota Zero, no teto e colunas do interface fluvial do Terreiro do Paço, também mereceu o destaque da exposição.

Em Lisboa, a exposição destaca ainda um recém inaugurado espaço público: a nova Praça do Fonte Nova, em Benfica.

Inaugurada em 2017 e da autoria de José Adrião, “é um exemplo de como o espaço público pode ser transformador numa comunidade”,  promovendo o uso de espaços de forma “permanente e não apenas como locais de passagem”, lembra Célia Gomes, arquiteta, curadora da exposição e docente na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha.

A exposição pode ser visitada todos os dias, entre as 10h00 e as 18h30, até ao próximo dia 26 de abril.
A programação paralela propõe duas ocasiões de encontro e participação ao longo das próximas semanas: uma conversa com os curadores Alexandra Saraiva, Célia Gomes e Rui Leão, no dia 11 de abril às 16h00, e uma visita guiada à exposição, marcada para 15 de março às 11h00. As duas atividades são de participação gratuita, mediante inscrição prévia através do e-mail servico.educativo.museu@ccb.pt ou do preenchimento de formulário.

“Reivindicar melhores espaços públicos”

“Temos bons exemplos de transformação do espaço público em Lisboa nos últimos tempos, mas é a prova de que há muita coisa a fazer”, aponta Célia Gomes, que lembra uma obra que marcou a cidade de Lisboa nos últimos anos, apesar de não constar da exposição – “a transformação da Avenida da República, com a criação de passeios mais largos e ciclovia, acabou por transformar a utilização e vivência daquele espaço”.

O Plano de Urbanização da Expo’98 é o maior projeto selecionado para a exposição, tratando-se, também, da maior obra de expansão urbana da cidade das últimas décadas. Alexandra Saraiva, curadora, arquiteta e investigadora integrada do Dinâmia’CET, do ISCTE, considera tratar-se do “plano com maior impacto em Portugal a nível de intervenção na cidade”.

“O plano da Expo teve a capacidade de se transformar e de dar o salto – de passar de um momento de festa com uma série de pavilhões e, de repente, de transformar-se em cidade”, diz Célia Gomes.

O Plano de Urbanização da Expo’98, na exposição Habitar Portugal. Foto: Frederico Raposo

Sobre o que há a fazer, Alexandra Saraiva responde: “mais participação pública”. “No pós 25 de Abril, tivemos uma grande participação e ótimos exemplos em termos de arquitetura participativa”. Mas, considera, “é algo que tem vindo a perder-se” e lembra a necessidade de colocar as pessoas a participar no desenho do espaço público – “não passa só pelos arquitetos”.

“A arquitetura faz parte do seu dia-a-dia das pessoas, está sempre presente.”

A arquitetura portuguesa em três capítulos

O primeiro eixo da exposição – A Arquitetura enquanto gesto político – propõe revisitar obras que, desde a revolução de 25 de Abril de 1974, respondem a desafios coletivos, como a habitação, a infraestrutura urbana ou a requalificação territorial.

No seu segundo eixo, por entre painéis e maquetes e percorrendo espaços moldados pelos volumes de cânhamo, A persistência da memória sublinha intervenções de reabilitação e de reinvenção do património edificado, como o Mercado do Bolhão, no Porto, e a evocação de espaços já desaparecidos, caso do Museu da Luz, que recorda a aldeia, com o mesmo nome, submergida pela obra da barragem do Alqueva.

No terceiro e último eixo, Rupturas e novas configurações, a exposição escolhe obras de arquitetos portugueses para lançar o olhar sobre novas linguagens propostas. Em Lisboa, destaca-se a disrupção introduzida pelo Complexo das Amoreiras, de Tomás Taveira, ou o Desert X AlUla Visitor Centre, na Arábia Saudita, da autoria de Ricardo Gomes (KwY.studio).

“O facto de termos estes três eixos ajudou-nos a ter um olhar mais claro sobre este período de 50 anos nas várias regiões e geografias”, explica a arquiteta e , Célia Gomes. “No primeiro eixo, o foco é mais sobre o edifício institucional. A partir dos anos 80 e 90, começamos a entrar numa fase onde começamos a ter outro tipo de tipologias, como os edifícios na área da educação e cultura e, depois, entramos nos grandes planos, como o plano da Expo’98”.

Na hora de escolher as 100 obras que integram a exposição, Alexandra Saraiva afirma ter existido “um cuidado extremo em definir um equilíbrio entre todas as regiões de Portugal”, bem como um esforço em “evidenciar obras de mulheres arquitetas”, procurando garantir um conjunto “eclético” de obras e uma “melhor leitura do que foram estes 50 anos”.

O processo de seleção das obras procurou que a exposição, “para além de comemorativa, fosse inclusiva”, explica a doutorada em Arquitetura e investigadora auxiliar no DINÂMIA’CET-IUL do ISCTE.

Entre as obras selecionadas, várias estão no território de Lisboa e ajudam a contar a história das últimas décadas da arquitetura da cidade, colocando o foco não apenas nos edifícios emblemáticos, mas também no espaço público. Entre as obras escolhidas, está a Praça Sony, um espaço público que a cidade já perdeu.

Este artigo tem o apoio do Centro Cultural de Belém


Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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