Alvalade tem muita coisa boa. Olá, prédios “das estacas”, com os seus pilares que nos abrem o horizonte resvés ao chão; olá, diálogo em diagonal entre cafés de esquina, o Vá-Vá e o Luanda (e, sobretudo, a memória dessas conversas); olá, vivida Avenida da Igreja (onde até os estacionamentos em segunda fila parecem gentis); olá, pequenos, baratos e bons restaurantes de salsa e coentros, todos, incluindo um com salsa e coentros na tabuleta e picante na conta; olá, biblioteca dos Coruchéus com vista para esplanada com vista para traseiras de prédios modestos que nos mordem num arrependimento tardio: porquê, há 20 anos, não comprei eu um apartamento ali?…
Mas há uma falha neste bairro: ele não soube fazer um bom e fácil negócio com a cidade de Roma. Já lá iremos, páginas adiante…
Entretanto, digamos que o erro aconteceu quando ainda não havia ali tanto urbanismo pensado, nem o bairro existia. Alvalade só começou a ser delineado e construído nas décadas de 1930, 40 e 50 e cresceu pujante, em 60 e 70. Nenhum outro lugar na velha capital foi mais bem anunciado que a prometedora Lisboa Nova. O que, aliás, era merecido e foi cumprido.



Ora, erradamente, logo em 1930 se deu nome à “Avenida de Roma”, que iria ser a via central onde assentou aquele lugar onde se inventava um bairro feliz. Foi um desperdício, essa precipitação. Ou, tendo ela havido, podíamos ter aproveitado para fazer a tal bela troca já referida, que será explicada daqui a pouco.

A Avenida de Roma foi asfaltada onde devia ser, não é isso que está em causa. O nobre nome de Roma (com alicerces antigos, aqui e ali cavados pela nossa cidade fora) merece batizar o melhor que Lisboa tem. Ele merecia ser até um cais do Tejo ou uma janela rendilhada da Torre de Belém. O nome ficou bem onde ficou, em Alvalade, nas placas espalhadas por cerca de dois quilómetros, entre a Praça de Londres e a Avenida do Brasil. Num bairro novo que rapidamente se descobriu ter passado e, de seguida, iluminou Lisboa de histórias.

Lembrar a Batalha de Alvalade
Alvalade, do passado já com histórias. Foi nos “campos de Alvalade” que a Rainha Santa Isabel, em cima de um burro, interrompeu a batalha entre o marido D. Dinis e seu filho, futuro Afonso IV. A Batalha de Alvalade foi há muito ontem – em1323 – mas esquecemo-nos de recordá-lo em 2023, apesar da data redonda de sete séculos. O bairro não celebrou, talvez com a soberba dos que têm História e histórias demais.
A cidade, porém, ilustrou bem o facto histórico. Com textos de Chagas Franco e João Soares (este, fundador que iria ser do Colégio Moderno, e pai de Mário Soares), foi publicado, em 1917, um belo livro ilustrado. Chamou-se Quadros da História de Portugal, com aguarelas de Roque Gameiro – uma delas, das mais célebres, sobre aquela batalha.

O acontecimento familiar da primeira dinastia iria voltar a ser pintado trinta anos depois por Jaime Martins Barata. Por ironia, este era casado com a pintora Mamia Roque Gameiro. Genro, portanto, do fundador de célebre dinastia artística, Alfredo Roque Gameiro, com cinco filhos, todos pintores. O óleo sobre tela Batalha de Alvalade, pintado em 1947 por Martins Barata, pertence ao espólio do Museu de Lisboa.

Não deveria haver, pergunto, numa próxima data ao calhas, um vulgar e nada redondo 2027 ou outro ano próximo, um evento com as duas ilustrações, a aguarela e o óleo, celebrando a batalha real e também familiar, em que uma mãe boa (foi o argumento principal para a Santa Sé ter feito santa a Isabel de Aragão) salvou muitos de serem feridos e mortos e também uma pátria desavinda?
Sábia iniciativa porque foi nas vésperas do século XV, quando Portugal iria precisar de mais de gente. Ia partir pelo mundo fora.
O bairro nem precisa de historiadores para se dedicarem à caça do lugar exato onde eram esses tais milagreiros, ou pelo menos exemplares, “campos de Alvalade”. Uma das hipóteses é o local da batalha ter sido nos terrenos da sede da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida João XXI.
Isso não suscita ideias sobre quais poderiam ser os financiadores dessa comemoração?
Talvez, um banco, porque a sede da CGD usufruiu da honra de ter habitado durante décadas o famoso bairro de Alvalade; ou, talvez, o Governo, porque a sede do banco vai abandonar o quarteirão e o enorme edifício vai ser ocupado por vários ministérios, incluindo a Presidência do Conselho de Ministros.
E porque não os dois? Quem – tendo sido (CGD) ou vir a ser inquilino daquele lugar (Governo) – não gostaria de poder gabar-se de que o seu trabalho do dia a dia foi ou vai ser feito nos abençoados “campos de Alvalade”?

Ao lado do ainda edifício da Caixa há um jardim de homenagem a esta batalha com a antiga lápide: a própria Rainha Santa Isabel de Portugal “mandou colocar este padrão neste lugar em memória da pacificação que nele fez entre seu marido El Rei D. Dinis e seu filho Afonso IV estando para se darem batalha na era de 1323”.
O padrão foi modificado por D. Carlos I, em Julho de 1904, e foi colocado na sua versão mais simples numa parede da CGD a 50 metros do local original.

Os Verdes Anos e Alvalade no ecrã
“A primeira vez que vi a cidade de Lisboa, pensei comigo…” Não, não sou eu a escrever isto. Nenhum lisboeta, nado ou chegado, saberia ter um começo de conversa assim, como Nuno Bragança, o dono das palavras ditas a abrir Os Verdes Anos, 1963. Aliás, a celebração, memória do novo bairro que se fazia em Alvalade, enfim, o filme quando começa, é com dedos a arrancar de cordas tensas o seu encontro maior – o Carlos Paredes e a guitarra portuguesa.Com a nota inicial da canção eterna, um Ré natural, como escrevo na crónica anterior desta série sobre Lisboa.
Só depois de arrebatados pela música, nos damos conta das imagens. Oliveiras em colinas suaves, regatos, uma nora e, anunciado pelos rodados sobre uma rústica ponte de madeira, aparece um burro puxando carroça, com molhe de feno e camponês – um burro apressado, como quem vai interromper uma batalha inútil. A câmara sobe o seu olhar e o campo é anunciado em estertor, surgem já os primeiros prédios de oito andares e, até, a torre maior da Praça do Areeiro…

A sério, ninguém mais se deu conta que o irromper daquele burro em campos de Alvalade, a meados século XX, não foi senão homenagem a histórias passadas? O bairro novo prometia saber-se contar…
No filme, só então se ouvem as primeiras palavras, no tom teatral de Paulo Renato, voz empostada, que a tradicional Lisboa conhecia do palco do Monumental. Mas escrita na fórmula coloquial e brusca que Nuno Bragança só iria afinar nos romances que faria a seguir.
Não é elogio menor, só mais um ao novo recente. O romancista que mais tarde vai contar como ninguém a Lisboa chula da porrada com marinheiros americanos nos bares da rua do Crucifixo e das mãos ansiosas por curvas fêmeas nas noites das marchas populares, em A Noite e o Riso (1968) – uma Lisboa datada – Nuno Bragança, pois, é nos seus diálogos em filme anterior (Os Verdes Anos, 1963), sobre uma nova Lisboa, que ele se inicia na escrita imaginativa.

(Na verdade, se calhar não foi bem assim, o próprio confessou que começou logo miúdo, quando pegou numa caneta e no alto de uma folha escreveu em letras grandes: “U OMÃI QUE DAVA PULUS…”). Em dois romances e uma década, A Noite e o Riso e Directa (1977), Nuno Bragança tem mais frases soltas boas do que as que aparecem em toda a obra de Eça. Com ele, no princípio era o Verbo, quer dizer, a palavra já cá estava antes da história contada.
A minha cidade é uma sucessão de três pontinhos, para imaginarmos, e pontos de exclamação, para impor a admiração por ela. Com uma certeza que nunca é um bocejo: os tempos e os lugares lisboetas estão sempre a se entrecruzar. Entre bairros – um termo que tem sido repetido nas crónicas desta série. De preferência, o pormenor à fachada e o momento ao plano, sendo certo e sabido que já houve pingos de chuva caídos na rua da Betesga que se formaram pouco antes no Mar da Palha – só por mera preguiça não damos por isso.
Entretanto, Paulo Renato, a abrir Verdes Anos: “A primeira vez que vi a cidade de Lisboa, pensei comigo: esta é uma terra como uma madama que tem de ser engatada com muito jeito, nada de pressas, nada de meter a mão antes do tempo…”
Ele barbeia-se com lâmina e alguidar, deita fora a água ensaboada pela janela do casebre e o olhar devolve-lhe prédios novos: “A minha vizinhança foi quase toda corrida da cidade…” Queria ele dizer: os seus concidadãos, camponeses das bermas, estavam a ser expulsos por pequenos e médios burgueses que acorriam de bairros mais antigos de Lisboa para novas vidas e avenidas novas, pensadas como nenhuma o fora desde a desenhada a seguir ao terramoto. Enterrámo-nos na poltrona do cinema e deixamo-nos ir por Alvalade adentro.
Depois de um Paulo Renato fazer de camponês reciclado, surge-nos Isabel Ruth no écran. Nos dias de folga, com o andar maravilhoso de libélula esvoaçando pelas colinas agrícolas da vizinha Bela Vista (hoje, parque público). E, dia de semana, indo à loja do sapateiro, em cave de avenida nova. Em qualquer dos casos, a personagem Ilda não conseguia desfazer-se da graça de bailarina e da elegância de modelo que Isabel Ruth era na vida real. E ser, como era, a mais bela mulher que já apareceu num filme português não ajudava nada a esconder a incongruência.
Na estreia do filme no São Luiz, o convidado Manuel de Oliveira deixou cair uma boutade, que ficou: “No Porto vão achar impossível ela ser uma criadinha… talvez uma costureirinha e mesmo assim…”
Na verdade, três anos antes, a Nouvelle Vague já decretara que no cinema o impactante era mais importante que a verosimilhança. Em O Acossado (À bout de souffle, 1960), Jean-Luc Godard sabia que não era arriscado apresentar como ardina Jean Seberg, cara de estudante universitária americana em Paris. E se a improbabilidade do facto beliscasse o sério do filme, o que valeria era o fulgor da atriz, com os seus cabelos louros à la garçonne, título do jornal na sua t-shirt amarela, a apregoar o New York Herald Tribune, nos Champs-Élysées. O inovador (a nova vaga), era a imagem. Inovador? Mas não foi para isso que nasceu o cinema?

Também o realizador português Paulo Rocha, antes do termo criada ter caído em desuso com o 25 de Abril, já conseguira que a palavra não fosse nem vista durante a hora e meia do seu filme. Afinal, só no intervalo da estreia, um homem clássico como Oliveira dera pela “criada”.
Isabel Ruth era o documento de uma mulher livre, não um documentário social.
Mais importante são os factos do que o contar deles. Não sem razão, Paulo Rocha para fazer o seu filme, desceu as escadas do prédio onde morava. No rés-do-chão, era o Café Vá-Vá, na esquina da Avenida de Roma com a Avenida dos Estados Unidos da América.

O nome era recente. Cinco anos antes, um avançado-do-centro abriu com dois golos a vitória na final que deu o primeiro Mundial de futebol ao Brasil (5-2 à Suécia, 1958). E ele chamava-se Vavá.
Ainda não se sabia como tal se escrevia – Edvaldo Izídio Neto, Vavá, atacante do Vaco da Gama – e já não podia ser ensinado pelo maior jornalista de futebol que Portugal teve, Cândido de Oliveira, fundador do jornal A Bola, que estava em Estocolmo, mas morrera dias antes com um ataque de coração, emocionado com a carreira do Brasil. Então, logo em 1958, “Café Vá-Vá”, ficou assim, num letreiro comercial no principal cruzamento do bairro de Alvalade.

Tão rápido que nem deu para confirmar que, se na história daquele Mundial houve algumas vedetas, deuses só foram dois, Garrincha e Pelé. Pior para estes, que em Alvalade já se atirava mais rápido que a própria sombra. Se em toda a Europa já ninguém se lembra hoje do Vavá, na jovem Mensagem de Lisboa, o nosso saudoso Lauro António contou o seu “Vá-Vá”, sinónimo de cinema em Portugal. Café culto de bola, mas também pelos painéis de azulejo da Menez e mais e mais.
José Mário Branco cantou com sarcasmo os frequentadores do Vá-Vá: “Quando estou sentado/ À mesa deste café/ Sinto vocação de pensador engagé…” Não gosto da canção, a última faixa do extraordinário disco Ser Solidário.
Mas tenho bom remédio, eu que vim de longe, ponho a rodar a primeira faixa e ouço-me: “Eu vim de longe, de muito longe/ (…) Tanta esperança a andar à solta/ (…) Quando a nossa festa se estragou…”
A minha cidade é de altos e baixos, cheia de conversas que nunca passaram de canções. Mas que dor maior é o silêncio das conversas. Saudades das antigas conversas do Vá-Vá, digo eu, que só conheci a fascinante com Lauro António, na única que tive com ele, já seus últimos anos.
Tão extraordinário este bairro, primeiro põe o letreiro na Avenida de Roma, como os néons na Broadway, e depois filma-se a si próprio. Que interessa lá o enredo, o que Os Verdes Anos filma é o umbigo do seu bairro! Já me esqueci do nome do personagem principal e nem porque mata, quem mata e quando, algures no filme. Mas estou a ver o rapaz atrapalhado, no átrio do prédio do Vá-Vá, sobre como sair para a rua, mesmo ao lado das conversas das mesas do café.

Muitos que almejavam chegar a Alvalade, vindos da aldeia ou dos bairros velhos da cidade, ainda não sabiam que aquelas amplas portas envidraçadas tinham um botão elétrico para abrir.
Dei-me conta mais depressa dessa perplexidade num cidadão do mesmo século em que eu nasci, meu contemporâneo e vizinho, do que sou capaz de visualizar o que raio era aquele baraço do Egas Moniz ao pescoço, aio de Afonso Henriques, mistério que perdura, que perdura…
Este bairro é melhor do que a Faculdade de Lisboa a formar historiadores. Ou melhor, Alvalade explica-se como ninguém, quando o assunto é ele próprio, o bairro.
Avenida de Roma: uma grande e nova Lisboa
Meses antes de Paulo Rocha se dedicar ao seu filme, um futuro célebre jornalista, Artur Portela Filho, lançou um livro de contos, “Avenida de Londres”. Também ele fizera a viagem de muitos dos recentes vizinhos de Alvalade: “Fui para a cidade nova, vindo da cidade antiga”, disse ele numa entrevista a Igrejas Caieiro, no Rádio Clube Português, 1958.
Artur Portela Filho nascera em 1937, nas Mercês, na casa antiga com milhares de livros do seu pai – o também jornalista Artur Portela, que iria ser diretor do Mundo Gráfico, jornal que apoiaria os Aliados contra o Hitler, na II Guerra Mundial. Sob o Jardim do Príncipe Real, a rua era estreita e bem chamada: na Travessa do Arco de Jesus havia uma sala de primeiro andar atravessada sobre o asfalto, entre dois prédios. Aquando da entrevista, já jovem jornalista Artur Portela Filho se mudara para geração diferente de Artur Portela: vivia num apartamento nas novas avenidas.

E em vez de frequentar a biblioteca do pai, embora continuasse a ler muito, passou a ler também as ruas novas da cidade, daí o livro Avenida de Roma. Um dos seus personagens, estacionado em segunda mão (velho hábito, pois) ao lado do cinema Londres, “tacteou o tablier, bateu em todos os mostradores e sorriu quando o ponteiro da gasolina estremeceu (…), tamborilou o cláxon”. Tics de geração, vaidosa dos seus tics.
Elvis Presley fazia o serviço militar numa base na Alemanha e os seus gestos sincopados já tinham chegado às vizinhanças da Avenida dos Estados Unidos da América, para onde se dirigia o carro, “sob os golpes secos com que metia as mudanças, uma forma dura e viril, cinematográfica, se quiserem, de voltar o volante”. O bairro já era definitivamente ié-ié.
Do vidro das janelas do automóvel via-se a montra da tabacaria do Bairro das Estacas, que exibia revistas: Paris Match, Jours de France, Marie Claire, Elle… Lisboa acentuava-se francesa, herdeira dos tempos em que os personagens do Eça esperavam no Chiado pelas novidades de Paris chegadas pelo Sud-Express. De novo, Lisboa fazia-se com repetições de si própria.

Dentro do carro os jovens permitiam-se trocadilhos francófonos: “Aimez-vous Brassens?”, perguntou o condutor, confundindo propositadamente a atualíssima novela duma escritora na moda, Françoise Sagan, acabada de publicar Aimez-vous Brahms?. O citado era um cantor cultíssimo e não para todos, Georges Brassens.
Mas a conversa preferida da geração prestes a meter-se em cineclubes também ia dentro do carro conduzido pela escrita do novo vizinho de Alvalade: filmes. E estes eram nomeados por autores, não por causa das vedetas: “O Johnny Guitar, do Ray? Mas tu estás doido. É O Grito, do Antonioni. A distância mede-se em séculos, são dois continentes.”
De Johnny Guitar, apesar de já ter sido comparado a perder, gabam-se os tremendos diálogos. Johnny pergunta a Vienna (Joan Crawford): “Diz-me que esperaste todos estes anos por mim, di-lo!” E Vienna: “Todos estes anos esperei por ti.” É comovente ver um miúdo de 23 anos escrever sobre rapazolas da mesma idade, como se todos falassem uma língua tersa e não a engravatada dos jornais, todos, daquela época.

Poucos quilómetros depois, mas sempre por estradas cinematográficas italianas, “Il Grido? Visconti?”, o condutor tornou mais exato o gosto: “Fellini, As Noites de Cabíria.” Era aqui que eu queria chegar. Perdoem-me a presunção, já pareço aqueles que enchem as redes sociais com tuítes de rótulos de vinhos e capas de livros, mas lembrar aqui Federico Fellini é essencial. Ele é a pedra central sobre o bom negócio que Lisboa podia ter feito e falhámos com a cidade de Roma.
Entretanto, relembro que quem conduzia o carro na Avenida de Roma, a rua central e as adjacentes, era “Jorge”, o personagem. Quem conduzia o livro Avenida de Londres era Artur Portela Filho, que vai ser, logo a seguir, empurrado a sair do jornalismo, por ser demasiado independente.
Passará a fazer publicidade, bom a convencer comprar coisas. Portela só voltará depois do 25 de Abril, quando convencer a confederação dos patrões, CIP, a comprar-lhe uma tribuna, o Jornal Novo. As suas crónicas eram acutilantes e as fotomontagens na primeira página surpreendentes – durou pouco, o dinheiro cedo fechou a torneira imaginativa.
O que o experimentado jornalista Artur Portela Filho vendia, Portugal moderno e elites esclarecidas (financeiras e políticas), era uma quimera. Já a Avenida de Roma ficção e a Avenida de Roma asfaltada, são ambas cidade com caboucos, com burros irrompendo, lojas de sapateiro em cave, cruzamentos de grandes arquitetos urbanos, uma geração e esperança, a beleza diáfana de Isabel Ruth e a força sábia dos dedos de Paredes. Eram e são sobre uma grande e nova Lisboa, uma realidade nova inspirada na Lisboa que recebeu como passado comum.
Entre bairros
Para um lisboeta não há coisa mais linda do que ser de entre bairros. E por falar nisso, recentemente, o Palácio dos Coruchéus convidou Victor Barreiras a escrever um livro sobre Alvalade. Barreiras é antropólogo, o que quer dizer, estuda o ser humano, este e tudo à volta dele. Tendo-lhe sido proposto Alvalade, ele escreveu um livro chamado, lá está, Entre Bairros.
Faça Alvalade, disseram-lhe, e ele naturalmente chegou à Maria Adelaide Guerra Cardoso. Apresentou-a em foto, pernas cruzadas, meias brancas e sapatinhos de verniz, sorriso, sentada no cadeirão de madeira trabalhada do Estúdio Barros, 1939. Nessa altura a Avenida de Roma já tinha nome há quase uma década, mas ainda era só um projeto. E a Maria Adelaide, com 4 anos, era uma bairrista em construção. Longínqua…

A 4,9 km mais longe, lá para a Mouraria, onde nascera. A menina de sapatinhos de verniz viveria ali mais dez anos, antes de passar a outro bairrismo.
A ciência e bom gosto de Victor Barreiras, focando-se num destino pessoal, contou perfeitamente Alvalade, antes mesmo de começar a escrever sobre este bairro. As cidades renascem, acrescentam-se como as famílias, prolongando heranças e experiências. À Maria Adelaide, o pai levou-a a batizar à igreja do Socorro e, ao lado, às matinés do Teatro Apollo, moravam eles na rua comerciante do Martim Moniz… Tudo que já não existe e hoje se chama Praça Martim Moniz.

No livro, que será em breve lançado – e para o qual escrevi o prefácio (do qual tirei algumas destas palavras) – Victor Barreiras jura ver a menina espreitar de uma janela daquela rua, numa foto do prédio com a vitrina de afamada ourivesaria na esquina. Eu próprio, jornalista com respeito pelos factos, logo que me comovam, aposto singelo contra dobrado, que o pai da Maria Adelaide fotografou um dia a sua menina a passar sob o Arco do Marquês de Alegrete, tal como Roque Gameiro pintou a moça aguadeira…
Quando já não havia nem a igreja do batismo de Maria Adelaide, nem as matinés no Apollo, nem a curva do elétrico na Rua Martim Moniz, nem as montras desta, nem o palácio, nem Arco do Marquês de Alegrete, o antropólogo passeou Maria Adelaide, velha senhora de quase 90 anos e já do bairro de Alvalade, onde ela mora desde 1949. Atenta e curiosa, ela agarrou-se a uma imagem, toda a praça uma ruína, foto feita por Judah Benoliel, onde já só restava a capelinha da Nossa Senhora da Saúde.
Mas as cidades nunca desaparecem enquanto houver capelinhas, velhas senhoras, memórias noutros bairros e livrinhos em estantes.
O negócio internacional falhado com Alvalade
“Mas isto é sobre Alvalade?”, dirá leitor ainda distraído. Pois, é – Alvalade, mas também um prolongamento da Mouraria e da Travessa do Arco de Jesus. É assim que se vão construindo as mátrias, como Lisboa.
O importante é não esquecer o que amámos. É reparar nas esquinas. Estar pronto para ouvir a palavra antiga. Aprender com o bom que chega. Não nos deixarmos de espantar com as coincidências.
Chegamos, enfim, ao famigerado negócio internacional falhado com Alvalade. O erro foi termos um excelente trunfo numa negociação de troca de favores entre capitais europeias e nunca o usámos. E houve um momento soberbo para o usar. Digo isto agora porque estou um bocado tomado dos carretos com as modernices, os raids ousados (como é, vendem a ilha, ou preferem guerra?), em vez da diplomacia antiga.
Os lisboetas honraram a palavra Roma na toponímia da nossa capital. Comparem, a passo de andar, a Avenida de Roma com a vizinha Avenida de Paris, cinco vezes mais curta. Além do tamanho, reparem no papel dinâmico de rua central que reservámos à Avenida de Roma, e ela ambiciosamente cumpriu, com histórias e historietas, fama e proveito. E tendo dado isso de barato, os lisboetas nunca lançaram aos romanos: e vocês, o que têm para troca?
No fim da II Guerra Mundial, numa mera distribuição de placas de cidades europeias por Roma fora, chamou-se Via Lisbona a uma rua que circunda um jardim. Longe do centro, bairro burguês, com algumas embaixadas secundárias, aquele trajeto de alameda é aborrecido como uma sessão de terapia. Aliás a Società Psicoanalitica Italiana tem lá a sede e o jardim chama-se Giardino Sigmund Freud, desde 2011.
A tabuleta Via Lisbona nunca levou a nenhuma explicação interessante, chama-se Lisboa porque sim, como a vizinhaVia Bruxelles… Aponta-me o útil e exato Google Maps: “Via Lisbona é ali.” Ali, e depois?
Existe um Jardim Sigmund Freud, naquele mesmo canto de Roma, no meio da Via Lisbona. Pois, pesquisando a tabuleta com o nome do jardim, esta já me deu a conhecer que, em 1912, Freud escreveu uma carta à sua mulher, dizendo que gostaria de passar a velhice, não na cidade deles de sempre, Viena, mas em Roma.

Na verdade, o velho judeu acabaria os seus dias em Londres, em 1939, fugido ao nazismo que já lhe tinha queimado os livros em fogueiras públicas e se preparava para lhe queimar mais alguma coisa se ele não fugisse a tempo. E mais ainda fiquei a saber da relação de Freud com Roma: em1901, o especialista da interpretação de sonhos descreveu um deles “vendo o Tibre e a ponte de Sant’Angelo da janela de um coche…”
Viram? Uma criteriosa distribuição de tabuletas, permite caçar coincidências e enriquece sempre a conversa sobre uma cidade.
A conversa e a ação. Pouco depois do Giardino Sigmund Freud ter sido inaugurado, em 2011, com todos os líderes políticos do município presentes, a praceta teve uma decadência generalizada no urbanismo europeu post-covid. Em Roma em geral espalhou-se a campanha com o hashtag #Romasonoio (Roma Somos Nós), de famosos com uma vassoura na mão, enquanto limpavam a rua frente à sua casa ou o beco vizinho.

Daquele canto romano, quem vi foi Massimo Ammaniti lançando um apelo para restaurar o jardim da Via Lisbona, devastado pela sujeira. Massimo, quem? Massimo Ammaniti, célebre psicanalista, professor universitário e presença habitual nas televisões. Que me disse, via hashtag, e vassoura empunhada: “Uma grande árvore caiu há algumas semanas e uma parte do jardim ficou inutilizada.”
Como aquilo ficava na Via Lisbona, ele podia descair-se numa alusão deselegante à nossa cidade, sabem como é nas redes sociais… Mas não, ele disse: “Na parte inferior, que leva o nome de Freud, ervas daninhas crescem descontroladamente, sob espessa camada de excrementos.” E resumiu: “É muito fácil associar isto à ‘fase anal’ estudada a fundo pelo famoso médico austríaco…” Quer dizer, até em contumélias a Via Lisbona não nos serve para nada, perde para Freud.

O problema é que o nome de Lisboa no mapa de Roma não devia ter esperado pela queda do fascismo italiano e do fim da II Guerra Mundial. Tivesse sido antes, o interesse português talvez estivesse hoje defendido. Digo eu que ando um bocado abalado, volto a confessar com a diplomacia musculada.
Também por isso, ultimamente dediquei-me a ler as entrevistas de António Ferro a Benito Mussolini. Um dos melhores propagandistas de Lisboa encontrou-se com o líder italiano por três vezes, em 1923, em 1926 e 1934. Das duas primeiras, Ferro era só jornalista. Um esteta moderno encandeado pelo culto do poder, estava derretido com o modelo perfeito de Capo (Chefe), que acabara de conquistar Roma. Na primeira entrevista, que seria publicada no jornal A Capital, ainda a nossa República arrastava a sua decadência, o admirador narrou num parágrafo como se passou a primeira troca de olhares com o Duce, no gabinete do já então Chefe do Governo, no Palazzo Chigi, em Roma.

“Ao fundo, à frente de uma escrivaninha, a primeira página de um jornal, toda ela. O jornal chama-se Il Piccolo… E, como num passe de magia, o jornal cai e aparece Mussolini, o grande!”, escreveu António Ferro. Um brilhante intelectual lisboeta transformado em deslumbrado. São sempre estranhos os efeitos do fascismo sobre os fascistas nacionais, mesmo quando, no caso de Ferro, ele é inteligente e culto.
Na segunda entrevista, também no Palazzo Chigi, Ferro continuava com funções só de jornalista, apesar de cada vez mais fascinado pela forma de Mussolini convocar as multidões e lhes falar. Mais do que sobre como a política se organizava, o fascismo que interessava Ferro era o verbo incendiado do Chefe, Il Capo. O lado cénico da coisa.
Publicado em dezembro de 1926, no Diário de Notícias, onde ele influenciava com gosto e imaginação, o que mais relevava o texto era a mudança significativa em Portugal. A República caíra em 28 de maio desse ano, uma Ditadura Militar fora instalada e o exemplo de Mussolini podia resultar.
Do ponto de vista ideológico, este segundo encontro, foi a mais expressivo: “Foi uma entrevista de tacões juntos, em posição de sentido”, resumiu nela o apaixonado e bajulador jornalista português.
Para o assunto que aqui me traz, fazer Lisboa ganhar alguma coisa com aquele encontro, talvez não fosse ainda altura, António Ferro ainda não estava organizado com coisa nenhuma, nem tinha poder para propor ou pedir o que quer que fosse.
Houve, porém, um momento, na segunda entrevista, que me excitou. Foi quando ouvi Ferro dizer: “Desejava fazer uma pergunta sobre Portugal…” Ao que Mussolini respondeu: “Per quanto riguarda il Portogallo, le do carta bianca… Mi chieda quello che vuole.” Juro.
Embora, pensando bem, preciso de deitar água na fervura das palavras de Mussolini. “Quanto a Portugal, dou-lhe carta branca…” é tradução indiscutível, mas sem dar grandes esperanças. E se “peça-me o que quiser”, que foi o que eu ouvi ao ler (sim, o desejo tem efeitos estranhos), era excitante, o italiano “mi chieda…” também pode ser traduzido por “pergunte-me o que quiser”… Resumindo, Mussolini estava desobrigado de ser mãos largas.
Em todo o caso, nunca perdoarei a António Ferro não ter saltado sobre a ocasião, em 1926, e exigido ao seu ídolo: “Então, se posso pedir o que quiser, quero que retire já o nome Piazza di Spagna, que passa a ser para sempre, Piazza Lisbona”. Mas quem salta, se está de tacões unidos e em posição de sentido?
O terceiro encontro entre António Ferro e Mussolini foi mais propício a ter influência na toponímia romana. Desde logo, aconteceu em 1934 e isso dava como consumado um argumento de peso à causa lisboeta: há quatro anos ela dera nome à “Avenida de Roma”, generosa oferta. A italiana era a capital europeia mais bem colocada no mapa de Lisboa.
Acresce que Ferro desta vez chegava a Benito Mussolini com um cargo oficial. O português já exercia um dos mais apetecidos poderes para os filo-fascistas, mandava no Secretariado Nacional de Propaganda. Em 1934, um dos políticos mais ouvidos por Mussolini, o conde Ciano, seu genro (que haveria de traí-lo no fim, dez anos depois), era só subsecretário da Propaganda. E o Estado Novo português já era autoritário e bastante inspirado no fascismo italiano. ENFIM Já não era uma entrevista, mas um encontro político bastante fraterno.
Mussolini recebeu-o à cinco e meia da tarde, no Palazzo Venezia, o palácio das grandes aclamações populares. Sobre a Piazza de Venezia, para onde confluíam o Corso Umberto, a Via Nazionale e o Corso Vittorio Emanuele, ruas que António Ferro enumerou todas, no seu texto “Visita ao Duce”, publicado no DN, a 26 de novembro.
Quer dizer, pensei eu, havia pretexto para a questão toponímica – “e então, que tal uma rua sobre Lisboa, em Roma?” – ser levantada. Para mais, tudo se passava num salão imenso, contou Ferro: “Vinte metros de altura, treze de largura e treze de comprimento, conhecido como salão ‘do Mapa do Mundo’, do nome do primeiro globo terrestre, ali exposto em madeira”. Voltei a pensar: boa razão para exaltar Lisboa de onde partiram as naus pelo globo fora!
Ferro já estava ao rubro, reparou em “três grandes janelas que davam para a Praça, entre as quais aquela que se chama do entusiasmo…” Meu Deus, era dali que Mussolini bradava à multidão, punhos fechados sobre o cinturão largo, queixo erguido até ao topo da coluna de Trajano.

A dado passo, Ferro escreveu: “Mussolini perguntou-me sobre Espanha, da posição de Portugal a respeito dessa questão explosiva e incendiária”. Em Espanha a monarquia já havia caído, havia greves anarquistas, a Catalunha e as Astúrias pouco respondiam a Madrid, a guerra civil anunciava-se, o que de facto iria acontecer pouco depois.
O encontro de Ferro com Mussolini, de governos fortes, em novembro de 1934 aconteceu com a Espanha muito fraca (já vos disse, ultimamente, abutres aguçam-me o apetite). Pouco antes da conversa sobre dos nossos vizinhos vir à baila no Palazzo Venezia, Mussolini voltara a oferecer os seus préstimos a Ferro, como em 1926: “E agora? Em que posso ser-lhe útil?”, li salivando neste artigo do DN, de 1934.
Mas António Ferro nada pediu, nem a Piazza di Spagna. Já lhe bastava, disse ele e escreveu, agradecer a Mussolini por lhe ter arranjado um bom tradutor italiano para o seu livro de entrevista a Salazar. Só por isso, eu não votaria em Ferro, digo desde já, fascistas, nem os cultos (suspeito, porém, que ele também não me deixaria votar).
Da Av. de Roma para a Via Margutta ou Felinni no Quarteto
Ultimamente, repito, sinto-me confuso como toda a gente, abalado por um Capitão América, que ora quer ocupar a Islândia, ou outra lândia, já não sei, retomar, enfim a lei do mais forte. “É fraco?”, ocupa-se. Daí que levando a coisa para terrenos mais suaves, simples ruas – mas, atenção, o desejo de ocupações começam com uma tabuleta e acabam na maior das ilhas– dou-me conta agora que com aquele desejo de ter uma Via Lisbona em condições em Roma, já me levara a sonhar em ocupar a Piazza di Spagna.

No reino do Capitão América que dorme em cada um de nós, argumentos é o que mais há e, por ter lido os encontros de Ferro e Mussolini, eu já estava armado com argumentos históricos (ah, mas a Gronelândia)… Perdão, isto pega-se, ah, mas a Piazza di Spagna foi nome dado em 1622, homenageando o Estado Ibérico (o dos reis Filipes) ao qual também pertencia Portugal. Ou, se não pudéssemos ter a tal Piazza, pelo menos Lisboa podia ter a tabuleta nas belas escadarias adjacentes…
Mas a surpreendente recusa de António Ferro em resolver o assunto em 1924, 26 e 34, levou-me ao longo périplo que fiz nesta crónica. Uma lição, pois levou-me também a pormenores e a coincidências que não conhecia. Sabem que há uma pequena rua, a 50 metros da Piazza di Spagna, recolhida como quem se quer esconder?
Chama-se Via Margutta, é bela e viva. Todos os anos há lá um festival, 100 Pintores da Via Margutta, um acontecimento cultural de Roma.
Não, não estou a propor transferir a Via Lisbona para lá. A tabuleta Via Margutta vem de um barbeiro, Luigi Marguti, com nome inscrito num censo romano de 1526 (há 500 exatos anos). A lenda descreve-o tolo e maçador, como Chiado, a quem demos e bem uma praça lisboeta, foi destratado de desbocado e bebedolas.
Sabem quem viveu quse a vida inteira na Via Margutta, 110? O maravilhoso Federico Fellini e a sua mulher Giulietta Masina, a dos olhos espantados. Os dois de As Noites de Cabíria, o fime discutido, numa das páginas da Avenida de Roma, por jovens de Alvalade.

O Fellini, cujo filme Ensaio de Orquestra, estreou em Portugal a 27 novembro de 1980, no Quarteto, sala 1. Nesse dia, na sala 3, também o Manhã Submersa, do realizador Lauro António, continuava o sucesso que trouxera do Festival de Cannes, no ano anterior.

O Quarteto era um cinema de ilusões simultâneas, quatro ecrãs a passar filmes, todos os dias, de 1975, a 2008. O dono era Pedro Bandeira Freire, com sólidas ligações cinéfilas e todos os anos frequentava o Festival de Cannes.
Leram? Juntos, o Fellini da romana Via Margutta, rua pequena, recolhida, como a querer esconder-se; e o Lauro António, que lançara o seu filme no Quarteto, cinema que morava numa rua pequena e recolhida, a Flores do Lima, nº 16, nas traseiras da Avenida dos Estados Unidos da América, Alvalade. Quanto à morada de Lauro António que outra podia ser, senão a porta ao lado do Vá-Vá, também ali a dois passos?
A Palma de Ouro do ano anterior, o filme All That Jazz, ele lançara em Lisboa com uma festa de arromba. Por sinal, era o filme exibido, naquele dia, na sala 2, entre os filmes de Fellini e o de Lauro António.
Ah, bairro de Alvalade, tanta coincidência, tão capelinha e com tanto mundo dentro!
Quando o Quarteto fez 25 anos, o patrão dos ecrãs quadrigémeos fez uma festa e um discurso. Pedro Bandeira também era poeta, cinzelava a palavra, olhem, como o Nuno Bragança em Os Verdes Anos. Lembrou o que gostaria de ter dito e não disse quando abriu a sua casa, no Outono de 1975: “O Quarteto Que Terá 25 Anos no Ano 2000”. E continuou o discurso entremeado com frases bebidas em títulos de filmes.

Que a ideia, surgiu com os cravos, Bruscamente Num Verão Passado… que a qualidade seria A Regra do Jogo e a ambição era pôr o público com O Mundo A Seus Pés… o que nos Tempos Modernos era uma Grande Ilusão, mas estava-se na Idade da Inocência, esperavam-se Lágrimas e Suspiros, num Império das Paixões… Passaram Noites Brancas, na Lisboa, Cidade Branca, e graças a apoios, Tudo Bons Rapazes, e n’ O Dia Mais Longo, lá tiveram o seu Cinema Paraíso…
Nesse discurso de 2000, o patrão e mágico desejou para o público, A Vida Mais Bela, e para ele próprio Pedro, O Louco, que chegasse ao El Dorado. Em 2007, pelo aniversário da sua obra, Pedro Bandeira Freire pensou menos no público e nele próprio, não houve discurso e deixou só esta frase: “Quarteto – Já vai nos 31. A que idade chegará?…”
Um dia, a longa aventura luminosa e diária do Quarteto fechou. Foi logo a seguir à pergunta do parágrafo anterior. Pouco depois o Pedro Bandeira Freire morreu. E o Fellini já tinha morrido.
Entretanto a Via Margutta está viva como nunca, mas a Rua Flores do Lima murchou.

Com tantas causas por lutar, com tantos conseguimentos exemplares, locais e populares para contar, a Mensagem de Lisboa declara que não vai invadir nem comprar a Piazza di Spagna. Por outro lado, quer parecer-nos que aquilo de juntar a Avenida de Roma, a Via Lisbona, a Via Margutta e a Rua Flores do Lima, mais do que só conversas de crónica, tem pernas para andar…
- Texto modificado para incluir informação do Padrão do Campo Pequeno.
Nesta série da Mensagem, “Fala-me de ti, Lisboa”, Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

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Apreciei o texto, mas tenho uma rectificação a realizar: o nome original do filme “O Acossado” é “À bout de souffle” e não “À bout de Soufflé”. O acento no e está a mais!
Está emendado, e muito obrigada.