edifício sede da Caixa Geral de Depósitos

Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

O Bairro do Arco do Cego, onde se encontra o edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, foi um dos  primeiros bairros sociais de Portugal, projetado durante a Primeira República, mas que só teve as primeiras construções em 1918, sendo concluído apenas já durante o Estado Novo, em 1935.

O terreno – antes da sua construção – era conhecido como “Quinta das Cortes” (de origem obscura, mas talvez uma referência às Cortes que se realizaram em Lisboa, em 1323, no contexto das Pazes de Alvalade) e foi adquirido pelo Estado para aqui realizar esta construção. No Bairro destaca-se, além do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, a Escola Secundária D. Filipa de Lencastre, projetada pelo arquiteto Jorge Segurado.

Como curiosidade registe-se que antes da escola havia planos para construir no mesmo local um Teatro-circo-biblioteca, do arquiteto Edmundo Tavares.

As Pazes de Alvalade

O padrão que hoje pode ser contemplado encastrado num muro do Jardim dos Cavaleiros do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos alude à intervenção pacificadora da Rainha Santa Isabel entre o seu marido Dom Dinis e o infante Dom Afonso.

A lápide tem a inscrição “Santa Isabel Rainha de Portugal mandou colocar este padrão neste lugar em memória da pacificação que nele fez entre seu marido El Rei D. Dinis e seu filho Afonso IV estando para se darem batalha na era de 1323” (grafia atualizada). A este texto acrescentou-se em 1904, refazendo toda a lápide, a nota de que “No reinado de D. Carlos I, sendo ministro da Guerra o General L. A. Pimentel Pinto foi restaurado este padrão. Julho de 1904”.

Segundo o blogue “Paixão por Lisboa”, este padrão foi mencionado pela primeira vez em 1760 aquando de uma avaliação dos estragos provocados pelo abalo sísmico de 1755. Mais tarde, em 1862, surge uma segunda referência, mais detalhada quanto ao local que seria o mesmo muro da estrada (hoje rua) do Arco do Cego, ou seja, a pouco mais de 50 metros da localização atual da réplica. Não há dados seguros quanto à data do padrão original, mas pela decoração, epigrafia e fraseado é provável que date do século XVII.

O IPPAR refere em 1993 que o padrão teria sido, posteriormente a 1862, deslocado, tendo-lhe sido removidos alguns elementos tais como “a guarda de ferro, as colunas do capitel e a sua guarnição superior”, reduzindo-o à laje inscrita que hoje vemos.

Em 1949, ainda se encontrava no local original, mas já desprovido de quase todos os elementos decorativos que, supõe-se, terão sido removidos aquando da reconstrução do muro feita nessa época, restando apenas uma coluna. Na deslocação para o local atual – alguns anos antes de 1995 – foi removida a última coluna e o padrão foi conduzido à condição de laje inscrita.

Quanto à “Quase-Batalha” de Alvalade (do árabe al balat, “planície”), também conhecida como “Lide de Loures”), referida pela inscrição, esta esteve prestes a travar-se em 1323 e iria enfrentar o rei de Portugal, Dom Dinis, já com mais de 60 anos, e o futuro rei Dom Afonso IV. Este seu filho, o legítimo herdeiro do trono, disputava a sucessão com o único bastardo legitimado do monarca.

Estava o monarca em Leiria, bastante doente, quando, em junho de 1322, fez testamento em que colocava como herdeiros a rainha e o filho bastardo Dom Afonso Sanches. Contudo, Dom Dinis não morreria nessa ocasião e nesse mesmo ano o monarca recebeu de Castela um pedido de ajuda militar, tendo enviado o príncipe Dom Afonso para Badajoz, que estava ocupada pelo príncipe rebelde castelhano Dom Filipe.

Este, vendo aproximar-se a hoste portuguesa, abandonou a cidade sem travar combate. Inflamado pelo despeito do testamento e munido de poderoso exército, Dom Afonso decide marchar para Santarém, onde estava Dom Dinis, para exigir do seu pai novos benefícios. Dom Dinis não cedeu, mas Afonso – ao ver junto ao monarca o bastardo Afonso Sanches – exigiu a convocação de Cortes as quais, esperava o herdeiro, lhe iriam atender o pedido recusado pelo rei.

Onde hoje se ergue o imponente edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, e todo o Bairro do Arco do Cego, era a Quinta das Cortes, talvez numa alusão às Cortes que se realizaram em Lisboa, em 1323, no contexto das Pazes de Alvalade. Foto de Rui Martins

As Cortes reuniram-se em Lisboa em outubro de 1323 e recusaram aceder aos pedidos do filho. Irado, Dom Afonso largou da capital e partiu para Santarém, onde se encontrava dispersa a sua hoste, e marchou de volta para Lisboa com o fito de tomar, pela força, o trono ao seu pai.

As tentativas de moderação do rei não foram ouvidas pelo filho desavindo e Dom Dinis, rodeado dos seus bastardos, Dom Afonso Sanches e João Afonso, armou exército e foi esperar as forças do seu filho na zona do “campo de Alvalade”, que se pensa corresponder, grosso modo, à zona do atual Bairro do Arco do Cego, fronteiro às Avenidas Novas, uma zona agrícola que se estenderia bem até à atual freguesia de Alvalade e ao Campo Pequeno.

Chegaram a trocar-se salvas de setas e dardos mas, de súbito, surgiu a rainha já sexagenária montada numa mula entre os dois exércitos e – segundo a lenda – todos os peões e cavaleiros baixaram o seu ímpeto guerreiro e, depois de a rainha ter trocado mensagens entre os dois opositores, estes fizeram as pazes e a batalha acabou por não ter lugar.

O Jardim dos Cavaleiros

Este jardim, de acesso público mas em terreno do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, tem um pequeno anfiteatro que já foi usado para diversos espetáculos patrocinados pela Culturgest, tendo camarins e salas de apoio.

As esculturas do Jardim dos Cavaleiros representam os 12 vice-reis da Índia e são obra do escultor Luís Pinto-Coelho. Foto: Rui Martins

As esculturas de ferro que rodeiam o anfiteatro representam os 12 vice-reis da Índia e são obra do escultor Luís Pinto-Coelho. Este jardim foi, em 2016, o local de alguma polémica local devido aos resíduos e ruído noturno de um bar que se encontra na fronteira das freguesias do Areeiro e das Avenidas Novas.

Os Falcões Peregrinos

Nas torres do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos viviam, desde pelo menos 2015, falcões peregrinos (o animal mais rápido do mundo, capaz de alcançar 300 km/h em voo). Em 2017, foram avistados várias vezes, até nas varandas dos prédios da Av. Marconi, mas, em 2018, um foi encontrado morto junto ao Ministério do Trabalho (junto da Av. de Roma).

O mesmo grupo familiar (provavelmente), ainda em 2018, era visto na Rua João da Silva e, anos depois, em setembro de 2021, voando sobre as Olaias (na mesma zona onde ao fim da tarde também se observam morcegos).

Foi este grupo de falcões que, em 2017, atraiu um grupo de quatro homens que, fazendo rappel nas torres do edifício sede da Caixa Geral de Depósitos, procuravam furtar os seus ovos, sendo detetados pela equipa de segurança do edifício que chamou a PSP e deteve os indivíduos em pleno flagrante delito.

A Fábrica de Cerâmica Lusitânia

Data de 1890 a fundação por Sylvan Bessière da “Fábrica de Cerâmica Bessière”, na altura nos arredores do matadouro de Picoas (entre a Rua Engenheiro Vieira da Silva, Av. Fontes Pereira de Melo e a Praça José Fontana).

A fábrica especializa-se em materiais para a construção civil e em 1905 transfere as instalações para um terreno comprado por Bessière ao lado do Palácio Galveias dada a riqueza do terreno em barro vermelho e a proximidade da zona das Avenidas Novas, então em franca expansão urbanística.

Há também uma tradição oral que indica que o francês teria ganho a encomenda para os tijolos da praça de touros do Campo Pequeno (também conhecido como “Campo de Alvalade”), mas não deve corresponder à realidade uma vez que esta foi inaugurada em 18 de agosto de 1892: 13 anos antes da mudança da fábrica para a sua proximidade.

A chaminé do forno principal da Fábrica Cerâmica Lusitânia foi preservada e pode ser ainda hoje contemplada no jardim, aberto ao público em 2020. Foto: Rui Martins

Em 1919, morre Sylvan Bessière e a fábrica é adquirida pelo “Banco Industrial Português” (fundado no ano anterior) e por industriais do setor. Este banco especializara-se no fomento da indústria e do comércio e criara várias empresas ou financiara outras, financiando esta compra a Júlio Martins e Augusto Tavares, conhecidos industriais do ramo da cerâmica.

O banco abriria falência em 1925, mas a empresa não seria afetada, bem pelo contrário, porque em 1927 começa as obras de uma nova sede com projeto de Luís Ernesto Ribeira, concluídas em 1929. A nova sede, totalmente revestida de azulejos decorados na vizinha Rua do Arco do Cego, onde o grande ceramista Jorge Colaço tinha um atelier independente no último piso.

Nesta época, a fábrica é conhecida como “Companhia da Fábrica Cerâmica Lusitânia SARL”. Aproveitando a crise económica, a empresa expande-se ao resto do país comprando fábricas falidas e estende a sua área de atividade a outros materiais de construção civil e, a partir da aquisição da fábrica de cerâmica de Coimbra, a cerâmicas decorativas.

Em finais da década de 1970, a fábrica declara falência e em 1985 os terrenos onde se encontravam as instalações fabris e alguns edifícios de habitação para funcionários são comprados pela Caixa Geral de Depósitos para construir o seu edifício sede.

Em 1986, a Caixa Geral de Depósitos escolhe o projeto do arquiteto Arsénio Cordeiro e as obras arrancam em 1987, com inauguração em 1995. A chaminé do forno principal é preservada e pode ser ainda hoje contemplada no jardim que foi aberto ao público em 2020.

Para saber mais:
paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/a-rainha-santa-isabel-e-o-padrao-do-93488
pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alvalade
visitarportugal.pt/lisboa/lisboa/areeiro/padrao-campo-pequeno
patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70625
pt.wikipedia.org/wiki/Jardim_da_CGD
publico.pt/2017/04/07/local/noticia/em-lisboa-ha-quem-faca–rappel-para-roubar-ovos-de-ave-protegida-1767859
restosdecoleccao.blogspot.com/2012/11/companhia-das-fabricas-de-ceramica.html
pt.wikipedia.org/wiki/Arco_do_Cego
jstor.org/stable/41011027
wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Alvalade


* Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).

Entre na conversa

2 Comentários

  1. Obrigado, José
    Deste texto o que me deu mais gosto estudar foi a questão do padrão (e de ter descoberto no muro da Rua do Arco do Cego o seu lugar original 🙂 )

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *