Foto: Líbia Florentino.

O horário do almoço avizinha-se e, aos poucos, as mesas à volta do que parece ser uma pequena mercearia étnica começam a ser ocupadas. É sempre assim, a rotina repete-se no Mercado de Arroios, onde o Zaytouna tem sido o destino certo de quem procura os estímulos do sabor marcante da gastronomia do Médio Oriente. 

E no caso deste restaurante palestiniano, como atualmente não pode deixar de ser, comer também é marcar uma posição política. No Instagram do Zaytouna, os posts que convocam às várias causas contemporâneas – das questões de géneros ao bloqueio a Cuba e, obviamente, a violenta intervenção israelita em Gaza – dividem a timeline com os pratos da casa. 

Pratos que levaram o Zaytouna – “azeitona”, em português – a figurar na lista dos 101 Top Restaurantes de Lisboa, uma parceria dos ImmigrantFoodies com a Mensagem de Lisboa. 

Quando o Zaytouna abriu as portas em 2016, ainda apenas como um mercado de especiarias, o mundo desde sempre em voltas com guerras e conflitos, parecia um pouco menos turbulento do que hoje. Mas isso apenas na nossa míope visão ocidental.

A esplanada do Zaytouna no Mercado de Arroios, um espaço que une sabor e resistência em Lisboa. Foto: Líbia Florentino.

Para o palestiniano Hindi Mesleh, o que se ouve hoje com frequência no noticiário – discriminação, perseguição, massacre –  já era parte do dia-a-dia em Gaza, onde nasceu há 42 anos. Em 2013, a construção de um muro por parte de Israel – o apartheid wall – tornou a vida praticamente inviável, levando-o a partir, primeiro a Bruxelas e, três anos depois, para Lisboa. 

Licenciado em produção de documentário na Universidade Dar al-Kalima, em Ramallah, Hindi ainda registou as nuanças do crescente aumento das tensões no seu projeto de conclusão do curso. Foi a última vez que sentou na cadeira de diretor. Como imigrante, acabou por seguir o guião destinado aos imigrantes num contexto onde o diploma estrangeiro vale quase nada.

Em Bruxelas, trabalhou na manutenção de apartamentos, ironicamente cumprindo a vocação semântica do nome de família: Mesleh. “Em árabe, Mesleh é algo como fixer, em inglês”, explica. “Literalmente, meu nome quer dizer o indiano que conserta as coisas”, diverte-se o palestiniano. 

Já a viver em Lisboa, Hindi trocou a manutenção pela alimentação. Primeiro, com a mercearia e, dois anos depois, o mercado ganhava mesas internas, uma esplanada e começava a abrir para o almoço e jantar, tornando-se em pouco tempo uma referência não só na gastronomia palestiniana, mas da riqueza gastronómica do que se costuma chamar de “comida árabe”.

E assim, o homem que conserta as coisas passou também a consertar a vida dos lisboetas em busca de saciar o apetite com 

Obra de arte servida à mesa, com preço em conta

O horário do almoço avança e o restaurante é invadido pelo aroma das especiarias de entradas como os pães árabes, hummus, tabbouleh e falafel, preparados na cozinha aberta gerida por um diletante e sério chef, separada da mercearia e das mesas  apenas por um balcão, fazendo que o cheiro de todo o preparo seja partilhado entre os clientes.

A rotina do Zaytouna é exigente. Além do chef, uma simpática empregada de mesa compõem o staff, que não para de trabalhar um único minuto. A equipa enxuta não se traduz num longo tempo de espera e a comida chega rapidinho e ainda fumegante, como o Makdous, um prato composto por beringela fumada, recheada com pimentos, nozes, tomate e molho tahini

Um prato que já se começa a comer com os olhos. Aliás, a grande parte do menu do Zaytouna parece “desenhada” à mão por um artista plástico e, em alguns casos, dá uma certa dó em desfazer a obra de arte com o garfo. Um pudor inútil, pois é impossível resistir.

A equipa minimalista certamente é uma das respostas para um dos outros grandes trunfos do Zaytouna: o preço em conta. Apesar da sofisticação no preparo e na apresentação, a impressão é de que a intenção é trazer a comida servida nas ruas da Palestina para Lisboa, ou ainda, a experiência de partilhar um almoço numa família palestiniana.

“As receitas são todas minhas. Sempre gostei muito de cozinhar, seja em família, mas também em experiências num restaurante que tive em Ramallah ”, diz Hindi, em português fluente.

Português que começou a aprender logo quando chegou, num curso privado com duração de três meses. “Tive que aprender português rapidamente, para começar a vender”, explica o palestiano. A loja ajudou bastante no aprendizado, reforça, assim como a ajuda da namorada portuguesa.

Em bom português, portanto, Hindi conta ainda que a escolha pela Zaytouna, a azeitona, como nome do empreendimento é parte do ADN ativista do restaurante. “Na nossa cultura, a oliveira é um símbolo de resistência”, ensina.

Resistência que se estende também à lista de bebidas da ementa onde, ao lado da aromática e refrescante limonada de rosas, está a Palestinian Coke, uma versão oriental do mais famoso refrigerante ocidental, incluída na lista de boicote dos ativistas, mas não por ser fabricada nos EUA. 

“E sim, pela Coca por ser financiadora direta do exército de Israel”, frisa Hindi, posando para a fotografia da reportagem metido na t-shirt estampado a fruta-símbolo da resistência em Gaza, a melancia, que por ter as mesmas cores da bandeira da Palestina tem funcionado como uma “bandeira alternativa” nas manifs onde a original não é permitida. 

A resistência como prato principal

A rotina é também exigente para o patrão Hindi, que costuma trabalhar em média 16 horas por dia, dividindo-se entre o Mercado de Arroios e Cascais, onde em 2020 o Zaytouna ganhou uma filial. Sem falar no trabalho paralelo de fornecer produtos orientais – como a Palestinian Coke – a outros mercados e também a restaurantes de Lisboa.

O braço do negócio como fornecedor também é uma variável importante na equação do preço mais em conta do restaurante.

Hindi Mesleh e a t-shirt com a fruta-símbolo da resistência em Gaza: temor na última visita à família na Palestina, em 2023. Foto: Líbia Florentino.

“Como temos os produtos praticamente a valor de custo, conseguimos manter o preço acessível, o que é importante para a nossa filosofia de formar uma comunidade em torno do restaurante”, explica Hindi.

Uma “comunidade” que encontrou um perfil um pouco mais conservador de Cascais, menos preocupado com as questões e tensões globais, que somado ao extenuante vai-e-vem no volante, tem levado Hindi a ponderar encerrar as atividades na linha para reabrir a segunda unidade no bairro da Graça, vizinho onde mora, no Beato.

Seria a tentativa de reduzir um pouco o intenso esforço diário e o consequente cansaço físico, mal-disfarçado pelo sorriso amistoso sempre na face do palestiniano que, para além da rotina no restaurante, só por o que está a acontecer em Gaza teria todos os motivos do mundo para estar esgotado, a começar pela família que ficou na Palestina. 

O anunciado cessar-fogo no Médio Oriente é sempre bem-vindo, mas a experiência ensina que a paz é um bem bastante perecível. “Queria acreditar que a matança acabou, mas cá comigo penso que nunca vai parar”, pondera.

A última vez que Hindi visitou os parentes na Palestina foi em 2023. “Pela primeira vez, tive medo de ir”, confessa o palestiniano que encontra nos raios de sol de Lisboa um momento de alento para as questões que o aflige. “O tempo foi um ponto importante para deixar Bruxelas. Estava com alergia ao frio e ao céu cinza”, conta.

Foi o que pesou para vir para Lisboa. “Estava na dúvida entre Espanha e Portugal, mas me disseram que aqui seria mais fácil conseguir os papéis”, explica o palestiano, que desde 2022 aguarda pela chegada da nacionalidade portuguesa. “Parecia mais fácil fazer a documentação, mas não foi”, resume Hindi, sem esconder o desconsolo.

Uma tristeza que logo desanuvia no semblante do dono do restaurante de nome inspirado nas oliveiras, assim como os palestinianos, um símbolo de resistência.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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