Salete sabe de cor: a mesinha do senhor Engenheiro é a seis, a da Dona Catarina é a mesa um, bem ao lado da do senhor Ramos. Homero também sabe, claro, pois naquela casa em Campolide sempre foi assim. Isso desde 1914, quando o restaurante A Valenciana abriu as portas ainda como uma casa de pasto, para depois crescer em tamanho e em afeto até se transformar na extensão do lar aos vizinhos de bairro e porto seguro para quem está de passagem.

Homero Videira e Salete Gonçalves são os atuais responsáveis em manter viva a chama não só da tradicional carvoaria da casa, mas de uma tradição que se confunde com a história de Campolide, iniciada há mais de um século quando um outro Homero, o Marinho Serqueira, deixou a pequena vila de São Julião e Silva, em Valença do Minho, às portas da Galícia, para ganhar a vida em Lisboa.
Desde então, muita lenha foi consumida na churrasqueira e tanta coisa mudou em Campolide, Lisboa e na antiga casa de pasto, menos o irresistível sabor de comida caseira que levou A Valenciana a figurar no Top 101 restaurantes de Lisboa, organizado pelos ImmigrantFoodies em parceria com A Mensagem de Lisboa.
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Um reconhecimento à força da tradição que tem resistido bravamente aos modismos de uma cidade multicultural e voltada ao turismo para servir “a mesma comida de sempre”, pois se tem uma coisa que não muda, nunca, é a capacidade do paladar humano em perceber quando está diante de um prato saboroso.
Deliciosa também é a trajetória d’A Valenciana, romanesca aos moldes do clássico Cem Anos de Solidão, com vários personagens e reviravoltas na trama, incluindo um incêndio que em vez de destruir tudo, fez renascer o restaurante das cinzas.
Com a força de uma Fénix.

Tradição à prova de fogo
Mas para entender bem esta história, é preciso viajar no tempo, quando a atual morada d’A Valenciana em 1914, no número 157 da Rua Marquês da Fronteira, ficava justamente… na fronteira de Lisboa, numa das portas da cidade. Sítio de passagem para viajantes, a maioria comerciantes com destino à capital para fazer negócios.
A Valenciana surge como uma casa de pasto, a denominação para o pequeno negócio misto de mercado e de comedoria, onde se poderia comprar petróleo, vinho e outros mantimentos, e uma refeição estava sempre garantida, o caldo verde para forrar o estômago e a sustância do frango no espeto da carvoaria, desde o início uma das marcas do estabelecimento.
A Valenciana também era frequentada pelos oficiais da Carris, cujo centro de rendição dos funcionários nas trocas de turnos era ali próximo, quase onde hoje estaciona o eléctrico 24, ao pé da Junta de Freguesia de Campolide. À época, apenas uma pequena salinha e um concorrido balcão e assim foi durante as primeiras décadas, até o fim da primeira metade do século passado.

A viragem começou a se dar quando os três funcionários da casa, Luís Videira, Serafim Barbosa e Silvério Amandio Baía, oriundos de Vila Nova de Cerdeira e Vale dos Paços, assumiram o negócio das mãos do fundador valenciano Homero Marinho Serqueira, em 1965. Três jovens com ambição, visão e energia para fazer crescer a pequena casa de pasto.
“Naquela época, os meninos faziam-se homens às pressas”, conta o atual Homero da casa, filho de um desses homens feitos às pressas, Luís Videira, dos três sócios iniciais aquele que teve a vida mais intrinsecamente ligada à história d’A Valenciana, eternizado com uma homenagem na casa após sua morte, em janeiro de 2025, aos 83 deles, mais de 50 deles dedicados ao restaurante.
Uma dedicação que pode ser medida, por exemplo, em metros quadrados. Nas mãos de Luís Videira, a pequena salinha, o balcão e a carvoaria expandiram-se pelo quarteirão, ocupando os espaços de outros estabelecimentos comerciais: uma loja de pronto a vestir, uma pastelaria, uma uma drogaria e duas outras casas comerciais, uma de louças e uma de ferragens.
A tenacidade de Luís Videira foi posta à prova no momento mais dramático da história da casa, em novembro de 2011, quando um incêndio destruíu o “coração” d’A Valenciana. “A carvoaria sempre foi a casa-mãe do restaurante e vê-la arder foi triste”, recorda-se Homero, que à época já trabalhava no local, onde começou ajudando o pai aos sábados, em 1998, então com 18 anos.
Em vez de demitir os funcionários da carvoaria temporariamente desativada, Luís Videira convocou-os a ajudar na reconstrução da área da churrasqueira. A promessa era voltar à atividade em três meses e assim o foi, quando em pleno Dia dos Namorados, em 14 de fevereiro de 2012, o apaixonado “coração” d’A Valenciana voltou a bater.
“Voltamos das cinzas, como a Fénix”, resume Homero.
Um retorno grandioso.
Hoje, A Valenciana é grande não só na história, mas nos números: 450 lugares na parte interna, outros 200 na esplanada, 96 funcionários e centenas de refeições diárias, preparadas na reformada carvoaria, que agora só faz arder as delícias da ementa.
O internacionalmente famoso piri piri chicken
Dentre as delícias da ementa, porém, não há discussão: o frango assado reina. E reina desde 1014, o maior reinado em Portugal, portanto. “O frango é realmente o nosso grande estandarte”, confirma Homero, sem deixar de citar outros estandartes, como a mão de vaca com grão, a dobrada, as iscas à portuguesa, os filetes e o sagrado cabrito aos domingos.
Em outras palavras, comida portuguesa em sua essência, grelhada no carvão como essencialmente se fazia há mais de um século. E sem abrir exceções. “Um dia, o responsável por uma enorme excursão com turistas perguntou se poderíamos fazer pizzas e esparguetes. Claro que negamos”, conta Salete, sobrinha de Luís Videira que praticamente nasceu n’A Valenciana.

“Nascer, não nasci, mas o meu batizado foi na inauguração do novo salão principal”, conta a agora crescida Salete, uma licenciada em marketing que trocou o estágio no departamento comercial do antigo jornal Capital para trabalhar no restaurante. “Havia falta de pessoal e era preciso ajudar. Além do mais, era jovem e já queria ganhar os meus trocos”, relembra.
O episódio envolvendo turistas, pizzas e esparguetes foi a exceção de uma relação bem resolvida da tradição d’A Valenciana com os novos lisboetas estrangeiros e os milhares de turistas hospedados nos hotéis da região que rumam até o restaurante em busca do tal estandarte da casa, agora internacionalmente famoso graças a um registo na britânica BBC.
Em 2016, o veterano chef-celebridade inglês Rick Stein publicou uma matéria na BBC convidado os súditos de todo o mundo a experimentarem the Portugal famous piri piri chicken, um vídeo inicialmente de um minuto, mas que tem durado mais uma década. “Agora, os turistas chegam às centenas, à procura do piri piri chicken do Rick”, diverte-se Salete.
E haja frango para tantos súditos e para os lisboetas de toda parte do mundo. O milagre da multiplicação dos frangos não está a cargo de um santo, mas de um “frade”, mais precisamente Manuel Frade, o churrasqueiro mais antigo da casa: começou a enfrentar o carvoeiro ainda aos 12 anos e, mais de quatro décadas depois, ainda segue responsável pelo grande estandarte.
Mais uma vitória da tradição sobre a efemeridade dos modismos, a receita de sucesso d’A Valenciana, como é tradição também saber a mesa dos clientes, do senhor engenheiro, da Dona Catarina e do senhor Ramos, a quem Salete ligou na véspera ao notar que o cliente não havia aparecido para almoçar, como religiosamente costuma fazer todos os dias.
“Pois, fui almoçar com meus filhos e esqueci-me de avisar”, justifica-se o senhor Ramos, agradecido pelo carinho e atenção de um negócio familiar não apenas por passar de geração a geração, mas por acolher a todos os clientes como parte de uma imensa família.

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