Com o telemóvel à mão, a florista mostra as orquídeas da prateleira para a senhora no outro lado da videochamada. Uma conversa em Arroios para um outro lado do mundo: quem fala com Fernanda Cruz está na Índia. O sobrinho da cliente indiana segue atento à conversa entre as duas, à espera da flor que irá levar à mãe e fazer do aniversário dela uma data ainda mais florida. Minutos depois, o sobrinho deixa a loja com uma orquídea e Fernanda abre um sorriso, certa da missão cumprida. Uma missão que abraçou oficialmente há 38 anos, quando aos 23 se tornou florista no Mercado de Arroios.
A paixão pelas flores, porém, vem praticamente do berço, desde a bucólica vila de Arganil nos arredores de Coimbra, quando então com cinco anos a pequena Fernanda passeava pela aldeia a colhê-las em arranjos coloridos.
“Quando uma pessoa escolhe uma profissão onde do outro lado há clientes, tem de honrar ao máximo esse trabalho. Tem que dar o corpo ao manifesto”, ensina Fernanda.
O corpo e, no caso da florista de Arroios, também a alma ao trabalho.
Um trabalho que Fernanda realiza sozinha, das 8 da manhã às 7 da noite, de segunda a sábado, transitando incansavelmente de um lado para o outro o exíguo espaço livre de uma loja com 27 metros quadrados. Sempre repleta de flores e plantas, a cortar, podar, regar, trocar e repor a água, além de montar dezenas de vasos e arranjos.
Uma rotina exigente, “que não aparece para o cliente”, quebrada apenas duas ou três vezes ao dia, quando se dá o direito a uma pausa e cruza a rua em direção à pastelaria defronte ao mercado para um café, mas sempre com um olho na chávena e outro na floricultura, a fim de não deixar ninguém à espera.
Um amor que começou quando a filha Fernanda, aos dez anos e já em Lisboa, foi ajudar a mãe na banca de frutas e verduras no Mercado de Arroios, mas com a cabecinha e o coraçãozinho de criança perdidamente apaixonados pelo perfume das flores.
“Ajudava a minha mãe, mas nunca desisti da ideia de trabalhar com flores. Até aos 23 anos finalmente conseguir realizar o sonho de ter uma banca de flores no mercado”, relembra Fernanda, deixando desde então para a irmã a missão de tocar o stand materno de frutas e verduras em Arroios.
Uma banca que logo se multiplicou em duas, três, quatro… em seis bancas, uma colorida fileira a quebrar a monotonia monocromática da estrutura de pedra e betão do prédio. Um império de flores já.
Foi assim até à última reforma do Mercado de Arroios, há oito anos, quando se mudou para a atual loja, com a montra para a rua.

“Nunca ninguém me perguntou se queria mudar de espaço, apenas me informaram da mudança. Mas, após esse tempo, acredito que acabou por ser melhor para mim”, reconhece.
Um novo espaço melhor não só para a florista e pelo acesso externo ao mercado, mas por manter protegida as frágeis flores das intempéries de um clima cada vez mais instável, protegida de uma súbita vaga de calor, do frio intenso, da chuva fora de hora. Alterações climáticas com impacto direto no negócio da florista. “Por esta altura, era para estar tudo semeado, mas a terra alagada pelas últimas chuvas não deixa.”
Uma instabilidade climatérica que não resistirá à chegada da Primavera, enchendo ainda mais a floricultura de Arroios de cores e perfume.
Resistir aos supermercados do bairro
Entretanto, não foi só a loja e o clima que mudaram nos últimos anos, o bairro de Arroios, segundo a florista, também não é mais o mesmo. “Às vezes, perco-me e não sei mais onde estou, se em Lisboa mesmo ou num outro lugar”, diz Fernanda, sobre a chegada dos vizinhos estrangeiros à zona mais multicultural da cidade. Uma diversidade que alterou o perfil da sua clientela, hoje composta por um número cada vez maior de ingleses, italianos e franceses.

Apesar da aterragem de novos clientes, a florista regista a dramática diminuição de pessoas a circular pelo Mercado de Arroios. Por trás disto, o suspeito de sempre: os supermercados.
“Antigamente, era quase impossível caminhar pelo mercado sem empurrar ou ser empurrado por alguém. Hoje, o cenário é esse, os corredores vazios, pois é difícil concorrer com as grandes superfícies que se instalam no rés do chão dos prédios. O vizinho desce, gasta o dinheiro que tem e o que não tem, e não sobra nada para ir ao mercado”, afirma.
Fernanda ainda se ressente da “memória curta” dos portugueses, ao esquecerem o papel fundamental dos mercados públicos durante a pandemia, há cinco anos. “Enquanto os supermercados estavam preocupados em vender papel higiénico aos mais desesperados, os comerciantes dos mercados prestavam um atendimento mais próximo das pessoas, muitas sem dinheiro para a feira, mas que não deixavam de ter uma fruta ou verdura na mesa”, recorda-se.
Até o fim de pé, como as flores
Até agora, porém, a floricultura de Fernanda tem-se mostrado à prova de supermercados. Em grande parte, pela qualidade dos produtos, preferencialmente produzidos em Portugal, embora seja praticamente impossível não recorrer à importação dos Países Baixos, o maior exportador de flores da Europa.
Há uma variável, porém, importante na equação que faz da florista sinónimo de resistência em Arroios: a criatividade.

“Antigamente, bastava juntar algumas verduras a uma rosa e, pronto, estava feito. Hoje, é preciso de um arranjo mais criativo para cativar os clientes”, ensina a florista, exibindo um vaso em formato de uma bolsa de mulher e a imagem de um arranjo do Dia dos Namorados com direito a flores acompanhadas de chocolates e um urso de peluche.
Apesar de toda dedicação, Fernanda tem notado nas pessoas uma certa perda na fé do encanto das flores.
“Antigamente, um casal passava um ano a economizar para a noiva ter o melhor bouquet, hoje parece não fazer muita questão pela qualidade e dizem: ‘Para quê gastar, se vai durar um dia só?’”, conta, sem esconder a tristeza.
Nada mais ofende a florista, porém, do que a desvalorização de um arranjo fúnebre.
“Já cheguei a ouvir aqui filhos, prestes a herdar patrimónios, a dizerem para fazer qualquer coisa, pois o pai ou a mãe estava morto e não ia ver as flores”, lembra Fernanda, sem esconder o horror.
Vivo ou morto, reforça Fernanda, o cliente da sua floricultura terá sempre a melhor versão da florista, pois fazer das flores uma lembrança afetiva, a simbologia de um carinho e amor, é para ela, mais do que um trabalho, uma vocação.

Um talento que Fernanda não passará aos herdeiros, resistentes em seguir no ofício da mãe. O negócio poderia ser repassado a um antigo funcionário, não fosse à “alergia ao trabalho” que os afasta, e assim o futuro da floricultura segue ainda incerto.
Embora Fernanda carregue a certeza de seguir na companhia de suas flores até o fim.
“Quando estiver bem velhinha, vê-se o que será. Mas seu um dia a minha floricultura terminar, morre de pé, como as flores.”

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