O cenário repete-se, quase sem exceção, pelas escolas de Lisboa. Os pais conduzem os filhos até ao local mais próximo da porta da escola e, sem espaço para acomodar o enorme afluxo de automóveis, muitos optam por estacionar em segunda fila. O trânsito para e ouve-se o rotineiro buzinão. Com os pais em stress, os filhos apressam-se para dentro dos portões. Por isso, o espaço em redor da escola representa, para muitos, um perigo. A segurança, essa, parece só existir para lá dos muros.

E se não tiver de ser assim?

O cenário em frente à Escola Básica Integrada Parque das Nações, em 2014. Vídeo: Gonçalo Peres

São vários os projetos de base comunitária em Lisboa a pedir mudança.

No Agrupamento de Escolas Manuel da Maia, em Campo de Ourique, o projeto de uma associação de arquitetura, urbanismo e participação decidiu juntar-se à comunidade escolar para transformar o espaço público junto a um dos portões da escola.

Partindo de um espaço dominado pelo asfalto e pelo estacionamento automóvel, propuseram o redesenho da rua, convidando, nos momentos de entrada e saída da escola, à permanência no espaço público, à conversa e à brincadeira . Recorrendo a intervenções de urbanismo tático, com a colocação de bancos e floreiras, conquistaram espaço aos automóveis. Depois, mediram o impacto.

Em Arroios e no Parque das Nações, pais e crianças têm projetos para fechar a rua da escola ao trânsito e criar espaços de encontro e brincadeira em frente aos portões da escola, mas aguardam, há anos, pela concretização.

Veja onde estão os projetos:

Como o espaço público pode dar mais autonomia às crianças e jovens

Pode o caminho para a escola ser vivido de forma diferente? Pode a transformação da cidade começar pelo redesenho das ruas das escolas, promovendo a ocupação do espaço por parte da comunidade escolar, transformando espaços de passagem em lugares de encontro e brincadeira?

Por cá, a dependência automóvel parece fazer da ideia algo distante – em 2023, 43,9% dos estudantes lisboetas chegava à escola de automóvel e, em 2017, um estudo levado a cabo pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge concluía que mais de 76% das crianças do 1º ciclo chegava à escola de automóvel.

É junto a este portão da Escola Básica do Parque das Nações que deverá nascer a Praça das Gaivotas, com o encerramento de parte da Rua Gaivotas em Terra à circulação automóvel. Foto: Frederico Raposo

Mas a realidade é outra em algumas escolas de cidades como Madrid, Barcelona, Londres e Paris. Europa fora, as ruas das escolas estão a sofrer uma transformação radical. O espaço em torno das instituições de ensino está a ser redesenhado. Saem de cena os carros e, no seu lugar, entram bancos e árvores… e nascem praças.

A transformação das ruas das escolas está a mostrar que outra forma de relação com a cidade é possível. E Lisboa tem mostrado que quando a mudança não surge do poder político, pode vir das pessoas.

Frederico Lopes, investigador, professor auxiliar no ISPA e presidente da recém fundada Associação Portuguesa pelo Direito a Brincar (IPA Portugal), lembra o estudo português Independência de Mobilidade das Crianças, de 2012, que pintava o quadro da realidade nacional: “nas zonas com maior grau de urbanização, havia menos hipóteses e menos oportunidades para as crianças se deslocarem de forma autónoma no espaço público”.

Frederico Lopes. Foto: Frederico Raposo

Hoje, esta realidade perdura, mas o investigador nas áreas do Jogo e Desenvolvimento Infantil e Sociologia de Infância aponta para indícios de uma mudança que está a partir das pessoas. É o caso, diz, dos comboios de bicicleta de Lisboa, uma iniciativa de base comunitária que se transformou em programa municipal e que em 2024 alterava os padrões de mobilidade de cerca de 500 crianças e jovens de 35 escolas aderentes.

Em Lisboa, há vários projetos de base comunitária a querer redesenhar o espaço em redor das escolas, rejeitando a lógica da tomada e largada de estudantes a partir do automóvel e, antes, abraçando a ideia de criar espaços de encontro diante dos estabelecimentos de ensino.

Em Campo de Ourique, a comunidade escolar conquistou espaço ao automóvel

O portão do 1º ciclo da Escola EB 2,3 Manuel da Maia, em Campo de Ourique, está numa praça dominada pelo estacionamento automóvel. Aqui, praticamente não há espaço pedonal. Dos lados, os passeios exíguos não são propícios à permanência e, nos momentos de saída dos alunos da escola, pais e tutores esperam onde conseguem, entre automóveis e no meio da rua, tendo de se afastar sempre que um carro passa.

O único lugar para sentar? Um muro que delimita o estacionamento automóvel.

O ambiente construído impacta a forma de viver a cidade. “O desenho das ruas, naquilo que são as acessibilidades junto à escola, tem que ser muito repensado. E tem que ser repensado na perspectiva de que esse desenho vai potenciar o encontro”, aponta Frederico Lopes.

A situação particular do acesso pedonal a esta escola levou à sua identificação pela associação Rés do Chão.

Margarida Marques e Inés Sebástian são arquitetas e integram a equipa da Rés do Chão, associação e ateliê de arquitetura responsável pela promoção de iniciativas de envolvimento comunitário no desenho da cidade. Aqui, propuseram-se a testar, de forma experimental, alterações no espaço público e contaram, para isso, com o apoio da comunidade escolar.

E assim, o coletivo de arquitetos candidatou a proposta à edição de 2023 do programa municipal Bip-Zip. O projeto Escola em Ligação, que contou com a parceria do Agrupamento de Escolas Manuel da Maia e da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, acabou por ser um dos 37 selecionados, beneficiando de um orçamento total de cerca de 50 mil euros para a execução do projeto na sua totalidade.

Ação de mapeamento da intervenção, através da colocação de pontos verdes e vermelhos. Foto: Rés do Chão

Com menos de um ano para terminar o projeto, a equipa arregaçou as mangas. Entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024, ouviram os alunos do 1º, 2º e 3º ciclos da Escola Manuel da Maia. Organizaram sessões de desenho colaborativo com alunos e docentes e a participação foi alargada à vizinhança da escola e às famílias dos alunos, com inquéritos online e no espaço público e ainda através de sessões de mapeamento – através de pontos verdes e vermelhos, “as pessoas indicavam os lugares de que gostavam, de que não gostavam e aqueles que queriam alterar”, explica Inés.

Os resultados do inquérito abriram caminho à experiência: 66% dos inquiridos mostram abertura para “abdicar de lugares de estacionamento para alargar passeios”, “45% acham que o espaço [atual] é inseguro e 65% pensam que colocar elementos de assombramento e proteção da chuva seria uma melhoria”, conta Inés Sebástian.

Para operar uma mudança rápida e acessível no espaço público, apostaram no urbanismo tático – isto é, a alteração do espaço público através de intervenções reversíveis, a pequena escala e de baixo custo. Foram desenhados, construídos e instalados bancos, produzidos a partir de materiais reciclados do palco de um festival em Marvila, e também floreiras. Painéis solares alimentaram pequenos sistemas de rega, acionados a partir da indicação de sensores de humidade.

Para sinalizar a conquista de espaço ao automóvel, foram feitas pinturas. O muro da escola, bem como o asfalto e espaço conquistado a três lugares de estacionamento automóvel foram preenchidos com ilustrações da artista Sara Malta, inspiradas nas ideias dos alunos. Inés Sebástian explica que desde cedo ficou estabelecida a importância de identificar, através da pintura, “que aquele é um espaço de crianças para os carros estarem atentos, porque sendo um espaço de estacionamento, há muitos carros que vão de marcha atrás”.

“Até àquele momento, não se percebia que ali havia uma entrada para uma escola”, diz.

Resultados? Mais pessoas sentadas e um lugar em que as pessoas ficam

Para não deixar dúvidas sobre o sucesso da intervenção, a equipa do projeto quis monitorizar o impacto e adotou, para isso, uma abordagem científica. “Foi um investimento que decidimos fazer, porque estamos sempre a falar de perceções”. Consideraram explica Margarida.

Instalaram sensores para contar o número de pessoas que passavam pelo espaço da intervenção, mas também o seu tempo de permanência e a sua distribuição espacial.

Para além das alterações na ocupação do espaço que os olhos iam testemunhando, procuraram o apoio objetivo e factual dos dados. “É importante tentar medir as transformações que realmente acontecem. Aqui tinha mais a ver com como é que se altera a forma como as pessoas utilizam o espaço, o tempo que estão – se estão de passagem ou se ficam em estadia.”

Inés Sebástian e Margarida Marques. Foto: Frederico Raposo

O teste com as alterações ao espaço público, que deveria ter durado três meses, teve lugar no início do ano letivo, em setembro de 2024, e durou apenas três semanas, consequência da demora na emissão de autorização por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Recolhidos os dados, foi elaborado um relatório de avaliação do projeto. Sobre o cenário anterior, o documento descrevia uma praça “entre dois blocos de prédios” e que funcionava “apenas como área de estacionamento, não oferecendo infraestruturas amigáveis para peões” e sem um passeio contínuo na entrada da escola. Sem qualquer intervenção no espaço público, no meio de carros estacionados, sobrava pouco espaço para a permanência, para a conversa, a brincadeira, ou apenas para um pai ou uma mãe que espera pela hora de saída das aulas.

Os peões eram “forçados” a caminhar pela estrada antes de alcançar “um curto troço de passeio” e descrevia-se o domínio do espaço pelo estacionamento automóvel como “subutilização do espaço como área pública”, “comprometendo a segurança e o conforto”, em especial nas horas de entrada e saída da escola.

Após intervenção, o relatório não deixou margem para dúvidas. Depois de concretizadas as mudanças físicas na rua, as pessoas passaram a permanecer mais tempo no espaço público.

Ocupação da nova área pedonal, durante o período de teste do mobiliário urbano. Foto: Rés do Chão

Outra das mudanças sublinhada foi a alteração na distribuição espacial das pessoas. Enquanto na situação anterior a espera acontecia sobretudo em frente ao portão, com a instalação do mobiliário urbano verificou-se “um aumento considerável do tempo de permanência no local onde anteriormente existiam três lugares de estacionamento”.

Para os familiares e tutores das crianças, as áreas conquistadas ao automóvel “tornaram-se pontos de encontro cruciais”. Do mesmo modo, também “a qualidade espacial da área melhorou consideravelmente, principalmente nas categorias de sentar, conforto e socialização”, com o ambiente a mostrar-se “mais convidativo e apropriado para interações prolongadas, aumentando significativamente a qualidade de vida no entorno da escola”.

Uma experiência de sucesso que ainda não fixou raízes

Quando instalaram o mobiliário urbano, a equipa do projeto sabia que se tratava de uma experiência.

Mas num bairro em que a pressão sobre a oferta de estacionamento é particularmente elevada, conquistar espaço ao automóvel, mesmo que temporariamente, não é tarefa simples.

“Quando algumas pessoas perceberam três lugares de estacionamento estava comprometidos temporariamente, e que depois do teste logo se veria, foi logo feito um abaixo-assinado por parte dos moradores”, conta Margarida Marques. A oposição de alguns moradores foi recebida pelas arquitetas com naturalidade. “Houve conversas connosco e incentivámos a que esse abaixo-assinado fosse feito, porque achamos todas as formas de reivindicação e participação relevantes e importantes. Convidámos as pessoas para uma reunião em espaço público, com a Junta de Freguesia [de Campo de Ourique]”, conta.

No final, findas as três semanas de teste, chegou o compromisso: os três lugares seriam suprimidos durante o período diurno – entre as 9 e as 19 horas -, permitindo o estacionamento de noite. Por essa razão, o mobiliário urbano que havia sido instalado para o projeto, foi removido.

Apesar do pequeno retrocesso, a instalação de um sinal vertical marca a conquista definitiva de espaço ao automóvel durante as horas de funcionamento da escola. É a marca que fica do projeto. Fica, também, o trabalho de medição do impacto da intervenção. As duas arquitetas acreditam que pode contribuir para que, neste ou noutros casos, as experiências temporárias possam transformar-se em instalações permanentes.

Porque os automóveis voltam a parar ali durante a noite, e apesar dos números atestarem o sucesso da experiência, os bancos que foram instalados na rua, no espaço conquistado ao estacionamento automóvel, tiveram de ser removidos e encontram-se agora no espaço de recreio da escola, ao serviço das brincadeiras e do descanso de crianças e jovens.

“Às vezes temos pouca consciência de que o espaço público é um espaço finito e que, portanto, é um espaço obrigatoriamente de conflito. Não no mau sentido, mas é um lugar de escolhas – estamos sempre a escolher. É um lugar, por natureza, de conflito e acho que falamos pouco sobre isso quando falamos de espaço público e da necessidade de ser um lugar de cedência, de priorização e de hierarquização”, aponta Margarida.

Praça das Gaivotas e Praça das Novas Nações: a comunidade escolar de Lisboa a redesenhar as ruas das escolas

A Praça das Novas Nações é uma ilha isolada. Rodeada por todos os lados de estacionamento e vias de circulação automóvel. No topo da praça, separada por uma estrada, está o portão da escola. Apesar de parecer óbvio, não existe uma ligação direta à praça e ali, todas as manhãs e todas as tardes, aglomeram-se no exíguo espaço de passeio, pais, crianças e tutores.

Para a comunidade escolar da Escola Básica Sampaio Garrido, há anos que o óbvio se tornou projeto comum – fazer da Praça das Novas Nações uma extensão da escola no espaço público, ligando-a diretamente à escola e interrompendo a circulação automóvel junto ao portão. A ideia, explicada à Mensagem em 2021, passava por requalificar a praça, criando um espaço que convidasse à permanência dos vizinhos e da comunidade escolar, convidando à conversa, ao encontro e à brincadeira.

Durante seis anos, e em parceria com a cooperativa de arquitetos Trabalhar com os 99%, professores e crianças trabalharam no desenho de uma proposta. O processo da comunidade resultou num projeto. Com a garantia de uma obra de custos moderados – cerca de 150 mil euros – tentaram que se tornasse realidade. Submeteram a proposta à edição de 2021 do Orçamento Participativo de Lisboa, mas a proposta acabou chumbada.

A luta não parou aí. Em 2023, numa iniciativa que juntou a associação de pais, a Junta de Freguesia de Arroios e a Câmara Municipal de Lisboa, foi implementado um projeto de urbanismo tático com o objetivo de aumentar ligeiramente o espaço público disponível, removendo o estacionamento em frente ao portão e instalando ali bancos e floreiras. A intervenção visou também o aumento da segurança rodoviária, diminuindo a largura das vias automóveis nas zonas de atravessamento pedonal. Nesta intervenção, participaram também alunos da escola, através de pinturas no chão, marcando espaço pedonal conquistado ao automóvel.

Exterior da Escola Sampaio Garrido, em Arroios, e ligação à Praça das Novas Nações.
À esquerda, em 2023. À direita, em 2024, após eliminação de estacionamento e instalação de mobiliário urbano.

Três anos depois, em 2024, é finalmente apresentado um projeto de requalificação da praça, seguindo algumas das pretensões do projeto desenhado pela comunidade local, como a ligação física da praça ao portão da escola. Desta vez, o projeto é da autoria da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de Arroios, apresentando um orçamento bastante superior à proposta comunitária de 2021.

À Mensagem, a Câmara Municipal de Lisboa explica que o projeto de requalificação do espaço público da Praça das Novas Nações está integrado no programa municipal Há Vida no Meu Bairro, que promove operações urbanísticas no âmbito do conceito da Cidade dos 15 Minutos.

Apesar de já ter sido anunciado no ano passado, não há ainda obra no terreno. A autarquia admite que “a conclusão do projeto e o processo de contratação da empreitada sofreram atrasos”, mas estima que se inicie no último trimestre deste ano, com um prazo de execução de seis meses e um valor estimado de cerca de 850 mil euros.

Na Escola Básica do Parque das Nações, a história é idêntica. Há mais de quatro anos que pais e crianças esperam pelo fim do caos das horas de início de fim de aulas.

Um grupo de pais e moradores submeteu a proposta ao Orçamento Participativo de 2021. Queriam encerrar ao trânsito automóvel uma zona junto ao portão da escola, criando uma praça – a Praça das Gaivotas – que oferecesse “um espaço público mais atrativo, sustentável e inclusivo”, protegendo quem se desloca a pé e de bicicleta para a escola.

Ao contrário do que aconteceu em Arroios, o projeto foi a votação e acabou por ser um dos vencedores.

Ricardo Marino, pai de duas crianças que há quatro anos frequentavam a escola, contava, em reportagem da Mensagem, que o caos rodoviário diariamente verificado o impedia de deixar as duas filhas de se deslocarem autonomamente para a escola.

Nas horas de “maior aperto”, “basta que chova um bocadinho” para que os carros não passem, “param dos dois lados”, explicava.

Quatro anos volvidos, conta que nada mudou. “O trânsito continua difícil nos horários de pico e muitos pais e condutores não mostram respeito pelas crianças que vão a pé para a escola”.

Vídeo carregado num grupo da freguesia do Parque das Nações no Facebook, no dia 9 de outubro.

Em dezembro de 2024, mais de três anos após ter sido apresentada a proposta, foi convocado pela CML enquanto proponente da proposta vencedora, tendo-lhe sido transmitido que a dotação orçamental para o projeto da Praça das Gaivotas havia sido aumentada e que tudo “estava alinhado” para a obra se realizar este ano.

À Mensagem, o município de Lisboa confirmou que o projeto de requalificação para ali previsto “encontra-se concluído” e que está atualmente “em preparação a contratação da empreitada”.

Para o investigador Frederico Lopes, o poder político deve manifestar “a humildade de acolher” as iniciativas de base comunitária que têm surgido em Lisboa, tanto as ligadas à defesa da mobilidade sustentável quanto as que se situam “em torno da promoção de oportunidades e contextos para as crianças brincarem”, diz.

“Essa militância de base comunitária deve ser acolhida calorosamente e de forma reconfortante pelas instâncias do poder local, porque há um capital de pensamento crítico e social muito interessante nessas iniciativas”.

Dar espaço à autonomia e à brincadeira na cidade

“Criar condições para uma mobilidade mais independente e [para] o usufruto do espaço público por parte das crianças é uma questão que eu penso que continua a ser pouco debatida”, afirma Frederico Lopes.

O investigador e “brinconauta” – isto é, defensor da brincadeira – na associação 1,2,3 Macaquinho do Xinês, considera que o espaço público próximo às escolas continua “muito preenchido por veículos motorizados privados e essa ocupação continua a colocar em risco as pessoas que já estão a optar por utilizar outras formas de deslocação e que têm, muitas vezes, que sair dos passeios para poderem chegar [ao destino]”.

Para além de colocar em risco o direito à mobilidade, à autonomia e ao acesso, aquela que considera ser a “primazia” do automóvel na cidade coloca em causa a possibilidade da brincadeira no espaço público.

Defende a criação de “zonas tampão”, pensadas “caso a caso”, junto às escolas e aponta para o que cidades como Paris têm feito.

Criadas as condições de segurança para a deslocação autónoma de jovens e crianças, Frederico Lopes afirma ser necessário ter um outro olhar sobre as ruas em redor das escolas. “No final do dia, quando as crianças saem da escola”, é preciso olhar para estas zonas como “pontos de ignição” – “sítios confortáveis, aconchegantes e reconfortantes e que tenham elementos convidativos, como o verde, para que possa gerar-se uma convivência salutar e para que as crianças possam efetivamente aproveitar aquele espaço para brincarem”.

“O espaço público pode ser uma grande oportunidade para criar essa outra possibilidade”, diz.

“Nesta discussão toda da autonomia, da independência, da mobilidade, muitas vezes o brincar continua muito refém daquilo que é o espaço e o tempo que ele deveria ter na vida da criança.”

Além de considerar necessária a redefinição das ruas próximas às escolas, o investigador não hesita em ir mais longe. “O encontro não acontece só no perímetro à volta da escola. Acontece também nesse acesso”.

Brincapé: a brincadeira como ponto único da agenda

Sandra Nascimento, diretora técnica da APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil. Foto: Lucas Lima

Outro projeto que tem vindo a transformar a relação das pessoas com o espaço público é o Brincapé, Gil!, que todos os sábados reúne famílias no recreio da Escola Secundária Gil Vicente, na freguesia da Graça, com um único objetivo: brincar. No programa, há passeios de bicicleta, patins e skate, jogos de voleibol, berlindes e ténis de mesa, saltos à corda, piqueniques e muitas outras atividades.

A iniciativa é coordenada pela APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil, em parceria com a cooperativa Bicicultura e a organização 1,2,3 Macaquinho do Xinês, com financiamento do Programa BIP/ZIP, da Câmara Municipal de Lisboa. O objetivo é promover o convívio entre vizinhos e oferecer às crianças momentos de lazer, criatividade e diversão, longe dos perigos das ruas.

Em cada sessão, o projeto recebe entre 50 e 70 pessoas de diferentes idades. “No fundo, era isso que nós queríamos: que fosse um espaço comunitário e intergeracional, que permitisse o encontro e a confiança”, explica Sandra Nascimento, diretora técnica da APSI. Segundo ela, a segurança que a escola proporciona cria um ambiente ideal para que as crianças explorem e vivam a experiência com maior liberdade.

Uma das participantes mais assíduas é a trancista Aissato So, que costuma levar os filhos José, de 8 anos, e Mariama, de 2. Recorda que muitas crianças de hoje passaram parte da infância confinadas, durante a pandemia de COVID-19, e perderam competências sociais que tiveram de desenvolver mais tarde. 

As atividades ao ar livre e em grupo, explica, ajudam a recuperar oportunidades essenciais de interação. “Eles estavam ansiosos por vir”, garante. E José confirma: a oficina de patinagem foi o que mais o entusiasmou, além da possibilidade de rever os amigos depois das férias. A mãe confessa que já evita marcar clientes aos sábados porque a ida ao Brincapé se tornou, para a família, um compromisso inadiável.

Uma presença constante no projeto é também a psicóloga Ana Pegado, mãe da pequena Adriana, de 2 anos. Conta que, na zona onde vivem, a poucos metros da escola, não há muitos espaços destinados à brincadeira. “Se estivermos noutro sítio, tenho de estar sempre a ver se ela pode andar descalça, se há vidros no chão, se está a apanhar lixo ou não. Aqui, ela pode explorar sem eu estar sempre em cima. Na rua, é impossível”, afirma.

Como se faz lá fora? Intervenções definitivas em Paris e urbanismo tático em Praga

São várias as cidades europeias com programas municipais destinados a requalificar o espaço público em redor das escolas, diminuindo a presença automóvel e criando as condições para a promoção da brincadeira, da conversa e da estadia.

Em Paris, o programa municipal Ruas das Escolas (Rue aux Écoles, em francês) já interveio em 300 ruas junto a creches e escolas do ensino básico, com a aplicação de medidas de acalmia de tráfego, e assegurou a requalificação integral de mais de cem ruas em frente a escolas, através da pedonalização total ou da instalação de obstáculos que limitam a circulação automóvel, da instalação de pavimentos confortáveis e acessíveis, da instalação de bancos e mobiliário urbano de promoção da brincadeira e da criação e alargamento de zonas verdes.

Rue de la Brèche-aux-Loups. Fonte: Ville de Paris
Rue de la Providence. Fonte: Ville de Paris

Tal como se fez em Campo de Ourique e na Praça das Novas Nações, também em Praga, capital da República Checa, iniciativas de base comunitária estão a utilizar ações de urbanismo tático, como é o caso da pintura do asfalto, para conquistar espaço ao automóvel nas ruas das escolas.

A publicação checa Ekonews, especializada em ecologia e parceira da Mensagem nesta série sobre a construção de cidades mais amigas das crianças, explica como um estreito passeio com 1,5 metros de largura e delimitado por um corrimão guarda corpos se transformou num amplo espaço pedonal, em frente a uma escola, recorrendo apenas à pintura de ilustrações no asfalto.

Em declarações ao jornal checo, no âmbito desta investigação, Vít Hofman, porta-voz da autarquia local, aponta para o urbanismo tático como forma de devolver às pessoas espaço anteriormente ocupado pelo automóvel, de forma rápida e com custos reduzidos. Na capital checa, o programa Rotas Seguras, criado em 2010, prevê a identificação dos problemas de segurança rodoviária nas ruas de duas a três escolas por ano. Mas, depois de identificados os problemas, nem sempre a solução chega rapidamente.

À semelhança daquilo que tem acontecido em Lisboa, também em Praga a iniciativa política tarda em seguir a vontade dos cidadãos e em dar seguimento aos projetos de base comunitária.

Para Blanka Klimešová, coordenadora de projetos na Pěšky městém, associação de defesa do peão de Praga, as ações de urbanismo tático podem ser um primeiro passo para oferecer mais segurança junto às escolas. Contudo, diz, “não devem ser a solução final, mas apenas um teste para avaliar as possibilidades”.


*Nota de edição 30 de outubro, 17h07
Corrigido lapso na apresentação dos resultados relativos à duração da permanência no espaço público no antes e no pós intervenção de urbanismo tático. Onde antes se lia o tempo de estadia ‘aumentou de 308 minutos para 378 minutos’, lê-se ‘308 segundos para 378 segundos’.



Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

frederico.raposo@amensagem.pt

Maíra Streit

*Nascida na Amazónia brasileira, Maíra Streit tem uma vida comprida para os seus 36 anos. Ao transgredir as próprias fronteiras, encontrou no jornalismo um território para a liberdade. Cultiva a sede de desvendar o mundo através do olhar do outro e tem um especial interesse por tudo o que acontece à margem das narrativas. Mergulha sempre que pode na cobertura dos direitos humanos porque sabe que, às vezes, é preciso partir-se para continuar inteira. More by Maíra Streit

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