A fila é grande e estende-se pelo passeio sob a sombra dos plátanos. É verão em Lisboa e a cena não é nova. Pelo contrário: já é tradição em Alvalade, onde há 77 anos a loja mais antiga da Avenida da Igreja, a gelataria Conchanata, resiste ao passar do tempo e ao fechar de portas dos comércios tradicionais com uma receita tão antiga quanto secreta.

Uma receita que, entre outros ingredientes, mistura leite, açúcar, história e suor. 

É assim desde que o italiano Quintilho Tarlattini abriu o pequeno comércio, em 1948, apostando no novo bairro que se erguia em Lisboa para além do Marquês e da Almirante Reis, alterando a paisagem de uma zona antes tomada pelas quintas e lagares, o verde do pasto que deu vez ao cinza das ruas de betão, onde agora em vez de hortas e pomares, cresciam prédios.

Aos poucos, o novo bairro lisboeta, Alvalade, ganhava aspeto de cidade grande. Mas ainda mantinha um certo ar bucólico com rebanhos de ovelhas a circular entre os poucos automóveis nas ruas e o verde das plantações nos confins do território.

Um cenário pacífico que remontava à pequena vila de Limano, incrustada no topo da cadeia rochosa dos Apeninos, na Toscana italiana.

Foi de lá que Quintilho, o Quinto, partiu no início da década 1940 a fugir da guerra, os Tarlattini a seguirem os passos de outras famílias italianas – como os Sala da igualmente tradicional gelataria Veneziana, que aportaram em Lisboa em busca de paz para retribuir o acolhimento lisboeta com o frescor dos gelados italianos. Uma troca mais do que justa.

Quinto traria o filho Alfo, a segunda geração dos Tarlattini e da Conchanata em Lisboa e que, ao lado da esposa Lisete, daria luz em 1967 a Michele, o primeiro lisboeta do clã e que hoje tem nas mãos, nos músculos e no coração a missão de manter uma tradição de família que há oito décadas refresca o verão dos lisboetas.

Esquerda – Conchanata antiga (Foto: Arnaldo, Madureira | Arquivo Municipal de Lisboa) | Direita – Conchanata hoje (Foto: Líbia Florentino)

“Isso aqui dá trabalho”, reforça Michele – ou Miguel como é conhecido por entre os vizinhos de Alvalade na sua versão em português. Di-lo enquanto gira a imensa colher de madeira na enorme padela de alumínio, na minúscula cozinha com cerca de nove metros quadrados, o cockpit da gelataria onde leite, açúcar e frutas transformam-se em sonho.

Um trabalho diário e contínuo durante décadas dividido com a agora ex-esposa Nini – ainda em atividade na loja – e que, aos poucos, começa a ser repassado aos filhos do casal, Lorenzo e Letizia, de 30 e 27 anos. Por enquanto, herdaram apenas as horas de trabalho na apertada cozinha ou em pé por trás do balcão.

Pois entre os Tarlattini o esforço e a dedicação aos gelados vem antes de qualquer coisa.

A receita por trás destes gelados

Uma regra que Michele conhece desde pequeno. Aos oito anos de idade, já circulava por entre as duas dezenas de mesas que outrora espalhavam-se pelo passeio da Avenida da Igreja até ao pé da agência bancária na esquina com a Acácio de Paiva. Servia copos de água aos clientes em troca de umas moedas.

“Gelado dá sede”, ensina Michele, piscando o olho.

Por trás do balcão da gelataria, com a imensa colher e o gelado recém-fabricado. “Vivo para isso”. Foto: Líbia Florentino.

Este e outros segredos dos gelados foi assim que Michele aprendeu, na pedagogia da prática. O empirismo é a marca de um negócio onde até hoje as receitas não foram registadas em tinta em papel, mas repassadas oralmente entre pais e filhos, como os contos de fadas onde as crianças são seduzidas por casas com as paredes e telhados feitos de guloseimas.

As receitas de boca em boca atravessam gerações como os próprios gelados. 

O sentido prático norteia a vida de Michele, sem tempo a perder com pormenores como centilitros de leite e colheres de açúcar. Muito menos com datas. Em julho, fez anos, mas sem saber a própria idade – se 57 ou 59 anos -, teve de recorrer à antiga companheira, Nini, para, após uma matemática familiar, descobrir que nem um nem outro. Completara mesmo 58 anos. 

Saber quantos gelados são vendidos diariamente, portanto, é uma tarefa impossível.

“Não sei quanto, só sei que faço toneladas de gelado”, desconversa Michele.

Se não for tanto, deve estar perto: durante o verão, não é raro vê-lo enfurnar-se na minúscula cozinha por dez, 12 e até 20 horas por dia. Por vezes, a saída é dormir ali mesmo, no chão, entre as panelas.

Afinal, a longa fila de clientes à porta precisa de ser atendida.

A resiliência de Michele é uma marca de famiglia. Enquanto não era trazido pelo pai Quinto para Lisboa, o ainda adolescente Alfo foi obrigado a esconder-se dos alemães nas cavernas da cordilheira onde viviam. “Não cansava de contar esta história”, adianta-se Nini, a guardiã das memórias da família. Um dia, porém, Alfo saiu do esconderijo em busca do gato que fugira.

“Então, Alfo foi avistado por um soldado alemão”, segue Nini, “que disparou”. O silêncio toma conta da cozinha, como se estivéssemos todos dentro da caverna. A bala, porém, tinha como mira o felino e trespassou os dedos do jovem Alfo. O gato sobreviveu, mas o registo do sadismo nazi permaneceu sob a forma de uma cicatriz e uma ligeira limitação motora na mão.

A mão alvejada pelos alemães nunca foi empecilho para o filho ajudar o pai Quinto a construir a fama da gelataria que nascia em Alvalade e transportou caixas de suprimentos, mexeu a colher no gelado a surgir no calor do fogo, equilibrou bandejas e o filho Michele ainda bebé no colo, os Tarlattini homens duros, resilientes, mas de bom coração.

Assim é Michele. Ao primeiro contato, a impressão é a de que anos e anos a trabalhar com açúcar não fizeram dele necessariamente um doce de pessoa. Mas, como dizem os italianos, pode ser apenas finta – fingimento. O cenho franzido e o ar de impaciência são um escudo. Por trás de camadas tão espessas como as rochas dos Apeninos, esconde-se simpatia e generosidade.

Os vizinhos na Avenida da Igreja sabem disso. Principalmente os mais antigos. Apesar da sinceridade às vezes em demasia e de uma certa teimosia, o “Miguel da Conchanata” acaba por ser reconhecido pela dedicação ao negócio mais antigo e famoso da via.

“Eu vivo para isto”, resume o gelateiro.

Foto: Líbia Florentino.

A Conchanata, afinal, não é Conchanata

“Viver para isso”, viver para os gelados, traduz-se em viver enfurnado na pequena cozinha da gelataria ou, na melhor das hipóteses, chegar lá de madrugada e sair apenas na madrugada seguinte por meses a fio.

Os poucos minutos de pausa são passados no telemóvel, a passear pelas fotografias e vídeos das últimas férias, em Limane. 

As idas à Itália são uma tradição, uma pausa de inverno, entre dezembro e início de fevereiro, quando a gelataria fecha as portas após a extenuante rotina de verão. Primeiro, dava-se com a família toda, mas os meninos cresceram e têm outros interesses e Nini agora é a ex-companheira. Michele, então, viajou sozinho, de carro, de Lisboa até a Toscana.

O telemóvel mostra a bem conservada casa com três pisos no alto dos Apeninos, a vista das janelas cercada por montanhas e o verde de florestas. Uma cozinha de pedras e tijolos aparece, depois a imagem de Michele sentado à mesa de madeira, uma selfie tirada por ele da solitária ceia de natal. Mas as idílicas férias nos alpes não foram só de solidão. 

Há fotos da pequena vila, de alguns prédios. Entre eles o do café local onde Michele e meia-dúzia de amigos se reúnem para a conversa, um bife, um vinho tinto de boutique talvez de um vinhedo ali perto, em Bagni di Lucca, além dos vídeos da ceia de ano-novo, seguido de um tímido pipocar de fogos de artifício, suficiente apenas para espantar os animais no estábulo. 

Surge no ecrã, então, o pequeno cemitério com modestas lápides brancas e cabisbaixos anjos tristes, o sítio do repouso eterno em Limane do avô Quinto e do pai Alfo. Passada a quadra, na companhia de poucos amigos e dos entes que partiram, o vídeo de volta na autoestrada em neblina algures em França para, 30 horas depois, Michele regressar a Lisboa. 

Voltar para a vida entre os gelados.

A conversa na pequena cozinha estende-se para lá dos 15, 30 minutos prometidos. Michele parece não se importar. Embora, lá fora, a fila não dê tréguas.

As constantes alterações urbanísticas de Lisboa levaram as 20 mesas do passeio. Restou apenas o pequeno cercado limitando a duas dezenas de cadeiras, onde os clientes se apertam felizes.

A austeridade da burocracia quase levou também a parreira plantada pelo avô Quinto, enroscada ao letreiro da Conchanata, e que assim como Michele repousa durante o inverno para florescer num esplendoroso verde na primavera. O argumento para a poda era questões de segurança, mas Michele deu luta e preservou a história em forma de uva.

História que eternizou a famosa gelataria com um nome que talvez muitos não saibam ou poucos tenham notado – não é o oficial. Na pequena moldura na parede, ainda com o nome e assinatura do patriarca Quintilho, surge a denominação oficial, Gelados Itália.

Conchanata, na verdade, é um nome-fantasia, nascido de um gelado que, para fazer jus, sabe a fantasia, servida tradicionalmente numa taça “concha”.

A ideia e a receita foram da matriarca Lisete, mãe de Michele, braço-direito do pai Alfo, assim como Nini é hoje a do filho, apesar de tudo. Ao todo, foram mais de cinco décadas por trás do balcão da gelataria, tempo e experiência suficiente para Lisete sugerir e ver aprovado pelo então marido e por milhares e milhares de clientes desde então, o novo gelado.

“Uma taça, três bolas do sabor à escolha, uma quarta de nata no topo, cobertas por calda de morango”, ensina Nini, sob o olhar atento de Michele. A forma de preparo da Conchanata, o próprio nome inventado, também criado pela cabeça da mama Lisete, uma palavra que não existe em português nem em italiano – onde seria lido algo como “concanata”.

O sucesso da torre de bolinhas com calda de morango foi tão grande que a Gelados Itália acabou por virar para sempre Conchanata. Michele não se importa com esse detalhe, como também provavelmente não se importaria o pai Alfo e o avô Quinto. O importante é a tradição que se mantém, cada vez mais, nas mãos da quarta geração dos Tarlattini.

Gelados Itália é o nome oficial da gelataria, que ficou conhecida como Conchanata graças a um gelado especial. Foto: Líbia Florentino.

A entrevista termina pois Michele tem de voltar à imensa colher de madeira, à imensa panela de alumínio. A fila segue extensa, a perder de vista, sinal de que o serão também será igualmente extenso e talvez o gelateiro tenha de alongar as horas-extraordinárias e, quem sabe, outra vez dormir no chão da pequena cozinha. 

Até quando seguirá a rotina pesada de trabalho? Quem sabe, nem mesmo o próprio Michele. “Até aguentar”, aposta, fazendo girar a imensa colher na massa compacta, para em seguida repetir a frase que poderia ser o slogan da Conchanata: “Eu vivo pra isto”.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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2 Comments

  1. Curioso, de 1980 a 1982, tive um colega na Escola Pedro de Santarém a quem tratavamos pelo apelido, justamente Tarlattini, que contava que a família tinha vindo para Portugal por causa da guerra.

  2. Aos Astorianos da velha Astoria e ao Álvaro Filho informo de que as raízes do avô Tarlattine também se deslocaram para a margem sul mais especificamente na Costa da Caparica ao pé do C. C. Pescador peçam uma conchanata e fechem os olhos enquanto se satisfazem nos vários e deliciosos sabores quando acabarem abram os olhos estão deliciados mas não em Alvalade

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