
Começaram em 2009, com o nome de “Istambul Eats” e eram apenas um blog online focado na comida da cidade turca. No ano seguinte, o projeto galgou fronteiras e mudou para o nome que ficou até hoje: Culinary Backstreets. Um projeto que aproveita as facilidades de conexão online para pôr as pessoas a fazer tours de comida pelas cidades do mundo.
Nunca deixaram o digital. Usam-no como ferramenta para preparar as visitas, o Google Maps para mostrar onde se encontram os restaurantes de cada visita, e para publicar artigos sobre cada cidade, escritos por jornalistas locais. Estão já em 17 cidades, como Lisboa.
Por cá, uma das visitas mais requisitadas é a “Post-Colonial Fest” (Banquete Pós-Colonial), mas existem outras três na cidade: uma virada para o peixe e marisco, em Alcântara, outra que passa na Mouraria e na Graça e a última em Campo de Ourique.

Célia Pedroso, jornalista local e coordenadora do projeto em Lisboa, faz a visita num dia de maio, num bairro de Arroios que é um perfeito “backstreet”, cheio de segredos para serem contados. As ruas desta freguesia são do mundo inteiro e há histórias que vão sendo contadas, neste caso, através da comida.
A utilização do Google Maps permite aos participantes terem uma visão total do que vão encontrar, com a vantagem de que cada paragem tem também associada a história desse restaurante, colocada online:


Vamos ao Brasil, cruzamos o oceano para Cabo Verde e Angola, Goa e acabamos a provar um pouco de São Tomé e Príncipe. Neste percurso, quatro norte-americanas – Eleanor e Camille de São Francisco, Naïké de Washington, D.C. e Adiya, de Nova Iorque – fazem seis paragens em seis horas de muitos sabores e uma busca informal pelo melhor molho picante. No final, ninguém consegue eleger o favorito.
Do mundo para a mesa
Com marcações feitas online, de forma muito simples – a um preço que ronda os 140 euros e inclui toda a comida consumida -, os grupos não têm mais do que sete pessoas, o que permite, segundo Célia, “decorar os nomes e por toda a gente a falar numa mesa”. Ainda segundo Célia, é raro “ter um grupo só de mulheres, para mais na mesma faixa etária”. O que não é tão raro é serem todas americanas. “Há muitos americanos a participarem nestas visitas até porque conhecem pouco a cozinha portuguesa e por isso têm mais curiosidade.”
A visita começa num pequeno supermercado, mesmo ao lado do mercado de Arroios. Fica no número 5A da Rua Carlos Mardel, o Brasil Tropical, focado em produtos, como o nome anuncia, do Brasil: erva-mate Barão, rosquinhas Mabel, goiabada da Val, café Pilão. Aqui prevê-se que os visitantes provem o famoso pão de queijo, o biscoito Romeu e Julieta – que leva queijo parmesão e goiabada – e a pamonha doce, que têm para take-away.
Célia tira da mala um mapa desenhado num individual de papel numa tour passada. Foi um participante anterior, que até trabalhava no Google Maps, e que achou útil desenhar um mapa à mão para ajudar a Célia a explicar as antigas rotas comerciais de Portugal, que acabaram a ligar todos os países dos restaurantes desta visita e as comidas que eles servem. Para as turistas, não tão familiarizadas com estes países, o mapa foi motivo de muita atenção. Até para perceberem a distância que separa cada um destes sítios.
Por exemplo, no Fox Coffee, serve-se o prato nacional de Cabo Verde, a cachupa, sendo até o restaurante mais conhecido por “Rei da Cachupa”. Contudo, ao explicar as rotas comerciais de Portugal, usando o mapa, Célia também faz uma nota especial: não se sabe ao certo qual dos pratos surgiu primeiro, a cachupa em Cabo Verde ou a feijoada no Brasil. Pensa-se que um deve ter influenciado o outro, só não se sabe ao certo qual.
O espanto foi enorme.

Tony, alcunha de António, nome que lhe foi dado por ter nascido no dia de Santo António, é o dono do restaurante e o cozinheiro. Nasceu em Lisboa há 49 anos, é filho de pais cabo-verdianos, mas nunca pisou Cabo Verde. Abriu o espaço em setembro de 2019 e, um pouco por pressão dos amigos e familiares, acabou por ceder e começou a fazer cachupa.
Não se deixa ficar pela clássica: ali há também cachupa de polvo, atum e até vegan — tudo criações do próprio. Depois de provar a cachupa clássica e uma cachupa refogada – feita com os sabores apurados da catchupa do dia anterior –, ninguém é capaz de torcer o nariz às ideias de Tony.
Tony também já percebeu a importância do digital na sua vida e na vida do seu negócio. É que estas cachupas especiais não estão sempre disponíveis: “Não consigo ter todos os dias. O polvo demora muito tempo a cozer. Mas quando tenho, faço um vídeo para o Instagram e começam logo a cair chamadas e mensagens para marcar mesa”, conta.
Quando foi convidado para incluir o Fox Coffee na visita guiada da Culinary Backstreets, Tony aceitou automaticamente: “Claro que aceitei, logo. Eu quero divulgar o meu negócio, sim, mas acima de tudo quero que a gastronomia cabo-verdiana vá mais longe. Passam por cá muitos turistas afro-descendentes que querem conhecer a comida de África, especialmente os americanos. Eles adoram, mas levam-me o picante todo!”
É verdade: naquele dia, três das turistas levaram pequenos frascos com o molho picante caseiro do Tony, um deles teve de ir sem tampa. Já não restavam mais frascos na cozinha de Tony.

De Cabo Verde para Goa, no mesmo bairro, e história da mesma colonização. No Sabores de Goa, um senhor mete conversa com o grupo, em português, que é traduzido por Célia: “Come-se muito bem aqui! Mas não digam que é comida indiana, não tem nada a ver!”
As traduções faziam todas rir.
Estas visitas estão sempre preparadas, e a mesa está posta para receber as turistas com vontade de serem locais. As suas fotografias que tiram sem cessar hão de acabar no Instagram, com o #culinarybackstreets, e juntar-se aos milhares que a organização promove. Mas a relação com os participantes não começa e acaba nas vistas: a Culinary Backstreets envia newsletters semanais onde vão partilhando experiências de cada canto do mundo onde atuam. Assim, as pessoas que os seguem podem começar logo a planear a próxima viagem.
“Nós promovemos os passeios através de publicidade digital, mas, numa extensão maior, publicamos ativamente materiais nas redes sociais. Coisas que os viajantes desejam saber antes de visitar as cidades em que trabalhamos. Esperamos que isso os ajude a prepararem-se para a viagem e a começar a interagir connosco. Se os nossos passeios forem o que procuram para a viagem deles, tornamos a reserva acessível,” diz Ansel Mullins, co-criador da Culinary Backstreets.

Mapas: do digital para o papel
Célia, novamente com a ajuda do mapa de papel, explica a influência que Portugal teve na comida goesa. Além das malaguetas, um dos pratos goeses é até a adaptação, por assim dizer, de um prato bastante conhecido: carne de vinha d’alho, em Goa o vindaloo.
Sérgio Gracias, dono da casa há 25 anos, apresenta os restantes pratos: Sanas, um pão feito com farinha de arroz e côco, cozido a banho maria; bojés, que são fritos de cebola e grão; balchão de camarão; bebinca, um doce em camadas que leva mais de 24 horas a ser feito; e doce de grão.

Naquele dia, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, estava a chegar a Lisboa para uma visita oficial. Este acabou por ser também um tema de conversa ao longo da visita, pois todas as televisões em todos os restaurantes estavam a passar o mesmo, em canais diferentes. O Sabores de Goa estava a passar a transmissão da CNN Portugal com um painel de quatro comentadores que não conseguíamos ouvir. A meio do almoço, uma das participantes olha para a televisão, que estava mesmo por cima da mesa, e diz: “Oh! Aquele não era o senhor que estava lá fora?” — E era.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
