Pela linha Verde ou Vermelha do metro de Lisboa rumo à estação Alameda, basta andar 300 metros à esquerda da Fonte Luminosa e lá está ele, o Cantinho Romeno, um café e restaurante que faz jus ao nome. Quando abre as portas, às 11h, se é recebido pelo cheiro de alho, carne a chiar e um leve toque de endro – uma erva aromática conhecida da culinária romena. No fundo do café, vemos Delia Bodo a cozinhar e espreitar, sem imaginar as voltas que a vida dela já deu para aqui chegar – e como este espaço começou com um acaso.

Das prateleiras cheias de potes de zacuscă, um patê de legumes defumado feito principalmente com berinjela assada e pimentões vermelhos, até às bandejas de mici, rolinhos de carne moída feitos com uma mistura de carne de vaca e porco, o Cantinho Romeno não é apenas um café. O número 119 da Rua Carlos Mardel, no Areeiro, é um ponto de encontro onde os romenos em Lisboa vêm para se sentirem um pouco mais perto de casa.

Delia tem 48 anos e é uma entre os milhares de romenos que vieram para Portugal no início dos anos 2000. Parte de uma onda migratória que seguiu a transformação pós-comunista da Roménia e que se intensificou após o país entrar na União Europeia em 2007. Muitos foram atraídos pela economia mais estável de Portugal e pela oportunidade de trabalhar em setores como construção civil, hotelaria e trabalho doméstico.

Delia trabalhava na Roménia como professora de biologia: mudança para Lisboa representou também uma mudança de vida: Foto: Andreea Soare.

Em 2011, dados registavam cerca de 40 mil cidadãos romenos a viver em Portugal. Desde então, o número teve uma leve queda. Segundo o Portal Diplomático, plataforma oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a comunidade romena hoje em Portugal conta com cerca de 30 mil cidadãos.

Ainda assim, é um crescimento significativo comparado aos 375 romenos que viviam em Portugal anteriormente. Os romenos espalharam-se pela Europa após a Revolução de 1989, e hoje estão em lares, cozinhas, canteiros de obras e pequenos negócios como o da Delia.

Veio pela primeira vez a Lisboa em 2001, de férias. “O meu pai e meu irmão moravam aqui, então, não precisei de pagar hospedagem. Eu teria gasto o mesmo indo para a praia na Roménia, então escolhi vir para Lisboa”, conta Delia. Ela que não se apaixonou pela cidade à primeira vista, mas decidiu ficar, pois a oportunidade de ganhar mais dinheiro do que em casa era atraente. Na Roménia, trabalhava como professora de biologia numa escola e, depois, como técnica de laboratório na cidade de Satu Mare.

Um ano passou e ela já tinha certeza de que não voltaria.

Lisboa foi conquistando-a aos poucos: o ritmo de vida, o transporte que lhe parecia até confiável, o calor humano. No começo, trabalhou sem contrato, pois não tinha visto. Com o tempo, passando por empregos em restaurantes e limpeza de casas, e com o apoio de um grupo unido de colegas de Angola, Portugal e Reino Unido, Delia construiu uma vida ali.

Os seus primeiros empregos em Lisboa não tinham nada a ver com saúde. Começou em restaurantes, não por paixão pela culinária, mas pela energia do lugar. “Tinha movimento. O dia passava e nem me percebia”, diz ela. Foi também onde conheceu o marido, um romeno que trabalhava como cozinheiro. Mesmo sem falar perfeitamente português ou inglês na época, Delia conectou-se com os colegas. “Nós ouvíamo-nos, ajudávamos uns aos outros.”

O acaso que transformou uma mercearia de bairro

A loja em si nem sempre fez parte do plano. Anos atrás, outro casal romeno do bairro mantinha uma mercearia pequena logo acima da rua, nada mais que um “cantinho”. Quando decidiram voltar para a Roménia, convidaram Delia e o marido para jantar e fizeram uma proposta inesperada: “Vocês querem ficar com o negócio?”

Na época, Delia dividia o tempo entre turnos em restaurantes, serviços de limpeza, cuidava da filha e estava grávida de outra. Eles aceitaram, e logo encontraram um espaço novo e melhor: um antigo armazém, desocupado há anos, pelo qual ela costumava passar durante passeios com o carrinho de bebé. Quando finalmente foram ver o lugar, descobriram uma cozinha escondida nos fundos, com prateleiras de pedra ainda intactas.

“O momento parecia certo, o local fazia sentido. Era perto de casa, da escola, do transporte público”, explica Delia.

Cantinho Romeno: a única loja romena em Lisboa. Foto: Andrea Soare.

E assim abriram o Cantinho Romeno que todos conhecem hoje, há dez anos.

Nunca foi pensado para ser um restaurante, mas num quente 1.º de maio decidiram comemorar o Dia do Trabalhador e testar aquela cozinha. “Tínhamos muitos vizinhos romenos, então avisamos que íamos grelhar mici. Veio tanta gente que não conseguimos parar de grelhar o dia inteiro”, lembra Delia. “Foi assim que começamos”.

O logotipo também surgiu naquela época. “É para representar os mosteiros e igrejas da Roménia. Mas também pode parecer as presas do Drácula”, explica.

Desde então, Delia cozinha alguns pratos romenos por semana, uma sopa e um prato principal, com mais opções nos fins de semana. Ciorbă de burtă (sopa de dobradinha) é uma das favoritas e por isso é feita com frequência. Os mici e a mămăligă com brânză estão sempre disponíveis.

Aos domingos, no entanto, a loja fecha para que Delia possa ficar com a família. Durante a semana, o cenário é diferente: às vezes, as filhas passam por lá depois da escola, fazem os deveres de casa numa mesa nos fundos, enquanto Delia atende os clientes e cuida da sopa.

Delia cozinha alguns pratos romenos por semana, uma sopa e um prato principal. Foto: Andreea Soare.

Com o tempo, este espaço tornou-se não só uma parte importante da vida dela, mas parte de si mesma. “É como um terceiro filho”, diz ela, emocionada. Pensaram em vender para ter mais tempo livre, mas Delia não conseguiu. Os clientes também se apegaram. Nunca saem com apenas uma coisa na mão, mesmo quando esse era o plano.

Observá-los faz lembrar a criança de cinco anos empolgada em comprar o máximo de coisas possíveis, mesmo que a mãe só tenha dito que precisa de slănină (gordura de porco curada). “Vou querer também o patê. Aliás, dá-me um pouco de telemea (queijo romeno parecido com feta) e parizer (tipo de mortadela romena) também. Isso vai combinar bem com uma mămăligă, vou levar fubá também.” Depois, decidem levar mais cerveja, sumo, salsichas… e ainda pensam como tudo vai combinar com um pouco de cebola. “Uma verdadeira refeição romena.”

Também há portugueses por aqui. Delia diz que não por curiosidade, mas porque querem comer de novo depois de uma viagem à Roménia. “Tive um casal que procurava sarmale só porque a empregada deles era romena e cozinhava comida tradicional. Eu queria que mais portugueses experimentassem.”

Para a comunidade romena de Lisboa, a loja é mais do que um lugar para comprar comida. É um lugar para ver rostos familiares, falar a sua língua e tornar a saudade mais suportável. Foi assim que um cliente descreveu o Cantinho Romeno numa mensagem de agradecimento a Delia.

Mesmo cercada por produtos romenos que ajudam os seus clientes a sentirem-se em casa, para Delia, o maior desafio ainda é a saudade do seu próprio lar. “Voltamos todos os anos e, a cada vez, visitamos uma parte diferente da Roménia para mostrar às crianças”, conta. “Os meus pais estão lá, os meus dois irmãos, sobrinhos e sobrinhas. É lá que recarrego as energias”.

Para uma pequena loja escondida num canto tranquilo de Lisboa, o Cantinho Romeno carrega mais do que prateleiras de produtos importados. “Trabalhamos muito, mas parece que estávamos no lugar certo, na hora certa”, diz Delia.

*Editado por Álvaro Filho


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