O drible curto, o remate forte. A bola raspa a baliza e salta para fora do relvado, não em direção à bancada, mas à movimentada Avenida Almirante Reis, onde o peão no passeio, fato, gravata e pasta de executivo à mão, trava a trajetória do balão com os pés, devolvendo-o à partida, para alívio dos jogadores no campo improvisado. Em pleno Jardim da Alameda.

Há mais de uma década tem sido assim: apesar de oficialmente não haver registos de um estádio de futebol no Areeiro, para um grupo de futebolistas amadores o “campo da Alameda”, ao lado de Alvalade, da Luz, do Restelo, da Tapadinha e do Oriental em Marvila, é um dos palcos da bola em Lisboa.

E que, em breve, pode ver nascer mais uma equipa lisboeta: o Alameda Futebol Clube.

Ahmed Kaba (de branco), misto de central e técnico da equipa, na primeira fotografia “oficial” do Alameda FC. Foto: Rita Ansone.

Este pelo menos é o sonho dos cerca de 20 imigrantes, na sua maioria oriundos da Guiné-Bissau e Guiné-Conacri, mas também de Gâmbia, Mali e Senegal, que todas as sextas-feiras e sábado tiram o fato das obras e da indústria para vestir a camisola, o meião e as chuteiras, transformando o Jardim D. Afonso Henriques num relvado improvisado.

Trabalhadores que por dois dias na semana trocam o exigente trabalho braçal pela arte com os pés, driblando a marcação nem sempre leal da realidade de imigrante para correr atrás da bola, atrás de um sonho, deixando os pontapés das incertezas para trás, rumo à efémera alegria de um golo e aos sonho de uma vida melhor.

Uma equipa sem adeptos nem aplausos, acostumada a jogar contra as probabilidades e também, no caso destes jogadores, a jogar contra a gravidade. É que o “relvado” num dos lados do jardim da Alameda é inclinado. Por isso, este é um futebol que desafia as leis da Física.

Alverca, Arsenal ou… Alameda?

“No início, a inclinação do relvado estranha-se, mas logo depois acostuma-se”, garante o médio Jorge Baptista, 25 anos, um guineense que há 15 anos frequenta o futebol na Alameda, inicialmente contrariando as ordens do pai. “Ele queria que me dedicasse ao futebol profissional”, lembra Jorge, formado nas canteiras do recém-promovido à I Liga, Alverca.

Jorge Baptista chegou a viajar até Londres para fazer um teste no Arsenal, que não aconteceu por causa da pandemia. Foto: Rita Ansone.

A marcação cerrada do pai era para que o filho não perdesse de vista os estudos. Mas Jorge Baptista teve sempre em mira o futebol profissional. O hoje “artilheiro da Alameda” por pouco não terá chegado a realizar o sonho de todos os meninos que correm atrás de uma bola. 

Conta que, em 2020, aos 20 anos, rumou para a Inglaterra e esteve perto de assinar um contrato profissional com um gigante europeu, o Arsenal. Não fosse um adversário impossível de driblar: o destino, diz.

“Havia uma proposta mais concreta na Suíça, mas resolvi arriscar o Arsenal. Mas quando cheguei, no dia marcado para o teste, começou o lockdown [confinamento] por causa da pandemia. Meses depois, a oportunidade já tinha ficado para trás”, recorda o médio.

Tem hoje 25 anos.

O balneário improvisado no campo da Alameda, ao ar livre e sobre as grelhas de ventilação do metro. Foto: Rita Ansone.

O sonho perdido não impede Jorge Baptista de se apresentar como um futebolista profissional, mesmo que no estádio da Alameda o “balneário” seja ao ar livre, improvisado sobre uma das árvores a ladear o jardim, sobre as gretas de ventilação do metro, o que no inverno garante o aquecimento na troca das roupas.

Jorge Baptista é um dos entusiastas em transformar o jogo entre amadores na Alameda em mais um clube de futebol lisboeta. Ao lado dos também guineenses Balde Abdul e Ahmed Kaba, conseguiram motivar o restante elenco para começar a disputar jogos amigáveis.

Vitória no primeiro amigável

E, assim, o primeiro amigável da história do futuro Alameda Futebol Clube ocorreu em meados de abril contra o Mirantense de Santa Engrácia, atual último colocado da terceira divisão do Distrital de Lisboa, que por sua vez é a quinta divisão do futebol português. Ou seja, no futebol português não há como uma equipa descer mais.

Mas, no futebol, isso não tem a mínima importância.

Tanto que, no fim do primeiro tempo, o Mirantense vencia por 2-0. Parte das dificuldades do Alameda FC estava no campo do adversário, o Parque Victor Peralta, não pelas dimensões ou qualidade do relvado, mas por uma “particularidade” que foge ao inclinado campo de treino na Fonte Luminosa: era horizontal.

Misto de central e treinador, Ahmed Kaba diz que a inclinação no campo da Alameda acostumou os jogadores a uma velocidade diferente do jogo no relvado horizontal. “No campo normal, a bola corre mais. Porém, com o decorrer do jogo nos adaptamos”, explicou Ahmed. A ambientação ao terreno sem declives ajudou no placar, que virou para 3-5, selando a primeira vitória da história do Alameda FC.

Aos 25 anos, assim como o colega Jorge Baptista, Ahmed Kaba tem experiência prévia no futebol profissional, como jogador nas categorias de iniciante no Dijon, em França, onde vivia antes de se mudar para Portugal. Nos treinos na Alameda, é Ahmed quem organiza o posicionamento dos demais atletas, ao mesmo tempo que defende uma das balizas.

Balizas que não são daquelas oficiais, com 7,32 metros de largura por 2,44 metros de altura. Estas são bem menores, com cerca de um metro quadrado. Se tanto. Balizas portáteis. E é Ahmed quem tem a missão de a cada treino montá-las, desmontá-las, levá-las para casa para assim trazê-las no próximo encontro. 

Apesar das dimensões diminutas, a chegada das balizas foi bastante celebrada, compradas no início do ano com o dinheiro angariado entre os jogadores. “Até então, a marcação da área do golo era feita com sacos plásticos, destes de supermercados”, explica Ahmed Kaba.

As novas balizas substituem os antigos sacos nas metas: vaquinha para manter o sonho de criar uma nova equipa. Foto: Rita Ansone.

As pequenas balizas, porém, são outro entrave para além do campo inclinado. Afinal, impede a existência de um guarda-redes. E assim, no primeiro amigável da história do futuro Alameda Futebol Clube, quem defendeu a baliza alamedense foi um amigo em comum dos jogadores. “Tivemos de encontrar um guarda-redes por empréstimo”, contou Ahmed.

Bolas atropeladas na Almirante Reis

As novas balizas são mais um passo no caminho para criar uma nova equipa de futebol em Lisboa. Antes, ainda através de uma “vaquinha” entre os atletas, foram adquiridos os coletes desportivos que servem para separar as equipas em duas nos treinos no Jardim da Alameda.

O próximo investimento será um conjunto de bolas novas.

Junior Abdul: “A Alameda é a nossa casa, nós amamos este lugar”. Foto: Rita Ansone.

Por enquanto, os jogadores da Alameda só contam com uma, o que pode ser um grande problema quando a bola é rematada para fora dos limites do jardim em direção à Almirante Reis.

“De vez em quando, uma bola é atropelada por um carro e explode”, conta o também guineense Junior Abdul, 25 anos.

Quando isso acontece, há duas alternativas, a mais radical é cancelar o treino. “Já aconteceu uma vez com menos de dez minutos de jogo”, continua Junior Abdul. A segunda opção é recorrer a uma bola reserva. “Ligamos para algum amigo e ele traz uma bola”, conta.

Outra dificuldade, essa um pouco mais complicada de ser driblada, é a imigração. Assim como acontece com o Benfica ou Sporting, os jogadores do futuro Alameda FC também costumam deixar Portugal em busca de melhores oportunidades profissionais noutros países. Mesmo que não seja no futebol.

Os que ficam continuam a jogar no campo inclinado, sempre às sextas e sábados ao fim da tarde, sem abandonar a meta de criar uma nova equipa de futebol em Lisboa. A falta de recursos continua um obstáculo, mas nada que demova os jogadores de continuar a sonhar, inclusive, com um patrocinador que pudesse dar o pontapé inicial do projeto.

Com ou sem dinheiro, o nome da equipa é uma unanimidade: Alameda Futebol Clube.

“A Alameda é a nossa casa, nós amamos este lugar”, diz Júnior Abdul, enquanto usa os dedos da mão num potente assobio, avisando a um peão na calçada para que gentilmente agarre a bola, antes de ela ganhar a Almirante Reis e ser atropelada por um carro.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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