Aquele foi um dia de trabalho e lucro dobrado para as chamadas mercearias e lojas “dos indianos” e “dos chineses”. Embora os indianos, paquistaneses, nepaleses, bengalis e chineses no seu interior, muitos sem dominar o português, pouco ou nada soubessem do motivo para a enorme fila que se formava à frente da porta e por que tantos clientes estavam à procura de produtos inusitados, como rádios a pilhas – a única alternativa de informação num dia de colapso da internet e onde assistir à televisão era praticamente impossível pela falta de energia elétrica. O motivo: um apagão que desligou Portugal da ficha, na segunda-feira, 28 de abril.
Sem energia elétrica para encerrar as imensas portas de ferro, em Arroios, os funcionários das lojas das grandes superfícies empilharam carrinhos de compra para impedir a entrada dos clientes. Já a poucos metros dali, na Rua Morais Soares, as portas das pequenas mercearias e lojas geridas por imigrantes seguiram abertas até ao limite do possível.
Perseguidos pelo discurso da extrema-direita e tantas vezes criticados pelos vizinhos, foram os imigrantes de origem hindustânica a manterem as portas dos pequenos comércios abertas durante as horas em que Lisboa apagou por completo, garantindo o abastecimento dos lisboetas à procura de mantimentos não perecíveis e itens de segurança.





No pequeno comércio que ainda sustenta o letreiro do antigo negócio, Euro 1, Inderjeet Singh, o vendedor vindo de Punjab, ficou surpreso tanto com o fim súbito da energia elétrica quanto com o exponencial aumento do movimento, num dia onde as bolachas, água e baterias desapareceram das prateleiras. Mas não só. “Vendemos 16 dos 20 rádios que tínhamos em stock.” Foram 12 rádios de bolso e quatro de mesa.
Mais à frente, numa outra loja, o indiano Hardeep também ficou surpreso pela “big sale” de rádios num só dia, 15 deles, e do campeão de vendas: os carregadores portáteis para telemóveis – ao todo, foram vendidos 20 powerbanks.
A rotina foi praticamente a mesma nas outras lojas do género em Lisboa, sem que houvesse tempo para os vendedores perceberem muito bem o motivo para a procura por rádios.

Na rua do Benformoso, os rádios portáteis foram o item de maior procura nas lojas. Até então, o moçambicano Vinit Bhagvandas estava acostumado a vender um ou dois rádios por mês aos “velhotes” da Mouraria.
“Só hoje, vendi 18 rádios, a maioria para os jovens”, atesta Vinit, em bom português, o que lhe permitiu saber o motivo da procura pelo aparelho vintage: “Disseram que estavam ansiosos para ouvirem o noticiário para saber o que estava acontecendo no país”.
Entre os modelos à venda na loja, um rádio duplamente útil, alimentado ao mesmo tempo por baterias e energia solar.

No Areeiro, sem a opção das grandes superfícies no Campo Pequeno e na Avenida de Roma, foi dia de fila à porta do tradicional Anjani. “Sem luz, tivemos de limitar a entrada a um cliente por vez, pois a loja estava escura”, explicou a vendedora Hetal.
Segundo Hetal, os clientes estavam à procura de produtos que faziam parte do kit de emergência amplamente divulgado pelas autoridades europeias. “Muita gente estava a pensar que o apagão ia demorar muito mais tempo para passar”, contou a vendedora.
“Pensei que era guerra”
Em Alvalade, a mercearia do bengali Babou Khan faturou o dobro de um dia normal, quando o negócio concentra-se normalmente na venda de bebidas e tabaco. Com cinco supermercados num raio de 500 metros sem funcionar – dois Continentes, dois Pingo Doce e um Lidl – o pequeno negócio de Babou foi praticamente a única alternativa entre as avenidas de Roma e do Rio de Janeiro.
Resultado: no início da tarde já não havia água, ovos, leite, manteiga nem feijão, salsicha, sardinha e atum em conserva. Velas, baterias, fósforos e isqueiros também tiveram grande saída.
A procura foi tão grande que, em vez de fechar as portas mais cedo, a loja só fechou uma hora mais tarde, às 23h, quando a energia tinha sido estabelecida em parte do bairro.
Com o grande movimento, Babou não teve tempo de saber muito bem o que estava acontecendo.
“No início, pensei que era a guerra, algo a ver com a Rússia”, disse Babou Khan, “só depois, um cliente português me disse que tinha a ver com a falta de energia em Espanha”.
Em Arroios, um dos bairros mais multiculturais de Lisboa, a falta de informação levou um grande contingente de moradores à rua, em busca de informação. Muitos comerciantes disseram nunca terem visto tantas pessoas a circularem pela região da Morais Soares.
O indiano Pajinder Kumar era uma delas. Também Pajinder, funcionário da Ali Baba Kebab Hous, durante horas temeu que o apagão fosse o início de uma invasão russa. Há 4 anos em Portugal e ainda sem falar português, o desespero só terminou por volta das 23h30, quando a energia elétrica e a internet voltaram em Amadora, onde Pajinder vive.
O alívio veio através dos familiares que estavam na Índia, para quem ligou para saber o que acontecia em… Portugal. “Eles não sabiam do apagão por aqui”, disse Pajinder, mas também não tinham ouvido falar de nenhuma ameaça de invasão russa em Portugal.
O medo também fechou portas
A oportunidade de fazer um bom negócio num dia atípico, porém, não foi o motivo suficiente para algumas lojas geridas por imigrantes abrirem as portas. Ainda na Rua Morais Soares, a tradicional mercearia Pali Baba encerrou as atividades um pouco após às 14h, apesar do grande movimento. Estavam preocupados com a segurança.
Sem energia elétrica e o sistema de câmeras de vigilância a funcionar, o proprietário desistiu de manter a loja aberta.

“Estava muita confusão aqui dentro e achei melhor fechar, pois não conseguia evitar os vários furtos”, disse o comerciante, que não se identificou.
Logo adiante, na loja de artigos brasileiros Made in Brazil, assim que a luz desapareceu os funcionários foram orientados a fecharem as portas. “Tinha gente na frente da montra dizendo eu tenho dinheiro para comprar, mas mesmo assim não voltamos a abrir”, contou a funcionária Marta Correia.
Marta Correia foi um dos comerciantes da região surpreendidos com o grande número de pessoas nas ruas, a maioria desnorteadas, sem saber o que se passava com a falta de luz. “Tinha um povo dizendo que era o início da guerra”, conta.
O risco de uma eventual guerra, entretanto, não foi o motivo para a loja encerrar as portas e deixar na mão os imigrantes brasileiros em busca de garantir o cabaz de segurança tradicional brasileiro, que inclui entre os itens básicos também farinha de mandioca, cuscuz de milho e massa para tapioca.
“Para além de não ser possível a faturação, o abre e fecha das arcas poderia comprometer a refrigeração e a qualidade dos produtos”, explica a gerente da loja, Rozana Pinto.
O fator primordial para o fecho, porém, tem a ver com um problema que tem sem notificado na zona, a falta de segurança.

“Já fomos assaltados algumas vezes e ficamos com medo de saques”, diz Rozana. Isto é, “assaltos”.
Do outro lado da rua, um comércio tradicional na região, o talho Luso Francês conheceu um dia nada tradicional, quando o principal produto vendido deixou de ser a carne de vaca, frango ou porco.
“Vendemos mais sardinhas e atum em conserva. Os clientes estavam receosos em levar os frescos pois sem energia em casa poderiam estragar”, diz o talhante Paulo Vinícius.
Na segunda-feira do apagão, o talho teve o movimento reduzido em um terço do normal e funcionou até por volta das 16h, quando a bateria da balança finalmente terminou.
“Falámos até em comprar uma balança mecânica, mas não levamos a ideia adiante”, conta o talhante, no resumo de um dia em Lisboa onde entre a ameaça de desabastecimento e de uma invasão russa, os imigrantes, pequenos comerciantes e a tecnologia analógica garantiram a segurança, o abastecimento e a informação dos lisboetas.


Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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No alto de Campolide foi idêntico. Apenas os imigrantes tinham portas abertas. Um deles funcionou à porta fechada para poder controlar os clientes. Eu apenas necessitava de fruta e deparei-me com filas enormes de pessoas que compravam um pouco de tudo. Pesavam em balanças mecânicas e faziam a conta no telemovel que também serviu para se poder pagar com cartão multibanco. Não senti necessidade do rádio porque o telemóvel tem FM Radio que funcionou perfeitamente. Fiquei desiludida com a falta do famoso ‘desenrascanço’ português que levou os supermercados a fechar portas para no dia seguinte deitarem comida fora. Espero que tenhamos todos aprendido algo com esta experiencia.