Os azulejos do metro de Alvalade, o pontiagudo teto da igreja em São João de Brito, o entrelaçado dos cobogós na escadaria do edifício na Avenida de Roma, os tons pastéis dos prédios na Avenida de Paris. O curto trajeto entre Alvalade e Areeiro, observando os pormenores das suas arquiteturas, inspirou uma dupla de designers brasileiras a criar uma coleção de acessórios.

A partir de agora, além de passear pelas ruas e avenidas, será possível “vestir” Alvalade e Areeiro onde quer que se vá.

A coleção de pequenas obras de arte cristalizadas em coloridos brincos e lenços passam a fazer parte do acervo de acessórios de moda da loja Uma Volta em Lisboa, inaugurada em novembro de 2024, também ela uma reluzente pérola ao pé do metro de Alvalade, na Avenida da Igreja, ocupando o espaço onde antes estava um tradicional quiosque de jornal. 

Mariana é uma das criadores da nova coleção de brincos, inspirada nos bairros de Alvalade e Areeiro. Foto: Líbia Florentino.

A loja-quiosque pertence às designers Marina Borba e Amanda Braga, amigas “desde o tempo da faculdade”, no início dos anos 2000, ainda no Recife. Amizade que conheceu o distanciamento provocado pelas voltas que o mundo dá, as mesmas voltas do mundo responsáveis pela Volta em Lisboa de Marina e Amanda, duas décadas depois.

As duas amigas decidiram unir forças para montar o próprio negócio.

Em direto do Brasil, onde busca novos materiais, Amanda reforça o poder da arquitetura como fonte de inspiração. Foto: Líbia Florentino.

Marina tem 42 anos e vive em Lisboa há quase uma década. A ideia de usar um tradicional quiosque como ponto de vendas de acessórios de moda veio da experiência vivida com o marido, Manuel Mendonça, em gerir uma galeria de arte, a Nova Banca. Aproveitou a estrutura de um antigo quiosque inativo na Avenida de Roma, vizinho à livraria Barata.

Para isso, conta com a expertise da amiga Amanda. Atualmente a viver em Madrid, durante 13 anos Amanda geriu uma das mais famosas marcas de moda do Recife, a Trocando em Miúdos, onde chegou a ter 20 funcionários – desativada em 2018 quando Amanda foi morar com a família nos EUA.

O bichinho do designer, porém, já a tinha contaminado de vez. 

“Saí do Brasil, mas nunca consegui sair da linha de produção de peças de acessórios e jóias”, brinca Amanda, 39 anos, que retomou o contacto com Marina em 2023 ao assinar ilustrações expostas na galeria de arte no quiosque da avenida de Roma. O reatar da amizade foi o primeiro passo para o nascimento da Uma Volta em Lisboa.

Uma volta que inspiraria a nova coleção do quiosque.

A arquitetura como inspiração

Em novembro de 2024, Amanda deixou Madrid e veio até Lisboa para inaugurar com a amiga o negócio entre as duas. Durante as tardes, cumpriam o percurso entre o novo quiosque em Alvalade e o quiosque da Nova Banca, na avenida de Roma. Foi da contemplação nessa “volta” por Lisboa que nasceu a ideia de uma coleção inspirada na arquitetura dos dois bairros.

“A arquitetura sempre foi um norte importante no meu trabalho. Ainda no Brasil, concebi uma coleção inspirada nas curvas dos projetos de grandes arquitetos brasileiros, como o Oscar Niemeyer”, conta Amanda.

A volta pela Lisboa de Alvalade e do Areeiro fisgou a designer brasileira, principalmente por achá-la diferente da arquitetura que estava habituada em Madrid. 

Amanda passou então a registar no telemóvel o que via pela frente, desde a padronagem do vestido de uma mulher no mural de azulejos em uma das saídas do metro de Alvalade, mas também detalhes nas fachadas dos edifícios, alguns quase imperceptíveis, como o acabamento em caracol no parapeito da varanda de um prédio no Areeiro.

Um mosaico de formas e cores que, adicionado ao traço arrojado das duas designers e aos tons mais vibrantes dos trópicos, acabou por dar vida à coleção composta por brincos em acrílico e lenços em tecido que exibem nos detalhes um pedacinho de Alvalade e do Areeiro. Tudo através das lentes do olhar brasileiro.

Espelho meu, espelho meu

No front-office do quiosque em Alvalade, Marina é quem tem travado um contacto mais próximo com as clientes de Alvalade e vizinhança. Contraria o senso comum de um bairro considerado conservador nos seus costumes, modos e modas, ao dizer que a receção aos brincos, colares e lenços vibrantes tem sido boa.

“Tem sido tudo maravilhoso. Havia uma certa expectativa de as peças inicialmente chocarem um bocadinho pelas cores e formas, de não caírem do gosto das portuguesas, mas tem sido o contrário”, atesta Marina.

Marina tem usado a motivação como inspiração: “Costumo dizer às clientes, vai, desafia-te!”. Foto: Líbia Florentino.

Mulheres maduras e independentes, “na casa dos 50 anos”, que param um minutinho, atrasam um compromisso importante, para postar-se em frente ao quiosque no passeio e se permitem experimentar sem temores, em público, os brincos, colares e lenços, diante do espelho.

“No início, pode existir uma certa hesitação, daí eu costumo dizer: ‘vá em frente, desafie-se!‘”, diverte-se Marina.

Da videochamada em direto do Brasil, onde busca matéria-prima para as próximas peças, a amiga vibra com o percurso do trabalho. “Fiquei surpresa com a aceitação do público português”, diz, sem esconder a alegria.

A surpresa remonta ao tempo em que Amanda viveu em Portugal, em 2007, durante um ano de estudos num doutoramento em designer de moda.

“Naquela época, as mulheres portuguesas pareciam mais afeitas aos tons pasteis e ao preto. Havia uma expectativa de como receberiam os tons mais fortes, intensos, as cores num estilo mais litoral e tem sido fantástico”, confessa Amanda.

A nova coleção dedicada aos bairros de Alvalade e Areeiro está à venda no quiosque-loja de Uma Volta em Lisboa. Lançada na primavera, para condizer com as cores de Alvalade e Areeiro por esta altura do ano. 


Imagem do avatar

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

2 Comments

  1. Mensagem de Lisboa
    Sr. Álvaro Filho
    Li hoje A Mensagem, costumo ler o seu artigo e neste último, publicado no dia 11.04.2025, sobre

    ‘Cidade, Agora é possível “vestir” Alvalade e Areeiro: a obra de duas designers brasileiras apaixonadas por Lisboa.

    Acho que deverá esclarecer-se a parte que às tantas refere – designer de moda na Universidade Beira-Interior, em Guimarães:

    1-Creio que a Universidade da Beira Interior localiza-se na Covilhã
    2-Em Guimarães existe a Universidade do Minho
    3-Afinal que entidade frequentou e onde?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *