Resolvi chamar-lhe Gorongosa por ela ser tão ampla, bela e cheia de cor. Mais pirosa do que eu não há. Paciência, que isto é uma história de vida entre dois países, o que faz com que seja de amor e desamor.
Nasci em 1990. Vivi a vida toda sem saber que a encontraria e vi-a pela primeira vez em 1498, tinha eu 29 anos de idade e 355 de existência. Nesses tempos, eu falava na Europa com voz grossa, certa de que o mundo se ia abrir para mim. Lancei-me à água, em busca dela. Deu-me uma tontura no Cabo das Tormentas, mas eu tinha a certeza de que viria coisa boa, e lancei-me aos remos com esperança. Com a ajuda do vento, cheguei à foz do rio dos Bons Sinais, em Zambeze. O sol ardia e eu precisava de água doce. Ela chegou-se a mim, a mais bela da província de Nampula, envolta em linho branco, com um copo cheio de ar. Quando a vi, tive a certeza: mulher tão de terra tinha de ter qualquer coisa de imortal. À volta, as outras envergavam jóias, e ela de pescoço e punhos despidos – jóia já ela era desde antes de nascer. E disse-me qualquer coisa numa língua que não entendi, mas que me sabia a pimenta e a canela. Dali segui para a Índia só para poder comprar tecidos que lhe fosse arrancar da pele.
Com cobre e ouro vindos de África, enchi-me de anil e cravos, e pus-me ante ela, e ante escravos, com as mãos cheias de marfim. O rei ordenou-a minha, mas, vindo do Oriente, outro rei roubou-ma durante um tempo que me sabia a mais que a vida: não voltei a vê-la antes de 1762. Deambulei a sós, com a memória a bater como um martelo. Cansada de tantas horas no mar, dei por mim em Quelimane, sempre em busca do sussurro dos seus passos. Ainda me lembro do pasmo: ela mais velha, com a pele mais de sal, e o cabelo a fazer de cachoeira. O meu rei dera-ma outra vez. Sorriu-me e disse, agora em português: “Finalmente, meu amor.” Agora que a língua nos unia, tínhamos mil histórias à frente, e por isso deixei cair Gorongosa e passei a chamar-lhe Xerazade. Dei-lhe a mão e puxei-a para ver África comigo, e então vi Moçambique através dos olhos dela. Num dia, matámos leões. Noutro, montámos elefantes. Durante noites, sob o céu estrelado, alimentámo-nos de búfalos, inhacosos e impalas, e só por sorte – porque ela me puxou – não me afoguei no Lago Urema. Sobreviver foi tê-la a agarrar-me à vida.
Durante anos – décadas –, fomos isto. Parecia que a minha língua começara a comer a dela – sempre que ela falava, era a minha voz que eu ouvia. Dormíamos em cima do capim, montávamos ungulados – até num rinoceronte andei – e à noite era o susto de uma coisa que dura muito tempo. Bem me lembro daquela noite, já chegadas à Beira – estávamos a caminho de Maputo –, em que até os seus olhos se abriram num sorriso. Alguém piava entre galhos e ela dizia-me assim (ouça-se a voz dela): “Adoro pássaros nocturnos.”
E pássaro nocturno era ela – até voava. Pegou nas asas brancas – asas que um anjo me deu –, bateu-as, levou-me ao céu. Lá planámos sobre a savana, e cada minuto era feito de coração e de cinco ou seis décadas seguidas. Tanto tempo muda a vida, e uma vez ou outra dei por mim a cair desamparada. Meio à toa, ela buscava. Ao longe, eu respondia: “Estou aqui.” E ela voltava a pegar em mim ao colo.
Parámos finalmente em Inhambane: a terra verde, o mar azul, e nós as duas. O que nos valia era a vida a vingar-se: tantos dias passados a sós, e agora tantas noites para a desforra. Voáramos tanto – ela sempre a bater asas –, que já só queríamos terra. Décadas inteiras sempre a olhar para o céu. A noite era quente, e ela mais quente ainda, com aquela pele de mulher que sabe a chuva fresca. Eu nem sabia se era para suar, se para tremer. Sob as palmeiras, ela agarrava-me a mão, dizia”Vamos” e eu ia porque os meus passos eram dela.
Chateámo-nos em 1961 e ela garantiu-me que ia cada uma à sua vida. Não aceitei e discutimos a guerra colonial inteira. Ela farta de tudo, até de mim. Insistia até em mudar o nome à guerra. Às tantas, já era um desvario de porrada e mais nada. Como as forças militares se sublevaram à monarquia, sublevava-se ela à república da metrópole. Eu descartada por arrasto. Ainda me lembro de a ouvir gritar em Inharrime: “Percebes o que eu digo? Percebes o que eu digo?” Eu disse-lhe que não, mas ela garantiu que sim: “Percebes, porque insististe tanto que agora eu falo português.” Ela já nem sabia pensar em xitsonga, cisena, echuwabo, cinyanja, shimakonde ou outra coisa. Tudo lhe roubei por um amor maior do que eu: queria olhar para ela e ver-me inteira lá dentro. E depois de Gorongosa e Xerazade tive de inventar-lhe um nome a puxar para o lusitano. Antes de ir embora, chamei-lhe Maria David. Ela nem sequer me respondeu.
De coração desfeito, já arrependida, rumei a Maputo a pé. Sem ela, não tinha anjo nem asas, mas em nenhum momento a esqueci. Nos cuidados precários entre os lençóis, enquanto ardia de febre e de malária, e depois de outra coisa qualquer, as compressas de água contra a testa tentavam devolver-me à vida só para eu poder viver para ela. Ela, chegada a Manjacaze, espreitava-me ao longe da janela, e claro que conseguia dar comigo. Ela sabia que não podíamos ser terra queimada.
Curei-me e ela lá se fartou de estar sem mim. Andei com os pés descalços sobre a terra e ela correu desde o Xai-Xai. Ao encontrarmo-nos em Maputo, em 1974, toda a nossa história parecia de outras vidas. Ela mais velha, mais solta, mais livre – agora livre de mim. Talvez eu tenha sido um peso enquanto ela voava em cima de África, com a minha pele branca em cima da sua pele salgada. Vimo-nos a dois passos da baía de Maputo. Ela disse-me “Meu amor?” e eu disse “Estou aqui”. Fora muita distância para tão pouco a acontecer – ou Terra demasiado pequena para o tanto que havia para viver. Ninguém perdeu mais tempo a olhar para o passado.
Amámo-nos nos três anos seguintes enquanto, à nossa volta, se empilhavam tijolos e se construíam casas e se ia buscar água às fontes. E nós só carne entre o chão e o céu sem nuvens. Quando chovia, e era a cântaros, nadávamos entre a terra acabada de inundar. Mas pouco depois a vida pôs-se a estragar planos e ela foi Sarabi, eu Mufasa, que o susto do amor é mesmo assim: acabei em carne morta num desfiladeiro ante milhares de gnus desesperados. Foi a mais bela metáfora para uma paixão a dar errado: eu desfeita por ela não querer nada comigo. A paixão estava morta, voltei, agora de avião, para Lisboa. Estava pronta para passar 480 anos a ver luto no espelho: às vezes, demora-se mais a cansar a paixão do que a vivê-la. Eu tinha de assumir – engolir e pronto – que a nossa história de amantes era a história de amantes acabados. E foram quase cinquenta anos de silêncio. A voz dela a faltar – me nos ouvidos sabia-me a deserto na garganta. Mas lá vivi.
E então cansei-me de estar a viver sem ela. Voltei a Maputo para fazer de nós uma história escrita num papel. Ei-la aqui em bruto. E vi-a novamente no dia em que cheguei: ela, que, com os seus 526 anos, tinha 34 como eu, eu que já ia nos 881 de existência. Longe iam os tempos das libelinhas, das girafas, das minhas mãos em carne crua, da savana. Agora a vida era outra coisa. Voltei a vê-la – e que coisa bela – num cruzamento perto do Jardim dos Namorados. Assim que nos apanhámos, sorrimos: ela certa de que eu tinha sobrevivido, eu certa de que poderia viver para ela. Desta vez, voara eu, e voara de novo para a ver envolta em linho a oferecer-me um canteiro de água doce – ou uma mão cheia de ar para respirar. Os meus lábios gretados de sol e então a água fresca da voz dela: “Estou aqui.” Eu ofereci lhe o que podia: a minha mão para a ajudar a subir um muro esburacado da Vila Algarve, onde tínhamos discutido mais de dez anos na esperança de um só dia, os meus lábios ante o azul acinzentado da água quente da baía. Eu já tinha navegado aquelas águas, e longe iam os anos em que navegara nela. Ouvíamos tiros ao longe, misturados com o bater das ondas, e eu quis dar-lhe a mão ao perceber que ela, que tão bem conhecia o chão, não sabia por onde ir. Tinha havido sempre tanta guerra – e nós éramos gente a fazer-se passar por carne. E carne fomos e mais nada: pela primeira vez, fora da terra; pela primeira vez, sem nos deitarmos no matope; pela primeira vez, sem reis que me mandassem e leis que a obrigassem. Agora não havia contexto a decidir-nos o destino. O sol punha-se finalmente e eu, que bebera tanto, estava transformada em sede. Na Europa e no mundo, já eu tinha perdido decibéis. Num sussurro, perguntei- lhe “Queres?” e ela respondeu “Maningue”. Não soube o que quis dizer, mas li nos olhos dela que sim queria muito sim sim sim muito assim sem vírgulas e tudo.
Esta crónica resulta de uma residência literária feita em Moçambique, organizada e financiada por uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Centro Camões de Maputo.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

O que dizer?… temos Poeta. Ou Poetisa? A Ana Bárbara é tudo isto. Obrigada.