Isto vi eu, sem que soubessem de mim. Estávamos em Maputo e no meio do caos havia caos. Um país em chamas (via-se, aliás, o fumo dos pneus que ardiam por todas as entradas da periferia para o centro), um coração a arder, outro gelado. Ela chamava-se Tchazane, ele não sei, mas, só por ironia máxima, vai ser o Amado. Ela morava em Maputo, ele em Luanda. Tinham-se conhecido numa cena qualquer na África do Sul. Ela foi ter com ele a Angola uma vez e agora Maputo era a prova dos 9. Aquilo correu tão mal que no final deu -3.
Enfim, ele aterrou, ela foi buscá-lo ao aeroporto, seguiram para casa dela, em Polana Cimento. Naquele dia, chovia que era uma coisa doida, por isso a primeira imagem de Maputo foi a de uma cidade comida pela água, de um céu em fúria. Era essa fúria toda que ele via da janela do quarto, com vista para a baía que tinha sabor de tragédia. Nessa noite, ela cantou para ele ao piano, e aquele som de anjo preenchia o quarto, sabia a perigo. Só se ele fosse um asno é que não entenderia que ela era perigosa como um crime, mas todos os apaixonados são abaixo de jumento.
Ainda por cima, cheirava a terra molhada à volta, e ela cheirava a uma mistura entre perfume fresco e sopa quente. Aquele cheiro de quem põe o cobertor por cima antes de espetar a faca. Com ela à frente, ele – desgraçado – não teve a frieza de entender que uma mulher daquelas só podia ser passado. Que só o ia agarrar quando lhe sobrasse a mão. Mas que esperava o tonto, uma chuva de amor todos os dias, um concerto privado a cada sábado depois de gastar o corpo? Que se lixe. Foi aquilo, foi mágico e foi bom. Inocente, ele ainda lhe disse: “Não percebo nada deste tipo de música, mas soa a perigo.” As colunas boas, o céu zangado lá fora, e a voz de anjo que tem de ter mão de Circe.
Estiveram uma semana nisto e não foi mau. A seguir, ela resolveu que afinal queria outra vida. Ele apanhado por ela, sabendo que depois dela nenhuma outra ia ter chance. E ela a dizer-lhe, com a silhueta dos seus caracóis contra a janela, e o céu de Maputo aos berros lá fora, que eram incompatíveis e não falavam a mesma língua. Pensara em todas as formas de aquilo dar errado: discussões aos gritos, viagens de avião à noite, dinheiro desperdiçado em milhas, ele muito mais quieto do que os amigos dela, que ia dizer o Edu?, que ia achar a Tassiana?, e se ele a envergonhasse não gostando dos quadros da Aissa? Ele pensara em todas as formas de aquilo dar certo: Verões nas Filipinas e os olhos de tal forma apanhados que até um bairro esquelético em frente à baía de Maputo lhes pareciam Punta Cana, um homem e uma mulher no Jardim dos Namorados, dois corações a bater ao mesmo tempo e enfim dois amantes à Chagall, a olhar, em vez de um para o outro, na mesma direcção.
Mesmo depois de ela ter dito “não, não, não”, ele continuou a sonhá-la, viciado estava em sentir. Perder a razão passou a norma e, feito fantasma, o Amado lá se viu a andar por aí sem razão nenhuma, só com emoção a arder por dentro. Sem dó, e a duas semanas do voo para Luanda, ela disse-lhe que era melhor que procurasse um hotel, que estava visto que tinha de ir cada um para seu lado. Ele foi como um frango a quem se desse um pontapé e viu Maputo cada vez mais desolada. A cidade esgotava-se na ausência da Tchazane. Maputo era ela. Para ela, Maputo era muita coisa, e ele apenas um homem. Teve o desplante de sair uns dias para a praia, deixando-o a torturar-se com as possibilidades sabe-se lá de quê, só para desanuviar. E ele ficou como um invólucro a tentar dar sentido às ruas.
Passaram uns dias. Ele cada vez mais seco. Nesses dias, fez ginástica com a semântica a ver se a vida passava a significar outra coisa. Inventou esquemas, à romântico. Simulou hipóteses, à largado. Não lhe serviu de nada, mas nada lhe apagava a voz dela a cantar, enchendo a divisão, a casa, a cidade, o país, África, o mundo, a Via Láctea, a vida. Talvez ela conseguisse ultrapassar aquilo, ver a luz – ver que podiam ser luz –, talvez fizessem umas cedências aqui e ali, uns cortes ali e aqui, até que houvesse um encaixe. Não lhe era fácil perder aquelas mãos cheias de bondade, a voz que era um sussurro, a alegria que ela trazia sempre que passava por uma porta, mudando o ar à volta. Era-lhe impossível pensar em perder aqueles gestos que – perdoe-se a piroseira – eram calor no coração. Ela continuava a não o querer, mas ele já só pensava com a caixa torácica. A cabeça bem lhe dizia “Não faças isso, Amado”, mas a cabeça que se lixe quando se está apaixonado. Ao telefone com os amigos de Luanda, enquanto deambulava como um drogado pelo Parquinho, sem saber onde ir ou onde estar, ditava a sua sentença: “Eu sei que devia estar quieto, eu sei que não devia dizer nada, eu sei que devia esquecer, mas não vou fazer nada disso. Nenhum argumento sobrevive à vontade da Tchazane.” Porque a Tchazane era emoção pura, e ele era emoção pura por ela. Não há lógica que compita com o sangue a aquecer na veia. Arranjava esquemas que o safassem, simples como miectomias septais. Doía-lhe a vida toda e não se percebia se era caso de ben-u-ron ou de uma lobotomia radical.
Enfim, lá voltou ela. Uma semana na praia e a pele mais morena. E estava leve, bonita. Tinham passado sete dias (ele a trepar pelas paredes do 33, o prédio mais alto de Maputo, e a querer atirar-se lá de cima), mas dava ideia de terem sido quatro anos ou cinco. Parecia que, naquelas horas, ele tinha deixado de existir. Encontraram-se em frente ao Piri Piri, ela com o ar de quem via um velho amigo de quem já nem sabia o nome. Percebia-se que nem lhe apetecia estar ali, aquela pose era um favor. Estavam os dois na esplanada, pediram rissóis de camarão. “São dos melhores de Maputo”, dissera ela, mas chegaram crus à mesa. O que valia era que não estavam ali para comer. Ele, com os pés nas mãos, tentou persuadi-la, já sem sedução, intuindo logo que a coisa ia dar para o torto, chocado com o desplante com que ela o esquecera tão depressa – assustado por ter virado pó. Sugeriu um passo atrás, sugeriu que se entendessem, que matassem pela raiz qualquer equívoco. Ela indiferença pura. Ele com mais um argumento ou dois. Ela no seu português de vogais abertas: não, não, não. Ele abananado, com a rejeição a bater-lhe em cheio. No fundo, ele até sabia que não, não era estúpido nenhum, mas a frustração de expectativas come o que há à volta. Ela chamou um Yango, voltou a sós para casa, e ele ficou ali como um deserto em frente a rissóis crus. Ele todo areia, e uma só planta rija a sair do chão: era aquele amor que não tinha para onde ir. À volta, só via Maputo, e já se sabe como é: Maputo é ela.
Foi a pé para o hotel. De repente, já nem pessoa era, só plano furado. A voz dela a ecoar-lhe nos ouvidos era pior do que um martelo: “Tu pensas demais, nem pessoa és, só pensamento.” E ele, que se sentia cada vez menos humano, um escaravelho atirado ao chão, já nem sabia para onde voltar a vida. Já nem contava como sendo assim ou assado ou assadinho, só como não tendo tal e tal e tal, como sendo absoluto inconveniente, como não sendo bom para ela, e no meio disto fritava da cabeça, explodia dos neurónios, mandava a prudência ao charco, vilipendiava-se e ao mundo no mesmo movimento. Era lindo de se ver, só por ser trágico – era como aquele céu de Maputo em dias de tempestade. A tempestade era ela, a chuva era ele a cair por todo o lado. O resultado disto, numa cidade com tanta terra em cima, mesmo nas zonas de cimento, era matope a escorrer pelas descidas. Ele, claro, também sentia que era lama.
Andou a bater com a cabeça nas paredes até ao dia do voo de regresso. Nesse dia, ela nem se lembrou dele. Ao meter-se no avião, ele nem sabia se ia voltar à vida ou desistir dela para sempre. Não sabia onde estava aquela coisa que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porquê. Avariado da cabeça, tinha olheiras de gente que não sabia o que era uma noite bem dormida. Enquanto embarcava, em vez de um homem, via-se um coração que se tinha partido ao cair ao chão. E assim foi embora de Maputo.

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