No pátio da Casa Pia de Lisboa, que todos os intervalos se enche de alunos, há algo de diferente: em frente a quatro mesas espalhadas pelo espaço de recreio, sentam-se quatro homens e mulheres vestidos de bata branca. Serão médicos? Estão à espera – ainda não sabem eles bem do quê. Era assim o cenário vivido no pátio desta instituição na quinta-feira.
A situação caricata gerou curiosidade nos jovens, assim que saíram até ao recinto, mas nem todos com coragem para se aproximar. Hélio, de 18 anos, venceu a vergonha e começou a falar com um dos fardados. São, na verdade, atores, não médicos: Diogo Fernandes, Cátia Nunes, Tobias Monteiro e Isabél Zuaa. E não trazem estetoscópios no bolso. Mas vieram para curar algo, assim esperam. Para isso, receitam poesia.
“Deu-me um motivo para continuar o que estou a fazer e lutar pelo que estou a lutar”, Hélio conta sobre a consulta que teve com um doutor peculiar, sem adiantar muito mais sobre a conversa privada. Aqui, o sigilo de médico também se faz valer.

O que aconteceu no recinto da Casa Pia tem nome: esta é a primeira edição da inciativa Consultas Poéticas, Pequenos Gestos no Espaço Público, promovida pelo Teatro São Luiz, que se associa à Nuit de la Solidarité de Paris. A 23 de janeiro, várias cidades, como Paris (França) e Florença (Itália), promovem consultas de poesia junto de entidades sociais, a séniores institucionalizados, mulheres vítimas de violência, jovens em isolamento e pessoas em situação de precariedade. Em Portugal, o lugar escolhido foi o Centro de Educação e Desenvolvimento Pina Manique – Casa Pia, em Belém.
O modelo é sempre o mesmo: os participantes são convidados a partilhar com um artista (que assume o papel de médico) quem são e como se sentem, sem regras nem expectativas. No fim da consulta, o medicamento indicado: sempre um poema. O ator Diogo Fernandes, de 26 anos, doutor por um dia, prescreve os versos de “O poeta é um fingidor”, para aplicar à própria vida, sempre que necessário.

O “efeito terapêutico da poesia”
De um receituário construído pelos atores, onde figuram Ary dos Santos, Florbela Espanca, Mia Couto e ainda outros, a “doutora” Cátia Nunes escolhe cuidadosamente o poema, tendo por base a principal caraterística que apreende da pessoa que atende. É esse cuidado que faz com que os participantes se sintam ouvidos e reconhecidos: “Ao perceber que pensámos num poema para elas, as pessoas sentem que lhes demos a importância de que tanto precisavam.”, conta a artista.
Desabafar com alguém fora do meio habitual parece mais fácil, é o que conta Hélio: “Há muitas coisas que nós jovens passamos e que não temos ninguém para falar ou não nos sentimos bem a falar com certas pessoas. Soube bem falar com um desconhecido.”
Tânia, uma das alunas, concorda. Diz mais: “quando paramos e nos focamos” na mensagem de um poema, “pensamos naquilo que somos, naquilo que podemos melhorar e naquilo que nos podemos tornar”.
Talvez por isso, estas consultas poéticas foram um gatilho para desvendar alguns problemas pelos quais os jovens estavam a passar e que a instituição pode agora endereçar.
Miguel Loureiro, diretor artístico do Teatro São Luiz, lembra que este é um lugar em que vários jovens se debatem com questões de identidade e de saúde mental, e onde a literatura pode funcionar como chave de resolução: “O belo também nos ajuda nos problemas”, afirma.
Mas não se torna médico de poesia sem aprender a sê-lo. “O hábito de ir ao médico não é igual a este, em que há pessoas que estão disponíveis para escutar”, diz o “doutor” Tobias. Para tal, todos eles receberam formação específica. Face aos tempos em que vivemos, Tobias Monteiro considera necessárias oportunidades como esta para parar e conversar. O ator selecionou poemas que apelassem a sentimentos positivos, destacando o “efeito terapêutico da poesia”.
Uma receita para a literacia, palavra de médicos
Bárbara, professora há mais de 30 anos na Casa Pia, além de desafiar os seus alunos a participar, teve também a oportunidade de tomar parte na experiência. A docente de Química sentiu-se interpelada pelos versos de Ser Mulher que lhe foram receitados: “O poema é uma arma, que nos dá liberdade, força para continuar, para levantar”.
As Consultas Poéticas têm também uma componente de literacia, explica Isabél Zuaa, que procurou dar a conhecer poetas de outras origens, como Raquel Lima, Audre Lorde e Ondjaki. “Numa interação pessoal que teve a arte como base” com as futuras gerações e os seus formadores, a atriz quis transmitir que “não existe nenhum padrão para a poesia e eles próprios podem desafiar e transformar os padrões existentes.”

Nesta primeira edição das Consultas Poéticas em Lisboa, os “pacientes” foram os alunos, professores e auxiliares da Casa Pia. A próxima está marcada para o dia 6 de março, das 16h às 20h, no Largo Trindade Coelho. Num compromisso de “reumanizar as praças e as ruas”, o Teatro São Luiz abre a iniciativa a todo o público.
É uma forma, diz o diretor artístico do São Luiz, de reunir o “diálogo entre o mundo artístico e o mundo social” em Lisboa.

*Texto editado por Catarina Reis

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Que palavras bonitas, Fernanda! Muito obrigada por nos ler!