Abriu uma nova livraria em Arroios e o bairro ficou mais bonito. Ao fim do dia, a luz quente que vem das duas grandes montras da Av. Almirante Reis, 89 D e G, ilumina lá dentro um espaço cheio de livros e chama cá fora o olhar de quem passa.
A sério? Não será um novo hotel de inspiração literária? Ou um novo restaurante de uma cadeia internacional de comida rápida fora da caixa onde se pode ler enquanto se come?
Não, é mesmo uma livraria. Estantes do chão ao teto forram as paredes e acolhem livros usados, uns mais antigos, outros menos. Ao centro, longas mesas retangulares acomodam mais conjuntos de livros. Por baixo, perfilam-se grandes sacos de ráfia, daqueles de supermercado (a melhor solução alguma vez descoberta para transportar livros), cheios de volumes ainda à espera de serem arrumados.

Ao longo das estantes, post-its amarelos a indicar a temática ou a língua dos livros de cada “secção”. Depois da portuguesa, predomina a língua francesa, mas também há livros em inglês, espanhol e até alemão (talvez existam noutras línguas ou venham a existir, esta é uma livraria de livros antigos e usados e, por isso, com uma oferta bastante dinâmica).
À medida que se avança pelo espaço (duas grandes salas de generoso pé direito) que já foi uma loja de móveis, como tantas que existiam na Avenida Almirante Reis, a emoção cresce.

A culpa é do cheiro dos livros e da madeira das estantes; é dos livros, velhos conhecidos, na exata edição dos que havia nas estantes de casa dos pais e dos avós e da biblioteca da infância; é da mesa com pilhas de banda desenhada, dos tio patinhas aos mickeys e às mónicas ou aos fascículos semanais da tintin, “a revista dos jovens dos 7 aos 77 anos”, dos anos 1970 e 80; é deste espaço tão grande sem mais nada, ou quase nada, senão livros.
“Esta livraria é nova aqui, não é? Abriu há quanto tempo?”
O homem, que trabalha absorto, sentado à secretária perto da porta, levanta os olhos por detrás dos óculos, como quem acorda de um sonho acordado, e fixa a perguntadora.
“Sim, abriu há uma semana”.
“Então, um dia destes posso vir cá falar consigo para a Mensagem de Lisboa?”
“Pode, claro”.

À saída, no letreiro que passou despercebido à entrada, lê-se: “Livraria Castro e Silva. Livros raros. Est. 1957 Lisboa. www.castroesilva.com”
A livraria do avô antifascista que o neto Pedro continuou
O princípio da história da Castro e Silva remonta à Lisboa dos anos vinte do século passado, há cerca de cem anos, quando a bisavó de Pedro Castro e Silva, viúva e com um filho pequeno, Ezequiel, casou, em segundas núpcias, com um livreiro lisboeta, proprietário da Livraria Peninsular, com sede na Rua da Boavista, 59, entre o Cais do Sodré e Santos.
“O padrasto do meu avô, o senhor Oliveira, era um homem viajado, tinha vivido em Espanha, onde conheceu o Vicente Blasco Ibañez [importante escritor e jornalista espanhol republicano, autor de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, entre muitos outros títulos], e foi o principal editor dele em Portugal. Quando o senhor Oliveira morreu, a minha bisavó ficou com a livraria, que também já era meio alfarrabista”, conta Pedro Castro e Silva.
Ezequiel, o avô de Pedro, cresceu, pois, entre os livros e, apesar de ter começado por trabalhar nos TLP [Telefones de Lisboa e Porto, antiga companhia pública portuguesa de telecomunicações], o espírito insurreto e os ideais antifascistas inviabilizavam uma carreira de sucesso como funcionário público.
Em 1957, com 36 anos, Ezequiel Castro e Silva dedicou-se, então, ao negócio do padrasto e fundou, na Rua da Rosa, no Bairro Alto, onde, a par da vida boémia, estava concentrada grande parte da atividade editorial, livreira e jornalística da cidade, a sua própria livraria, a Livraria Castro e Silva.

“O intuito do meu avô era fundamentalmente que mais pessoas tivessem acesso aos livros e lessem, para poderem ter mais critério e consciência. Era uma forma de levar a cultura às classes populares, de tirar as pessoas de um certo obscurantismo e também era uma forma de luta, porque permitia as outras atividades de resistência à ditadura em que ele estava envolvido e que o levaram a ser preso várias vezes”, explica Pedro.
Ezequiel Castro e Silva esteve preso em Caxias e Peniche, entre 1962 e 1964, tendo sido acusado, julgado e condenado em Tribunal Plenário, em 1963, por atividades subversivas. Mário Soares foi o advogado de defesa dele. Voltou a ser preso dez anos depois e foi um dos presos políticos libertados depois do 25 de Abril, na madrugada de 27 de abril de 1974.



“Foi preso por publicar e distribuir textos contra a ditadura. Como tinha a prensa, imprimia clandestinamente”, conta o neto, com visível orgulho.
“E quando estava preso, penso que em Caxias, idealizou um ficheiro para catalogação dos títulos. Esse ficheiro, histórico e único, chegaria depois aos 500 mil títulos. Ele costumava dizer-me, ‘olha, para fazer um ficheiro como o meu, precisamos de um computador maior do que a nossa livraria’. Infelizmente, não viveu para ver que foi o ficheiro dele que serviu de inspiração e matéria-prima para a base de dados informatizada que temos hoje”, diz Pedro Castro e Silva, herdeiro do negócio e da paixão do avô materno pelos livros raros e antigos, que não só continuou, quando ele morreu, em 1990, com 68 anos, como expandiu.
Do Bairro Alto para Picoas e agora Arroios
A mais recente expansão trouxe a Castro e Silva para Arroios, acrescentando-lhe 800 metros quadrados de espaço, habitados por cerca de 80 mil livros, a que se somam outros tantos, disponíveis online, “que podem chegar à loja no mesmo dia, vindos dos armazéns”.
Lisboeta de gema, Pedro vive em Campo de Ourique e sempre trabalhou entre o Bairro Alto, berço da livraria da família, e o Chiado, sobretudo desde que, há cerca de dez anos, adquiriu a centenária (e, então, insolvente) Livraria Sá da Costa.
Não conhece tão bem o outro lado de Lisboa, mas quando a oportunidade de abrir uma loja em Arroios surgiu, agarrou-a. “O espaço adaptava-se perfeitamente ao que queríamos. Temos muitos livros que vamos comprando guardados em armazém. Achámos que esta zona seria interessante e assim, em vez de mais um armazém, arrendámos uma loja, que comporta milhares de livros e tem a vantagem de estar aberta ao público”, diz Pedro Castro e Silva, explicando como a expansão para outros pontos da cidade tem sido sempre uma questão de oportunidade.

“Abrimos uma loja em Picoas, durante a pandemia, e agora abrimos aqui. Tentamos ir em contraciclo. Quando os ciclos estão negativos, como agora, é quando podemos arriscar e expandir e se aparece um espaço que vemos que tem potencial, avançamos”.
O facto de o senhorio saber o que queria para o prédio e para o bairro ajudou a trazer a livraria para Arroios.
“O senhorio não queria mais um restaurante de fast-food, queria um espaço que implicasse menos barulho e confusão e que também dignificasse o edifício. Preferiu ganhar menos, mas escolher o que vinha para aqui. Tem esse mérito”.
E foi assim que abriu na Almirante Reis uma livraria de livros antigos, que tem planos para vir a ser mais que isso. Espaço não falta. Livros também não. Nem ideias.
Uma livraria lisboeta à procura de Lisboa
Pedro Castro e Silva ainda está em pleno processo criativo de “montagem” da loja de Arroios, que se junta às de Picoas e do Chiado e ao catálogo online.
“Isto é como escrever um livro ou pintar um quadro ou criar um filho. Tínhamos aqui um espaço em branco que vamos preenchendo com o que temos nos armazéns, de mobiliário e livros, de acordo com a experiência e aprendizagem acumuladas sobre o produto e o que os clientes querem”, diz o livreiro.
“Aqui em baixo [na cave] temos um espaço igual a este em área, muito bonito, só com menos pé direito e, quando estiver tudo organizado aqui em cima, abrimos também lá em baixo”.



Material há de sobra e a intenção de Pedro Castro e Silva é fazer da livraria da Almirante Reis um espaço de cultura, com tertúlias, lançamentos de livros, espaços de leitura e até, quem sabe, uma pequena cafetaria.
“Este bairro tem algumas características particulares que estou a conhecer melhor, mas que me lembram uma Lisboa de quando eu era mais novo e que aqui ainda se preserva. Se calhar, vim um bocadinho à procura dessa Lisboa e dos públicos mais heterogéneos que ela proporciona”, diz o alfarrabista, que trabalha com o passado, mas defende a abertura ao futuro e a adaptação positiva da cidade às transformações que atravessa.
“Não temos de perder a identidade, pelo contrário, temos de a preservar, porque temos coisas muito boas, mas podemos e devemos partilhá-las com quem vem de fora”, diz, referindo-se tanto aos turistas como aos estrangeiros que vivem na cidade.

E as livrarias portuguesas de livros antigos são, de acordo com Castro e Silva, um património a preservar e partilhar.
“A atividade de alfarrabista devia ser património cultural e imaterial da UNESCO”
Quando falámos, em finais de novembro, Pedro Castro e Silva estava a preparar a ida à In-Folio – XIV Feira Internacional do Livro Antigo de Madrid. Os livros antigos, manuscritos, raros, antiguidades, são a especialidade do negócio de família, a parte “premium”, digamos assim, que não está confinado às paredes de uma livraria (nem às fronteiras do país).
Mas os livros usados, de ocasião, alguns deles também antigos e raros, são outra parte importante da atividade alfarrabista da Castro e Silva, que por vezes não tem mãos a medir com a oferta para aquisição. Daí que tenha os armazéns cheios.
“Os livros vêm ter connosco. Somos um negócio de família, uma livraria, uma organização bibliográfica, que foi como o meu avô criou, somos conhecidos, e então torna-se orgânico: quando as pessoas têm livros para vender – a biblioteca de um familiar que faleceu, os livros que sobram de uma mudança de casa, etc. – vêm ter connosco. Felizmente, em Portugal temos essa cultura de guardar os livros, que são bastante valorizados, apreciados e respeitados. Ao contrário de outros países, não conseguimos deitar livros fora ou destruí-los”.

É por isso que Pedro Castro e Silva, que tanto trabalha com livros do século XVI, raros, como com livros usados, de ocasião, defende que a sua atividade “é um bocadinho como a saudade, só os portugueses é que têm uma palavra para a designar: alfarrabista”.
“Somos os únicos que trabalhamos ‘desde o incunábulo à novidade’ – como dizia o meu avô e era isso que punha nos catálogos para definir o negócio –, ou seja, desde os primeiros livros impressos até à novidade. Só os portugueses é que fazem isso porque, como a nossa escala é muito pequena, para nos mantermos, temos de trabalhar com todo o tipo de livro. A atividade de alfarrabista devia ser património cultural e imaterial da UNESCO”, diz.
“Quanto mais livrarias, melhor”
Enquanto isso não acontece, Pedro Castro e Silva continua o negócio em todas as frentes e, apesar de ainda ter muito por arrumar e não ter inaugurado oficialmente, assim que pôde abriu logo as portas da nova livraria, na Almirante Reis.
A reação das pessoas tem sido boa, de acordo com as impressões do proprietário. “Acho que, quando passam e veem, ficam surpreendidas e têm curiosidade. Muitas entram e até há quem agradeça”, conta. As vendas vão dando, pelo menos, para começar a ajudar a pagar a renda, mas essa não é para já a maior preocupação do livreiro.

“Se pensarmos só na parte económica nunca fazemos nada na vida. Claro que tem de ser sustentável, mas os alfarrabistas têm várias funções a cumprir enquanto agentes culturais. A ideia é fazer tudo para que isso resulte aqui e eu acredito que vai resultar”, diz Castro e Silva, para quem quanto mais livrarias melhor.
“Segundo a Junta de Freguesia de Arroios, há oito livrarias aqui nas redondezas e isso é ótimo. Umas potenciam as outras. São polos culturais que se criam. Dou-lhe o caso da livraria do Chiado [a Sá da Costa], que tem ótima relação com a concorrência. Quando eles não têm um livro, mandam para nós e nós fazemos o mesmo.”
Assim seja aqui em Arroios, que ganhou 800 metros quadrados de livraria e a emoção do cheiro dos livros logo pela manhã (ou pelo fim da tarde).

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 50 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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