O Metro de Lisboa vive mais uma manhã de greve nesta terça-feira (3) e repostamos hoje um interessante raio-x feito pelo repórter Frederico Raposo e que ajuda a entender o que se passa no Metropolitano de Lisboa.

O Metro de Lisboa comemora a retomada de alguns parâmetros pré-pandemia, como a melhor frequência na circulação dos comboios e o aumento do número de passageiros. Segue, porém, a enfrentar grandes desafios que podem comprometer o serviço a curto prazo, os maiores a contratação de maquinistas e o fim das constantes interrupções na circulação das carruagens por causa de avarias. Segue abaixo um raio-x do Metropolitano da capital, a começar pelas boas notícias:

Há mais comboios a circular no Metro?

Em setembro, surgia a dúvida no Twitter. Um utilizador partilhava uma tabela de frequências da Linha Azul do Metro de Lisboa, dando conta de uma alegada diminuição da frequência da passagem de comboios.

Se, anteriormente, na hora de ponta da manhã, o metro passava, em média, a cada quatro minutos e 35 segundos, agora o comboio passava apenas a cada cinco minutos e 45 segundos. O exposto parecia indicar que nem mesmo nas horas de ponta se esperava menos do que cinco minutos pelo próximo comboio. Mas não era exatamente como parecia.

No início de setembro, surgia a dúvida no Twitter – estariam as frequências do metro piores do que há alguns meses? Fonte: Twitter/X

Na realidade, as frequências no metro de Lisboa não pioraram, mas aquela tabela também não era falsa. “A publicação referida reflete os horários de verão/férias escolares”, esclareceu à Mensagem fonte do Metropolitano.

No passado dia 9 de setembro, voltaram a vigorar as frequências previstas para o período escolar, tendo como consequência o regresso a tempos de espera mais reduzidos pelo próximo comboio. Na hora de ponta da manhã, na Linha Azul, espera-se agora – em média – quatro minutos e 20 segundos pelo próximo comboio, menos do que em 2019. Na Linha Amarela, a espera é a mais curta de todo o metro neste período – três minutos e 50 segundos – e é também a que assegura mais capacidade de transporte de passageiros por hora, com 12.030 lugares.

As esperas mais longas verificam-se nas Linhas Verde e Vermelha, com cinco minutos e 35 segundos e seis minutos, respetivamente, para o período de ponta da manhã. No caso destas duas linhas, as frequências estão hoje em linha com as praticadas em 2019.

O Metropolitano explica que o crescimento dos níveis de utilização do metro tem vindo a motivar o reforço da oferta. “Em janeiro de 2024, foi aumentada a frequência de circulação de comboios às horas de ponta nas linhas Azul e Amarela no período de inverno (período escolar) de dias úteis”.

Apesar de agora as frequências aproximarem-se das verificadas em 2019, os tempos de espera na Linha Amarela estão ainda ligeiramente acima dos tempos estabelecidos há cinco anos, quando o intervalo médio era de três minutos e 35 segundos. Apesar disso, o número de passageiros no metro já ultrapassa os valores registados antes da pandemia.

Na passada quinta-feira, 24 de outubro, a Mensagem foi para a plataforma do metro contar as frequências da passagem de cinco comboios seguidos na estação Avenida da Linha Azul. Ao início da hora de ponta do final de tarde, entre as 17h49 e as 18h06, passaram pela estação cinco comboios, no sentido Santa Apolónia – Reboleira e sempre dentro dos intervalos definidos pela tabela de frequências – neste horário e para esta linha, o intervalo médio definido entre é de quatro minutos e 35 segundos.

Passagem do primeiro comboio 17h49
Intervalo de 3 minutos e 10 segundos
Passagem do segundo comboio 17H52
Intervalo de 4 minutos e 0 segundos
Passagem do terceiro comboio 17h57
Intervalo de 4 minutos e 20 segundos
Passagem do quarto comboio 18h02
Intervalo de 4 minutos e 0 segundos
Passagem do quinto comboio 18h06

Para além da tabela de frequências praticada, o Metro explica ainda que procura adequar a oferta a picos pontuais de procura. “Sempre que se verificam aumentos de procura pontuais, nomeadamente em eventos culturais ou desportivos na cidade de Lisboa, a oferta é ajustada em conformidade, seja aumentando o número de comboios em circulação, seja aumentando o número de carruagens dos comboios em circulação, ou ambos.”

Número de passageiros ultrapassa a pré-pandemia

Em abril de 2019, o PART – Programa de Apoio à Redução Tarifária nos Transportes Públicos entrava em vigor e operava um “choque tarifário”. Os valores dos títulos mensais de transporte público tinham sido drasticamente reduzidos e, em outubro desse ano, quebrou-se o recorde de venda de passes: 768 mil num único mês em toda a Área Metro de Lisboa, num crescimento homólogo de 24,8%.

Foi neste contexto de elevado crescimento na utilização da rede de transportes públicos que em 2019 o Metropolitano de Lisboa alcançou os seus máximos de utilização, com 183 milhões de viagens realizadas na rede naquele ano. Em 2020, a pandemia conduziu a uma queda superior a 50% na utilização da rede e, desde então, a recuperação tem sido lenta, com os níveis de utilização a não ultrapassarem em 2022 e 2023 os valores pré pandemia.

Este ano, contudo, a utilização do metro deve ultrapassar os valores de 2019. No primeiro semestre de 2024, foram validadas 85,5 milhões de viagens, o que representa um crescimento de 1,8% face ao mesmo período de 2019 e de 7,6% face ao mesmo período do ano passado.

Apesar do crescimento do número de passageiros e do reforço da oferta, têm vindo a acumular-se várias perturbações e interrupções da circulação. Para isso, contribuem vários fatores, para além das causas alheias ao Metropolitano.

Há falta de maquinistas?

No Relatório e Contas de 2023, a empresa aponta para uma fragilidade dos seus recursos humanos: “em áreas core para o negócio do grupo de empresas do ML, o envelhecimento dos trabalhadores é ainda mais significativo, apresentando idades médias superiores, que ultrapassam mesmo os 52 anos no caso dos maquinistas e na área da manutenção”.

O Metropolitano de Lisboa tem hoje ao serviço 252 maquinistas, com uma idade média de 53 anos.

Na rede de metro de Lisboa, a função de maquinista é alcançada através da progressão interna. Carlos Macedo trabalha no Metropolitano de Lisboa há mais de 30 anos e atualmente exerce funções de maquinista. É também membro da direção do Sindicato dos Trabalhadores do Metropolitano de Lisboa (STMETRO). Antes de progredir para maquinista, foi agente de tráfego e operador comercial e, em entrevista à Mensagem, fala em “falta de trabalhadores, que é por demais evidente” no que toca a maquinistas e pessoal da manutenção.

Metro sem liberdade para contratar funcionários

“Temos material circulante [isto é, comboios] que já tem alguns anos, mas não é por causa disso que esse material não deva corresponder”, afirma Carlos Macedo, referindo-se às necessidades do lado da oferta. Para o trabalhador do Metropolitano e dirigente sindical, são várias as razões que hoje podem limitar o aumento das frequências.

“Como temos uma diminuição dos trabalhadores e já houve uma expansão da rede que não foi acompanhada por [aquisição de] material circulante, não há uma razão única, mas uma série de razões que, conjugadas, levam a que realmente a frequência não seja a desejável no Metropolitano de Lisboa nos nossos dias.”

Metro Lisboa
Interior de carruagem do metro de Lisboa. Foto: Metropolitano de Lisboa

Para além do reforço na área da manutenção, Carlos Macedo aponta para a necessidade de “haver progressão na carreira”. “É necessário que o Metropolitano contrate agentes de tráfego”. Na progressão das carreiras do ML, os agentes de tráfego progridem para a categoria de operadores comerciais e, depois, de maquinistas. “Se não tivermos operadores comerciais, o Metropolitano não pode fazer a progressão normal e, portanto, não pode ter mais maquinistas”. O aumento da idade média entre os maquinistas tem acontecido, diz, “por a empresa não ter investido nesta categoria”.

Para o sindicalista, “o problema começa quando para contratar um trabalhador é necessário ter uma autorização de duas tutelas – a tutela política e a tutela financeira. O Metropolitano de Lisboa hoje não tem liberdade para contratar os trabalhadores de que precisa”.

À Mensagem, o Metro de Lisboa afirma que, desde 2022, tem lançado “diversos processos de contratação para várias funções, nomeadamente para permitir a progressão para a categoria de maquinista”, encontrando-se atualmente a decorrer um concurso interno que permitirá a formação de novos maquinistas.

No final de 2023, o Metro de Lisboa contava com 1575 trabalhadores. Desses, cerca de 360 pertencem à área da manutenção.

“Devido a avaria na sinalização, a circulação está interrompida

Para além das situações alheias ao Metropolitano, a modernização do sistema de sinalização tem sido causa de vários constrangimentos na circulação dos comboios.

A instalação do sistema CBTC (Communications-Based Train Control) nas linhas Azul, Verde e Amarela vem substituir o anterior sistema, instalado nos anos 1970 e já se encontra em fase avançada de instalação na Linha Azul e em pleno período de testes. A adaptação ao novo sistema tem, contudo, causado constrangimentos na circulação. No final de agosto, o Metropolitano publicou um comunicado, lamentando os incómodos causados pelas interrupções de serviço decorrentes da instalação da nova sinalização.

O novo sistema de sinalização foi contratado em 2020 por 68,9 milhões de euros e permitirá o controlo automatizado de comboios, o que, segundo a empresa, deverá resultar na possibilidade técnica de “uma maior aproximação entre comboios, em segurança, com a indicação exata da localização dos mesmos na rede, contribuindo, desta forma, para a redução dos tempos de espera” e “obtenção de maiores frequências”.

Apesar de reconhecer o impacto do processo de instalação do novo sistema de sinalização, o Metropolitano de Lisboa afirma que as interrupções ou alterações pontuais da circulação acontecem “devido a diversos tipos de ocorrência e não exclusivamente por motivo de implementação de CBTC”.

Na Linha Azul, o novo sistema de sinalização deverá estar plenamente operacional no primeiro trimestre de 2025, garantindo “melhor fiabilidade”. Segue-se, depois, o mesmo processo nas Linhas Amarela e Verde.

Com a Linha Circular e expansão da Linha Vermelha, Metro anuncia mais carruagens

Para aumentar frequências e reduzir tempos de espera no metro, são necessárias mais carruagens, facto que se torna ainda mais claro no atual momento de expansão da rede. Atualmente, a rede do Metropolitano conta com uma frota de material circulante constituída por 111 unidades triplas, fabricadas entre 1990 e 2002. Segundo a empresa pública, esta frota “adequa-se à rede atual”. Mas, para breve, e com as expansões em curso, está já prevista a chegada de dezenas de novas carruagens, possibilitando não só a manutenção dos atuais níveis de serviço, mas maiores aumentos nas frequências praticadas.

Metro Lisboa
Estação do Cais do Sodré. Foto: Metropolitano de Lisboa

A Linha Circular, que deverá ser inaugurada no segundo semestre de 2025, vem acrescentar 2,4 quilómetros e duas novas estações à rede: Estrela e Santos. Quase em simultâneo com a entrada em operação deste prolongamento, o Metropolitano está a receber 14 novas unidades triplas, o que se traduzirá em 42 novas carruagens e sete novos comboios de seis carruagens.

No início de agosto, o Metropolitano de Lisboa recebeu a primeira unidade tripla desta encomenda. As novas carruagens da série ML 20 – em referência a 2020, ano da encomenda – foram publicamente apresentadas no mês passado e são as primeiras carruagens novas a chegar ao metro em 22 anos, estando previsto o início da sua circulação para os primeiros meses de 2025. Assim, o metro passará a contar com 375 carruagens, valor que assegura a existência de 62 comboios de seis carruagens em toda a rede.

Na última semana, e perspetivando já a expansão da Linha Vermelha, com obras prestes a começar, foram apresentadas as novas carruagens da série ML 24. Serão 24 novas unidades triplas a acrescentar às atuais – ou seja, 72 novas carruagens ou 12 comboios de seis carruagens – com a opção de mais 12 unidades triplas (36 carruagens), pelo valor de 134 milhões de euros.

A expansão da Linha Vermelha contempla a construção de mais 4,3 quilómetros de rede e de quatro novas estações – Amoreiras, Campo de Ourique, Infante Santo e Alcântara – e prevê um aumento de 11 milhões de passageiros anuais e a retirada de circulação diária na cidade de 3,7 mil viaturas.

Metas previstas para o Metropolitano

Ao abrigo do Contrato de Concessão de Serviço Público de Transporte por Metropolitano de Passageiros, assinado pelo Estado Português e pelo Metropolitano de Lisboa, são definidos critérios de operação que procuram assegurar a “adequação da oferta à procura existente”.

É deste documento, em particular do seu Anexo 1 – Rede, Oferta, Tarifário, Bilhética e Frota, que resultam as tabelas de frequência em vigor neste ano no metro da cidade de Lisboa. No final de cada ano é definido o novo Plano de Oferta, com a respetiva tabela de frequências para cada linha.

Define-se que o intervalo máximo entre comboios “nunca” será superior a 15 minutos e que o metro deve funcionar diariamente entre as 6h30 e as 01h00. Adicionalmente, o documento define que a taxa de ocupação máxima “não deve ultrapassar os 100% em média mensal, durante dois períodos consecutivos de 14 minutos, entre estações consecutivas, por sentido, considerando os lugares sentados e 4 passageiros/m2 para os lugares em pé”.


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Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta – , o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.


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2 Comments

  1. Relativamente aos maquinistas, recomendo que se informe devidamente acerca da situação. De fonte segura, digo-lhe que não há qualquer carência de profissionais, sendo que o seu horário de trabalho diário é escandalosamente reduzido…

  2. Excelente artigo, muito útil em informação, rigoroso e objetivo, e sobretudo, muito bem escrito. Parabéns, caro Frederico!

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