Todas as escalas desta loja são encantadoras, dos seus 25 metros quadrados muito bem aproveitados com dois belos balcões inspirados na arte déco e prateleiras abertas até ao tecto, aos produtos que vende. Na sua maioria são do tamanho das surpresas, das que rematamos com laços, já que é nos detalhes que reside a magia do mundo. Bem-vindo à loja de café Pérola do Chaimite, no coração das Avenidas Novas.
A escolha da palavra Pérola, aliás, não é inocente: é a verdadeira loja de encantar, das que se gosta uma vida inteira. O fundador, Isidoro Teixeira, consta ter sido um homem de gostos sofisticados à época da fundação, em 1938, ali mesmo onde está até hoje, na Avenida Duque d’Ávila, 38.
Mais tarde, juntaram-se os dois sócios, Eurico Augusto e Manuel dos Santos Cabral, na tradição de outras lojas de café que Isidoro abrira antes, como a Carioca, no Chiado (aberta em 1936), e a Moka Real, mesmo ao lado da Mexicana, na avenida Guerra Junqueiro. “Abriu em 1938, no mesmo ano da sua vizinha Casa Xangai, no contexto de umas Avenidas Novas que se desdobravam em novos hábitos e reinventavam a cidade, expandindo-a.”, como contam as Lojas com História.
No início, estas lojas até queijaria tinham e serviam as casas de família da zona. Hoje, uma vende pastéis de nata Castro e a outra cristais Atlantis. Resta a do Chaimite com o seu comércio original.
“O Isidoro tinha visão empresarial e gostava muito de café, então entendeu abrir em Lisboa lojas onde passasse o elétrico, especialmente junto às paragens”, conta Luís Freitas, filho de um dos sócios.

Luis é descendente de José de Freitas, que era afilhado de Isidoro Teixeira e veio para Lisboa trabalhar com ele com apenas 13 anos. A ligação fez com que amigo José amparasse o filho de Isidoro quando este adoeceu, e depois faleceu, em 2003. José e Luís acabaram por ficar com as quotas dos outros sócios e ficaram com a Pérola do Chaimite, mantendo-a no negócio enquanto as outras lojas abertas por Isidoro foram vendidas.
Não foram tempos fáceis. Luís e o pai amargaram as obras do metro, puseram a companhia em tribunal, perderam. “Nem o guindaste à porta ou a descida da facturação convenceram a juíza”, relembra Luís. O golpe foi grande, mas a loja não fechou. Pelo contrário, como tantas outras à sua volta, foi um motor de mudança. A primeira mudança foi renovar a fachada que “estava feiota e envelhecida”, recorda Luis.

Arranjaram a montra e o toldo, melhoraram a iluminação e puseram música ambiente. Luís diz que o resultado foi imediato. “Houve pessoas que perguntaram: esta loja sempre esteve aqui?, porque não a reconheciam. Introduzimos uma certa noção de marketing que a loja nunca experimentara.”
Café e chá servidos com História
Especializada em café e chá ao peso, sempre em grande variedades, e também nas máquinas e acessórios fundamentais para fazê-los bem em casa: as cafeteiras e bules, filtros e mergulhadores, hoje em constante luta inglória contra as industriais cápsulas e saquetas que nunca convenceram os apreciadores do café tirado na hora.
Também aqui há os biscoitos vindos de vários pontos de Portugal, as areias e os lagartinhos da Casa Gregório, em Sintra, as raivas com canela de Aveiro e os fidalguinhos e as bolachas da Paupério, de Valongo, e as queijadas da Casa do Preto, de Sintra.

Há doces de frutas do Algarve, alguns do Alentejo, e mimos que nunca são demais, como chocolates, incluindo os belgas, e os bombons, como os Mestre Cacau de Beja, ou as gomas e rebuçados, oriundas de Portalegre, e as feitas de ovo de Estremoz. No verão, há groselhas e capilés dos Quiosques de Lisboa e, no inverno, licores vários, da Madeira ao Alentejo, vinho do Porto e vinho de Carcavelos 1990.
O best seller, porém, é o café. Principalmente de casta arábica, vindo de Timor, Colômbia e Brasil. Também fzazem sucesso os produtos com chicória e cevada, menos intensos, preferidos pelos clientes de “mais idade”. Parte dos lotes são essencialmente misturas, para suavizar o café puro, por isso, têm bastante diversidade para encontrar esse equilíbrio.
O toque mais suave é apenas um cuidado: o atual proprietário avisa logo que esta não é, nem pretende ser, uma loja gourmet, ainda que a escolha dos produtos possa indicar o contrário. Para Luís, a intenção é que a Pérola do Chaimite continue a ser valorizada pela simplicidade portuguesa que sempre a definiu.
Além da qualidade do produto e do toque de marketing, a Pérola do Chaimite conta com outro ingrediente muito importante: as tendências. “O vintage está na moda”, ressalta Luís. Tão na moda que a clientela não conhece idades nem classes sociais.
Nos últimos anos, o chá começou a recuperar terreno em relação ao café. “É cada vez mais procurado pelos mais jovens e os mesmos que compravam gomas quando andavam aqui a estudar e agora compram-nas para os seus filhos”, explica Luís.
Some-se a isso as obras que devolveram o passeio grande à Duque d’Ávila e a recente animação da Avenida da República, colaborando com o movimento, assim como os novos habitantes do bairro, chegados com a crescente renovação dos prédios, e a receita do sucesso está completa.
Luís conta ainda com os antigos residentes de Lisboa, que costumam encomendar o café com destino ao Alentejo ou Açores. “Até para Nova Iorque já os enviei”, reforça.

Além das estrelas da casa, o café sempre acolheu clientes ilustres, como Maria Barroso, mulher de Mário Soares, uma cliente habitual que surgia acompanhada dos netos, para mostrar-lhes o sítio que frequentava na infância, ou Jorge Sampaio que também aparecia, às vezes. Numa delas, entrou de chapéu e o rapaz que vinha trazer um tampo de mármore para a loja ficou à porta, pasmado pela presença do Presidente.
Agora, a Pérola é visitada por turistas e até por excursões que lhe entram pela loja adentro como se de um pequeno museu se tratasse. E não está muito longe disso: a Pérola do Chaimite é uma das primeiras Lojas com História de Lisboa.
O tempo frio pede café ou chá quentes
Agora que o outono chega começa a haver mais procura, diz-nos Luís de Freitas. “Não é um negócio sazonal, mas vive um bocadinho mais do inverno”, explica. A “alta temporada” no Chaimite arranca em outubro e dura até abril para arrefecer nos meses mais quentes.

A Páscoa é uma espécie de segundo Natal. “Já não é só aquela amêndoa branca do bebé, há uma multiplicidade, o que garante uma facturação quase nos valores de dezembro.
Para evitar as longas filas no café, há dois anos uma funcionária veio juntar-se ao até então único empregado da casa, que por meio-século tratou de tudo sozinho, o Sr. Tavares. “É uma instituição do Chaimite. Está connosco há tantos anos que os clientes ficam desorientados quando ele sai só para ir ao banco”, diverte-se Luís.
A brilhar desde 1938 nas Avenidas Novas, a Pérola do Chaimite tem resistido ao tempo apostando na qualidade e na tradição, uma equação que tem garantido a facturação e as portas abertas por longos anos. “É uma loja com muita tradição e as pessoas, mesmo os turistas, dizem: É uma loja muito bonita, nunca a feche, por favor!”.
Fechar está fora dos planos de Luís, mas o proprietário segue atendo aos movimentos de uma nova Lisboa nem sempre simpática aos negócios tradicionais.
“O espaço não é nosso, é um aluguer, por isso a continuidade não está completamente nas nossas mãos. Eu gostava de nunca fechar, a loja tem rentabilidade para se manter, mas com as vicissitudes das vidas das pessoas, dos ascendentes aos descendentes, do mundo e de Lisboa, nunca se sabe bem o amanhã”, resume Luís.

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Extraordinária descrição de uma loja emblemática. Obrigado pelo seu trabalho.
Gosto muito de saber a história das velhas casas de comércio de Lisboa,. Tenho muita saudade da rua dos retroseiros , tinha de tudo um pouco. Tenho saudade da Casa Chinesa na rua do ouro , tb loja de cafés na década de 60, 70. O velho Rossio, com as suas lojas características, q pena .