
Este artigo é um artigo da Maldita.es. Faz parte da investigação Cidades resistentes ao calor, que junta as redações da Mensagem ao Slow News, em Itália, e à Maldita.es, em Espanha, num projeto dedicado ao Jornalismo de Soluções com o apoio de Journalismfund Europe.
O outono chegou e, embora os termómetros em Barcelona já não atinjam os 34ºC dos meses de verão, no Parc de l’Espanya Industrial, a poucos passos da estação de comboios de Sants, ainda se encontram habitantes de todas as idades à procura de se refrescarem. Alguns deitam-se na relva junto ao lago, enquanto outros aproveitam os campos de basquetebol e voleibol ou as mesas de pingue-pongue. À entrada, uma faixa com um termómetro dentro de um círculo vermelho e azul assinala o parque como um dos 360 refúgios climáticos espalhados pela cidade.
A rede de refúgios climáticos de Barcelona, que começou com 70 locais em 2020, teve origem nas reuniões do grupo de trabalho Cool Cities, um projeto em que as cidades partilham ideias para lidar com o calor urbano. Embora o objetivo final seja reduzir a temperatura da cidade através do aumento das árvores ou da redução do asfalto, existem medidas de emergência como os refúgios climáticos.
O conceito surgiu em várias ocasiões durante essas reuniões e Barcelona explorou a forma como poderia ser implementado localmente. Atualmente, a cidade é vista como pioneira – não por ter sido a primeira, uma vez que já existiam cooling centers no Reino Unido e na Austrália, mas pela sua metodologia inovadora na adaptação do conceito ao seu contexto local. O que é que Barcelona fez e como?
“O que faz de Barcelona um grande exemplo são os critérios claros para os seus refúgios“, diz Ana Terra, investigadora especializada em adaptação climática urbana no Centro Basco para as Alterações Climáticas (BC3). Em termos simples, um refúgio climático é um espaço onde as pessoas se podem refugiar de temperaturas extremas – quer sejam quentes ou frias – cumprindo determinadas condições. Por exemplo, devem manter uma temperatura de cerca de 26 ºC, ou 27 ºC, ter acesso a água, lugares para se sentar e casas de banho públicas. Se forem espaços exteriores, como parques, devem ter um mínimo de área verde e zonas de sombra.

Os refúgios devem ser acessíveis e estar próximos de quem deles necessita. Daí a importância de criar redes como as de Barcelona ou Bilbau (que lançaram 131 locais este verão), para que não seja necessário percorrer longas distâncias para encontrar um refúgio”, afirma Elvira Jiménez, coordenadora da Greenpeace para a adaptação climática. Foi aqui que Barcelona seguiu uma estratégia que ambos os especialistas recomendam para as cidades que pretendem criar as suas próprias redes. “Comecem com espaços públicos existentes que podem ser facilmente transformados, como bibliotecas, centros cívicos e centros culturais. Depois, abram a oportunidade a outros espaços comunitários ou privados”, aconselha Ana Terra.
A bióloga da Greenpeace também elogia a iniciativa de Barcelona de usar as escolas como refúgios. “Estão a matar dois coelhos com uma cajadada só. Por um lado, adaptaram as escolas, onde têm crianças, e, por outro, é um local presente em todos os bairros. Um ponto de encontro para as comunidades que é fácil de replicar”, diz Jiménez. Para além das escolas, a rede inclui creches, bibliotecas, parques, universidades, museus e mercados.
O objetivo da cidade é que, até 2030, todos os habitantes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa. Este ano, de acordo com a Câmara Municipal, 68% dos residentes têm acesso a um abrigo num raio de cinco minutos e 98% num raio de dez minutos. E, apesar da mudança no governo municipal da cidade em 2023, o projeto manteve-se.
A Câmara Municipal de Barcelona descreve o processo de aprendizagem que resultou na criação da rede:
“A implementação de uma rede de refúgios climáticos requer uma abordagem holística e colaborativa das diferentes áreas do município. A boa governação, a procura de espaços estratégicos com infraestruturas adequadas, a avaliação contínua e a comunicação eficaz são elementos essenciais para que o projeto funcione.”
O resultado é um mapa oficial onde os cidadãos podem procurar os refúgios mais próximos e aceder aos mesmos. Reproduzimo-lo aqui (em inglês).
Cidadãos ainda desconhecem os refúgios
"No outro dia fui a um parque que tinha um pequeno sinal, é isso?", pergunta Alberto Revilla, um residente de Barcelona, quando lhe perguntam se já visitou um refúgio climático. Um inquérito realizado em 2022 a 380 habitantes de Barcelona revelou que, tal como Alberto, 85% desconhecia a rede de refúgios climáticos. Uma tendência que, de acordo com os inquéritos da Câmara Municipal, está a aumentar: "No outono de 2021, o grau de conhecimento era de 17,8%, em 2022 era de 20,5% e em 2023 era de 32,3%".
Embora muitas pessoas os utilizem sem se aperceberem, os especialistas concordam que a comunicação continua a ser uma tarefa por concretizar. Para além de estarem identificados à entrada, recomendam aos municípios que utilizem todas as ferramentas disponíveis, desde cartazes a sítios Web, para que durante a estação quente as pessoas saibam onde procurar os refúgios. "Tudo o que puderem fazer - mas a divulgação é importante para que possam ser utilizados. Nos últimos dois anos, tem-se falado mais deste conceito, mas não é algo que o público tenha em mente", observa Jiménez.
Aqueles que estão familiarizados com os refúgios apreciam a iniciativa, mas vêem espaço para melhorias. "É importante lembrar às pessoas que existem espaços gratuitos que garantem o conforto térmico e é bom indicar onde estão, mas é difícil ver o valor quando fecham à noite ou durante o mês de agosto", diz Andrea Arnal, jornalista especializada em clima e residente em Barcelona.
Pedro, um habitante de 91 anos que utiliza um centro para idosos no bairro de Poblenou, partilha das mesmas queixas: "É um ótimo centro, mas fazem uma coisa muito mal: fecham para férias. Então, há um sinal a dizer que os idosos podem procurar aqui abrigo do calor, e depois está fechado em agosto?"

Não só em agosto, mas também nos feriados, muitos mercados, bibliotecas e centros cívicos exibem sinais de “fechado”, tornando difícil encontrar refúgios abertos. Embora os parques e museus permaneçam abertos, as opções são limitadas. Um terço dos refúgios estava fechado em agosto passado, ou seja, 116 dos 360 espaços disponíveis, de acordo com uma análise feita pelo Maldita.es utilizando dados da Câmara Municipal de Barcelona. Um rácio que já tinha sido assinalado pelo El Periódico e pelo grupo municipal Junts.
Com estes encerramentos, a percentagem de habitantes de Barcelona que têm um refúgio climático a menos de 10 minutos a pé de casa diminui para 88% e dos que têm um abrigo a menos de 5 minutos a pé de casa cai para 44%. Quando questionada sobre esta limitação, a autarquia indicou que "o programa procurou diferentes espaços para cobrir as diferentes faixas horárias" e que "ano após ano a rede tem sido alargada para ter uma melhor cobertura temporal e territorial".
Jiménez sublinha que outro requisito fundamental é os abrigos serem gratuitos para garantir o acesso da população vulnerável, como as pessoas que não podem pagar o ar condicionado. Em Barcelona, a maioria dos abrigos cumpre este critério, mas as piscinas municipais fazem parte da rede e, apesar de oferecerem descontos, não são gratuitas.
Tornar os refúgios mais apelativos
Um último desafio é tornar os refúgios mais apelativos para o público. Para Andrea Arnal, uma das chaves seria promover espaços menos conhecidos, como as escolas ou as universidades: “Como utente, por muito que me digam que posso ir a uma escola para me refrescar, sinto-me estranha. Sinto que faria mais sentido numa loja de roupa, num café ou num parque”.
Por exemplo, os museus também podem servir como abrigos climáticos. “Mas não podem obrigar-nos a participar numa atividade para nos refugiarmos do calor. Podem criar um espaço dentro do museu que funcione como refúgio climático, mas não podem obrigar-nos a ver arte só para fugir ao calor, porque nesse caso não é um refúgio”, esclarece Jiménez.
É o caso do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB). Um símbolo de refúgio climático é visível à entrada e, antes de chegar à sala de exposições, um espaço com cadeiras, mesas e tomadas está a ser utilizado por um visitante para dormir a sesta. Agora está vazio, mas "em julho e agosto, vem cá muita gente", diz Maria, rececionista do museu. "Pode não parecer, mas conhecem o refúgio climático e vêm perguntar sobre ele."

Embora utilizadores como Sara apreciem a iniciativa, sentem falta de “uma oferta para além de um espaço interior. Talvez fosse melhor plantar árvores nas praças públicas para que as pessoas possam ficar ao ar livre precisamente no verão, que é quando se quer estar ao ar livre e não substituir a sala de estar pela do CCCB”.
Os refúgios climáticos são apenas uma peça do puzzle da adaptação das cidades às alterações climáticas.
Os refúgios climáticos estão a tornar-se mais comuns em todo o mundo. Cidades como Bilbau, Saragoça e Múrcia, em Espanha, Buenos Aires, na Argentina, Nova Iorque, nos Estados Unidos, e Santiago do Chile estão a seguir o exemplo de Barcelona e a construir as suas próprias redes de refúgios. Noutras cidades, como Lisboa, a Câmara Municipal não promoveu uma rede, mas um cidadão criou um mapa interativo onde é possível consultar os espaços para fugir ao calor. Uma iniciativa cívica semelhante às de Madrid, que surgiram em resposta à inação institucional.
“Estas ações são essenciais e penso que podem mudar vidas, mas, claro, não são suficientes. Os refúgios devem ser uma parte do puzzle mais vasto da adaptação climática urbana. São uma medida de emergência”, explica Ana Terra. De facto, fazem parte do plano “Barcelona pelo Clima”, que também inclui iniciativas como o programa “Superquarteirões”, destinado a aumentar os espaços verdes e a reduzir a utilização do automóvel.

A vantagem dos abrigos climáticos é o facto de serem relativamente fáceis de implementar e replicar pelas instituições públicas, uma vez que frequentemente reutilizam edifícios e espaços existentes. Além disso, beneficiam particularmente as populações mais vulneráveis, como as que não têm ar condicionado, os idosos ou os sem-abrigo. No entanto, o objetivo final deve ser a redução das temperaturas urbanas globais e a atenuação do efeito de ilha de calor urbano, um ponto em que tanto os especialistas como os cidadãos consultados concordam.
Para o conseguir, é necessário reduzir o asfalto, aumentar as zonas verdes e plantar mais árvores. Iniciativas como a iniciada pela Universidade Politécnica de Milão em 2018, que tem como objetivo plantar 3 milhões de árvores até 2030, que a longo prazo poderiam reduzir as temperaturas até 10ºC, atenuando simultaneamente a poluição atmosférica.
Embora ambiciosas, estas estratégias podem não só reduzir as temperaturas nas cidades do Sul da Europa, mas são também consideradas essenciais pelas Nações Unidas para melhorar a saúde pública nas zonas urbanas. “Temos de acabar por transformar realmente os municípios e, acima de tudo, quebrar as barreiras da desigualdade que existem em termos de possibilidades de adaptação”, conclui Jiménez. Os refúgios climáticos são apenas o primeiro passo nessa direção.







