Esta crónica é para o ilustrador. O leitor do costume já há-de ter reparado que, nas últimas semanas, sempre que escrevo umas frases, a caneta do Nuno Saraiva vem atrás. Eu invento a história, ele dá-lhe a imagem. Não é coisa pouca, bem se sabe, tentar pegar no que outra cabeça inventa. E mais difícil ainda, imagino, é manter aquele traço que faz com que toda a gente pense: “Ora ali está. Aquele boneco é do Nuno.” Para nós, pobres mortais, sabe a magia que um desenho identifique tanto como um timbre. Talvez para quem não escreva se julgue o mesmo de um texto, não sei. É que para mim o texto já tem voz.
A minha parceria com o Nuno Saraiva começou noutra casa, e outras mais virão. Entretanto, estamos aqui. Sem nos conhecermos, fomos juntos ao Alentejo há uns anos. Eu na minha casa, ele na dele. Eu meti dois lisboetas em Odemira, ele veio comigo para inventar como eram. Talvez tenha gostado da viagem – mas, caramba, estava calor, era tão cedo. Eu preferia outros pousos, e o tipo que inventei não era pêra-doce. Não o sabia gordo, foi pela mão do Nuno que lhe vi aquela pança. Enfim, em vez de o redimir, piorou à bruta. Ora, os dois lisboetas talvez ainda lá estejam, e quem sabe se estão mais enturmados com os vizinhos. Não importa e não sei se me interessa assim tanto a história deles. É que entretanto vim para norte, meti-me a escrever Lisboa. O Nuno meteu as sapatilhas nos pés, o pó talco, a vaselina – veio comigo. Na minha cabeça, e eu pouco sei de guionismo ou banda desenhada, esta última frase é uma dica. Meti-a aqui na narrativa mesmo com quem diz “Anda lá, Nuno, desenha-te aí.” Quero saber se os ilustradores são tão vaidosos como nós. É que os escritores escrevem melhor do que falam, os modelos do Instagram são mais bonitos com filtros, e isto faz-me perguntar se os ilustradores se fazem com a pele mais lisa, o cabelo mais hidratado. Estás aí, Nuno? Aposto que vais sair daí com uma barriguinha à CR7.

Adiante. Aproveito esta crónica, desta vez, só para fazer um teste. Eu sou gente que gosta de andar atrás a picar com um alfinete. A história começa desta forma: “Era uma vez uma bela mulher sentada numa cadeira da Biblioteca Nacional a escrever uma crónica para a Mensagem.” Nuno? Isto foi claro, pá. Topas a dica? Certeiro, imagético, directo do meu teclado para a tua caneta. Esta está mesmo a pedir ilustração, só com um quase nada de subjectividade. É evidente que se o boneco – santo deus – for muito diferente de mim vou ter de reclamar com a directora do jornal. Já me estou a ver toda indignada, toda diva: “Eh pá, ó Catarina, este tipo não percebe nada. Era óbvio que a gaja era eu, e ele meteu-se a fazer uma ruiva curvilínea de vestido, dando a sua interpretação – tão distante da minha e de mim – à palavra bela. Isto é só para me ir aos calos, é como dar-me com uma frigideira na cabeça só para me pôr no meu lugar.” E imagine-se o perigo de o pensar alto: e se o gajo se desenha a si mesmo, todo belo, másculo, cheio de músculo, a dar-me com uma frigideira na cabeça, e eu a cair por terra, em plena de sala de leitura em Entrecampos, entre os livros de genealogia e a varanda, em frente à tapeçaria de uns bacanos quaisquer, com toda a gente a olhar para mim? Isto de ter ilustradores é um perigo, e eu estava melhor calada, mas como testo o Nuno sem escrever? Os escritores são esta corja: inventamos problemas só para depois perdermos tempo aflitos em busca de soluções.
Enfim, bem sei que nunca nos demos mal e que o Nuno nunca fez nada que justificasse a guerra. Não me vou pôr aqui a demonizá-lo. O desgraçado só quer fazer os seus desenhos, tranquilo da vida, e nunca esperou que fosse convocado para o ringue, assim sem mais nem menos, comigo a chamá-lo em público, mesmo à crápula. Nunca houve uma palavra – um traço – fora do sítio a merecer a provocação. Mas uma parceria de trabalho, às vezes, é como um casamento – é preciso testar a ver se a coisa funciona. E eu em casa até sou um gatinho manso, mas venho ser tóxica e armar confusão para o trabalho. Enfim, melhor do que dar porrada na mulher, mas paciência. Com esta frase, espero que se tope que não é boa ideia bater-me nem com uma frigideira nem com nada. Mas a sério, coitado do Nuno: os leitores que se compadeçam, que ele nem sabia que raio esperar até receber a crónica. Abriu o email e esperou o costume: uma história sobre qualquer coisa que não ele, um grupo de hippies a marchar cachorros-quentes em frente ao estádio do Sporting, uma velhota em cima da ponte 25 de Abril durante a mini-maratona, uma família de anões no mega-piquenique do Continente na Avenida da Liberdade. O problema é que conviver com escritores é este entulho, é ter o azar de, volta e meia, se ver arrastado para a lama sem ter feito nada de mal.

Enfim, isto estava a correr bem, espero não ter metido a pata na poça. Se a tiver metido, que pelo menos ninguém me ilustre nessa indecência humilhante, que isto é crónica de Internet e a Internet é coisa pública. Nem do olho da minha tia-avó, lá longe em Celorico de Basto, conseguiria proteger-me. Mas que se lixe, agora já está, é o que é. O meu contrato com a Mensagem é o de fazer duas crónicas por mês. Se não me ouvirem daqui a quinze dias, é porque levei com os pés por ser tão rude. E, pá, ó Nuno, desculpa. Não é nada pessoal. Tu é que podias ter tido cabecinha. Podias ter sido padeiro, toureiro, carpinteiro. Podias ter ido para padre. Mas foste nabo e escolheste trabalhar com esta espécie profissional que é filha da mãe com toda a gente. Agora aguenta.

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Excelente: prosa e ilustrações. Há afeto nas palavras e uma quase intimidade gráfica. É como se me sentisse a devassar uma conversa a dois.
Sim, gostei.