A Celeste tinha o mesmo penteado da Fräulein Maria (Julie Andrews, no filme Música no Coração, 1965), o mesmo olhar doce e o mesmo sorriso aberto e caloroso. Não sei se cantava igualmente bem, ou sequer se cantava, mas aos meus olhos a Celeste entoava melodias bordadas com linhas de algodão. A semelhança física com a Fräulein Maria, agora que penso nisso, dava-lhe um “quê” de alegria que me contagiava e inspirava.
A loja do Antero – assim se chamava a retrosaria onde a Celeste trabalhava – era um mundo onde eu idealizava, a cada visita, o próximo projeto quando ainda estava a meio de outro. Essa perspetiva do que estava por vir exercia um fascínio imenso sobre mim.
Preciosos armários com portas de vidro e prateleiras infinitas exibiam lãs, linhos e tafetás, fitas, dedais, fios, cordões de seda, elásticos, fechos e galões, franjas e pompons, rendas, agulhas, missangas e pedraria, botões, linhas, caixinhas de costura, tesouras de arremate, de bordado e de picotar e um sem número de objetos de que só os retroseiros conhecem o glossário.
Multiplicavam-se caixas de tudo e mais alguma coisa.
Celeste usava o velho metro de madeira para medir os tecidos acrescentando sempre mais uns centímetros para agradar às freguesas e recomendava-lhes as linhas mais adequadas a cada trabalho, enquanto lhes perguntava pela família e pela saúde.
A mim, a Celeste vendia felicidade em meadas de linhas numeradas com as quais eu dava corpo aos meus bordados a ponto de cruz. E linho, que por recomendação da minha mãe deixava os bordados mais nobres por oposição ao quadrilé, mais corriqueiro, da mesma forma que bordar a 2 fios deixava o trabalho mais fino do que os 3 fios convencionais.
Em Lisboa reencontro-me frequentemente com a lembrança da Celeste na Rua da Conceição, em tempos Rua dos Retroseiros. Em 1760, cinco anos após o terramoto que devastou Lisboa, o rei D. José decretou que as ruas do quadrilátero entre o Rossio e a Praça do Comércio teriam nomes ligados aos ofícios que ali predominariam: à Rua do Retroseiros juntaram-se paralela ou perpendicularmente a Rua dos Fanqueiros, onde se instalaram os mercadores de fancaria, seguindo a mesma lógica a Rua dos Sapateiros, a Rua dos Bacalhoeiros, a Rua dos Douradores, a Rua da Prata ou a Rua do Ouro.
Achei sempre genial esta compartimentação da baixa da cidade, tão bem arrumada e organizada quanto as caixas de botões e linhas nas retrosarias. Reposiciono a bússola rumo à Rua da Conceição. Aquela que foi outrora o paraíso das modistas e bordadeiras é também, para mim, um lugar bom de estar. É certo que já foram 15 e hoje são apenas quatro as retrosarias que resistiram à passagem do tempo e à erosão provocada
por uma nova dinâmica de consumo.
Mas o seu encanto continua lá.
Diria até que as retrosarias da Baixa têm hoje ainda mais encanto por se terem mantido fiéis ao que sempre foram, exibindo os mesmos armários de portas de vidro e as mesmas prateleiras que guardam caixinhas, linhas, agulhas, tafetá, botões, fechos e galões. Relíquias, portanto. O metro de madeira continua ativo na sua função. Quem está atrás do balcão mantém a deferência e os cuidados para com os clientes, como a Celeste também fazia.

Retrosaria na Baixa de Lisboa. Foto: Rita Ansone.
Uma das retrosarias ostenta uma antiga máquina registadora em bronze, com gaveta em madeira de carvalho. É da NCR – National Cash Register Company fundada por John Henry Patterson em 1884 em Dayton, Ohio, nos Estados Unidos. Consigo imaginar os muitos “plins” que terá feito, agora inaudíveis, e cujo objetivo era o de impedir que funcionários desonestos tirassem dinheiro da caixa.
O “plim” servia justamente para avisar o proprietário de que uma venda tinha sido registada. Com a fineza característica da época, a máquina anuncia que “o freguez verá no mostrador a importância da sua compra”.
Quão precioso é este novo-velho mercado da saudade, capaz de nos colocar numa máquina do tempo?
Resgatei do armário uma tapeçaria com motivos medievais que comprei há anos na loja do Antero e que viveu inacabada todo este tempo. Voltei a abrir as caixas para sentir a textura das meadas de lã com tonalidades de azul, ocre, bege e vermelho-sangue. Estendi sobre o colo a talagarça tingida, peguei na agulha de bico arredondado através da qual fiz passar a lã e retomei o meu bordado a meio ponto. Senti-me incrivelmente viva, a reviver aquela sensação boa de um projeto que avança e se concretiza pelo poder das minhas mãos.
As meadas do azul 7228 acabaram antes do tempo dando-me um motivo para voltar a ser cliente numa das retrosarias da baixa. Passei com os dedos sobre as lãs do catálogo de cores como se não soubesse já a referência que queria comprar, e comecei a sonhar com o meu próximo projeto, sempre maior e mais ambicioso que o anterior. Porque não Arraiolos? O que acharia a Celeste?
Quem entra numa retrosaria não tem necessariamente de pedir ao balcão meio metro de saudade e três carrinhos de linhas de nostalgia. Pode muito bem descobrir um novo prazer, ou redescobrir um antigo, e trazer para casa felicidade embrulhada num pacote de papel pardo e engalanada em linho ou tafetá, com cheirinho a Edelweiss.

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Para mim entrar numa retrosaria “ como a Antero, onde encontrávamos sempre a saudosa Celeste” é entrar num sonho que já passou e num outro que começa assim que sinto as linhas de seda nas mãos. É uma sensação única!
Gostei muito da linda e justa homenagem à” Celeste”.😘🌻