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Até meados de Oitocentos, o fado era essencialmente uma canção de rua que transportava na voz de quem a cantava – regra geral, canalhas e mulheres da vida – as suas tragédias pessoais, que tanto podiam estar relacionadas com mortes e traições como com o destino de miséria que lhes calhara em sorte.

Nas franjas da cidade, era ouvido em tabernas e casas de pasto pelos que traziam das quintas para a capital os frutos e legumes que aterrariam nas mesas de burgueses e aristocratas; e, sempre cantado e tocado por malandros, faias e prostitutas, foi ganhando má-fama entre a população bem-comportada.

Porém, no dealbar do século XX, fosse pela evolução das melodias – agora com estruturas mais sofisticadas e reconhecíveis –, fosse pelas letras – que traduziam já preocupações sociais e um cuidado notório com a linguagem –, o fado começou a atrair jornalistas, intelectuais e estudantes universitários, até que inevitavelmente conquistou a fidalguia.

Vendo então crescer o número de apreciadores daquela “canção decadente”, os mais conservadores começaram a escrever na imprensa artigos que demonizavam o fado, considerando-o um perigo para a ordem pública e tratando-o verrinosamente por “choradinho” ou “besuntão”; entre esses, destacam-se Albino Forjaz de Sampaio – que, no seu livro Prosa Vil, diz que o fado é uma canção de “vadios e criminosos” e que só serve para “fazer chorar meretrizes e borrachões” – e um tal Dr. Félix, que, escrevendo habitualmente sobre saúde e higiene na Ilustração Portuguesa, sai da sua zona de conforto para alegar que o fado não deveria entrar nos salões nem meter-se entre gente culta, porque “uma rameira, por mais que tente, não é capaz de ser rainha”.

Mas eis que, do outro lado da barricada, se levanta a voz do fadista e letrista Avelino de Sousa – tipógrafo de profissão, socialista e autodidacta –, que responde aos detractores do fado numa dezena de crónicas inflamadas, publicadas no jornal A Voz do Operário e reunidas mais tarde no livro O Fado e os Seus Censores, que abre justamente com uma carta do “ilustre poeta” Júlio Dantas, o famoso autor do fado Rua do Capelão.

E que bela defesa faz Avelino de Sousa da sua “dama”!

Começando por se dirigir ao Dr. Félix, diz que há muitas “rameiras com alma e muitas rainhas que são rameiras”, dando logo o exemplo de Leonor Teles, que se sentou no trono de Portugal e foi uma rameira do pior; e a Albino Forjaz de Sampaio, além de o acusar de ser “um artista de molduras reluzentes e vistosas, mas um fraco pintor de telas”, descobre-lhe a careca, alegando que já o ouviu cantar os próprios “versinhos” num fado (e jurando ter uma fotografia a comprová-lo); e, sobre a questão de os fadistas serem “criminosos”, responde que também há “muito ladrão de casaca e chapéu alto”.

Mas a delícia é mesmo a sua prosa; rebuscada e metafórica, chega ao auge quando, comentando a menção às “meretrizes e borrachões”, declara que “no lodo também nascem flores” e que o fado, mesmo vindo do lodo, é a mais viçosa de todas elas; e concluiu:

“Cantam-no os lábios juvenis de crianças mimosas, cantam-no as róseas bocas das mães que as acalentam, e as marfinadas gargantas das virgens castas! […], cantam e hão-de cantar sempre enquanto a doce vibração da guitarra se repercutir por toda a perfumada, ubérrima e formosíssima terra portuguesa!”

Viva o fado!

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Maria do Rosário Pedreira

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