Os barquinhos ancorados no pequeno cais dos Ferroviários do Barreiro balançam ao sabor da maré. Para além do par de velhos moinhos desativados à beira do Tejo, a silhueta dos prédios do Seixal e do Cristo-Rei em Almada compõem uma curiosa ilusão de óptica, como se o Barreiro, também no lado oposto a Lisboa, não fizesse parte dessa Margem Sul do rio.
O Barreiro como uma “terceira margem do Tejo”, a terceira margem do rio do conto de Guimarães Rosa. É com esse olhar poético que o escritor e editor brasileiro Wladimir Vaz enxerga a cidade para onde se mudou há dois anos, trazendo na bagagem a editora Urutau, um pequeno milagre da literatura independente, criado por ele em 2015.
“Sempre levei a editora comigo na mochila”, conta Wladimir Vaz, ou Wlad, como é conhecido o filósofo de formação nascido em Socorro, no estado de São Paulo, há 38 anos e que, antes de aportar no Barreiro, já havia levado a Urutau na mochila para viver na Galiza e na Irlanda.

Urutau, um nome inspirado no mítico pássaro da América do Sul e que agora bate as asas deste lado do Atlântico para agitar as águas da literatura, publicando a partir do Barreiro autores brasileiros, portugueses e galegos, abrindo as portas a romancistas, poetas e ensaístas aos leitores em Portugal e no Brasil, onde a chancela também é editada.
Autores antes à margem do mercado editorial e que agora encontram um porto seguro nesta “terceira margem do Tejo”. A iniciativa tem rendido frutos. Nos últimos anos, os nomes nas capas da Urutau figuraram entre finalistas e vencedores de prémios literários.
Em 2023 e 2024, a Urutau liderou a lista de semifinalistas do Oceanos, o mais prestigiado prémio literário da lusofonia: neste ano, são seis os semifinalistas. Só a gigante Companhia das Letras do Brasil conseguiu fazer frente, com o mesmo número de autores ainda em disputa. No ano passado, dois títulos da editora foram finalistas do Jabuti, o mais tradicional galardão brasileiro.
Wlad sorri diante do histórico recente. O homem das letras é também um homem de poucas palavras e, após um tempo em silêncio apenas a olhar os barcos a ondularem no pequeno cais, encaixa na resposta um esboço de “missão empresarial” da sua nada empresarial editora independente:
“O reconhecimento é apenas um bom sinal, mas não é o mais fundamental. A Urutau não é movida pelos prémios nem por outros parâmetros comerciais, mas por algumas lutas, em promover uma biodiversidade literária pela publicação de pensamentos divergentes, através de vozes antes silenciadas pela sociedade”, explica o editor.
Entre essas vozes silenciadas, as dos imigrantes, das mulheres, das mulheres trans e dos povos originários do Brasil. Uma escolha inspirada no pensamento de um português bastante conhecido, o escritor José Saramago, que ao lançar o livro A Caverna no Brasil, comentou: “Nasci num mundo injusto e certamente vou morrer num mundo injusto”.
Uma sentença que Wlad parafraseia e complementa num informal slogan da editora: “A nossa luta é tentar deixar esse mundo um pouco menos injusto”.
Na “terceira margem” do Tejo, um porto seguro
Assim como a terceira margem de Guimarães Rosa, um ponto abstrato entre as habituais duas margens de um rio que simboliza o desconforto existencial de não se sentir seguro em nenhuma delas, a Urutau não ocupa um espaço físico típico de um empreendimento, com morada, paredes, escritório, carpete no chão, funcionários e cartão de picar o ponto.
A editora existe, ao mesmo tempo, em nenhum lugar e em todo o lugar onde Wlad estiver, como naquela esplanada ensolarada com o chão em terra batida, o vento no rosto e os barquinhos a balançar no rio. Existe sobretudo na cabeça e no coração do editor e poeta e de outros dois – na falta de uma referência melhor – “sócios”.
Tiago Fabris e Débora Ribeiro são a Urutau no Brasil. Profissionais das áreas de linguística e das letras que se revezam no imenso trabalho de curadoria, revisão, edição, publicação e divulgação de dezenas de títulos lançados por ano nas áreas de literatura geral, nativa, política, fantasia, infantojuvenil, académicos, entre outros, como uma recente ficção palestina.
Quantos títulos por ano, mesmo?
“Bicho, não tenho a mínima ideia, pois não controlo tanto assim o catálogo brasileiro”, desconversa Wlad, livre das amarras dos números do Excel assim como o urutau voa no céu. A informalidade, mais do que a consequência de um processo “amador” no sentido stricto de se amar o que faz, é a estratégia de resistência ao status quo.
É a resposta filosófica do filósofo às injustiças do mundo, que quase todo o imigrante conhece bem, saltando entre trabalhos precários, equilibrando-se como um funambulista no fio da incerteza constante. Antes de “ganhar o pão” com a editora, Wlad fez pão em casa para vender para fora e ainda conduziu uma bicicleta de entrega de refeições.

A vivência de imigrante uberizado, sujeito ao olhar sempre desconfiado dos “donos da casa” e catalisador de todas as mazelas da sociedade, inspiraram uma das mais icónicas séries publicadas pela Urutau, com o título autoexplicativo de Volta Para Tua Terra, uma antologia antirracista e antifascista de autores estrangeirxs em Portugal.
Autores do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau e Moçambique, mas também da Colômbia, Espanha, Itália, Guadalupe, Guiana e Israel, imigrantes que não estão na sua margem de origem nem encontraram o esperado acolhimento na outra margem, perdidos como no conto do Guimarães Rosa, no limbo de uma “terceira margem”.
Entre os nomes na antologia, com curadoria e organização da poeta e pesquisadora Manuella Bezerra de Melo, três são de etnias indígenas, duas mulheres trans e vinte pessoas negras. Já são três volumes, publicados em 2021 e 2022, com o terceiro prometido lançado neste mês de setembro, na Feira do Livro do Porto. No primeiro, participaram 31 mulheres e 28 homens. No segundo, 29 mulheres e três homens.
“Volta Para Tua Terra é a tentativa de transformar o imigrante de objeto de uma narrativa em sujeito de sua narrativa, criando a sua própria epistemologia. É também abrir os olhos dos leitores à voz do outro”, explica o editor, fiando as pontas do bigode com os dedos.
Literatura de luta, com viés político de esquerda
Apesar de pregar a importância da visibilidade do discurso, Wlad utiliza o mesmo artifício da ave que escolheu como símbolo da editora, o urutau, conhecido como “pássaro-fantasma”, pela capacidade de se camuflar entre as árvores dos seus caçadores, um parente próximo da coruja e do mocho que protagoniza várias lendas na América do Sul.
Uma ave discreta, mas que não foge à luta. Assim como a editora que batiza também não.

“A literatura e a arte em geral tem o seu papel político. É o termómetro que mede o calor do momento. Isso não é novo, mas às vezes é esquecido. Os nossos títulos refletem o debate na sociedade, não só as questões de racismo e xenofobia, mas colonialista, de género. Tentamos trazer o discurso das ruas para o nosso parlamento, os livros”, explica.
Discursos diversos, angariados através de um calendário regular de “chamadas”, abertas mensalmente no site da editora, destinado a autores residentes em Portugal, na Galiza e também no Brasil, onde a convocatória, para atender às dimensões continentais do país, ocorre por fase entre os estados.
Até 2o de setembro, decorre a chamada para os futuros autores em Portugal, destinada a obras em poesia, conto, novela, romance e dramaturgia.
Aos interessados, dois fatores podem ajudar:
“Damos, sim, preferência aos autores com uma narrativa com viés do pensamento de esquerda. Escritores em busca de uma primeira publicação também fazem parte da nossa luta”, reforça Wlad.
Além da luta política, outra marca registada é a leveza do projeto gráfico e a beleza das capas assinadas por Victor H. Azevedo e pelo próprio Wlad. Como não poderia deixar de ser, a gratidão também está no ADN da Urutau. É por ela que os livros continuam a ser impressos na vizinha Galiza, na mesma gráfica que abraçou o projeto na sua fase embrionária.
A distribuição é um capítulo à parte. Como acontece em qualquer editora independente, as tiragens são limitadas e nem sempre atendem às exigências das grandes redes livreiras. A solução são os circuitos de livrarias independentes, capitaneado pela RELIa, Rede de Livrarias Independentes.
Em Lisboa, os livros da Urutau são encontrados em livrarias filiadas à RELI, como a Ler Devagar, a Casa do Comum, a Tigre de Papel, a Travessa e Snob, esta última responsável também por operar como distribuidora das independentes, uma promoção que se completa com a estratégia “formiguinha” da editora e dos autores nas redes sociais.

No somatório, a luta do editor brasileiro em abrir as páginas da literatura às vozes silenciadas pode ser resumida no título da última compilação de poemas de Wladimir Vaz, Para quem está se afogando, crocodilo é tronco, retirada de uma famosa expressão brasileira que encerra o espírito de não desistir nunca e em hipótese alguma.
Se tem valido a pena? Wlad novamente desconversa. “Somos uma editora à margem e seguiremos à margem. Está bom assim”, resume.
O que faz todo sentido, pois é da margem que se vê o rio da vida passar.

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
✉ alvaro@amensagem.pt

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A prime experiência de publicação não correu bem, tenho mais para publicar, vou faltar convosco.
Abraço e bom trabalho.
Pois é, acho que nao é somente o Antonio (comentario acima) que teve uma experiencia extranha com essa editora…..
Minha interacao nao foi da melhores – uma posicao muito radical da editora em somente interagir com questionamentos ou duvidas. E depois, soube que nao fui somente eu ou o Antonio.
Parece ter os meritos, pois sabemos que edicao de livros no Brasil nao é pra qualquer um, mas parece ser algo meio abusivo.