A cena viralizou: a repórter da CMTV entrevistava uma transeunte sobre a sensação de ter visto a terra tremer em Lisboa quando uma outra mulher, uma brasileira, interrompeu a entrevista para anunciar para quem quisesse e também para quem não quisesse ouvir, que Jesus estava voltando, trazido pelo sismo.
Disse e repetiu, está voltando, sim, Jesus está voltando, insistiu, uma terceira e quarta vez, antes de desaparecer como apareceu, assim como um sismo, ruidoso e trepidante.
Um amigo benfiquista ficou logo sobressaltado, pois pensava que Jesus voltaria ao banco do Benfica, no lugar do mal-amado técnico alemão.
Mas não, era o outro Jesus, menos famoso entre os adeptos, aquele que veio ao mundo não como treinador para garantir um título, mas para salvar todos nós, independente de credos clubísticos, e garantir um lugar na Champions League do céu.
Aquele mesmo Jesus que, segundo a minha compatriota evangélica a bradar no microfone da CMTV, iria retornar trazido pelo tremor de terra no último sismo em Portugal.

Não é seguramente de agora, mas certamente é mais visível agora, que dentre os vários perfis da imigração brasileira para Portugal, do operário braçal aos boçais milionários da Linha de Cascais, passando pelos profissionais liberais e os libertinos, destaca-se uma leva bem peculiar: a dos brasileiros evangélicos.
Nada contra os fiéis, atenção lá, nada contra os crentes evangélicos, que o máximo de distúrbio que podem causar à sociedade, para além de jurar que você vai para o inferno, resume-se às pregações em viva e alta voz em transportes e vias públicas e eventuais interrupções nas transmissões em direto das emissoras de TV.
O problema não é o rebanho, mas alguns pastores, principalmente os CEOs do milionário negócio da fé, que são capazes de fazer o que o diabo duvida por um trocado, inclusive, meter-se com gente que tem sempre Deus na ponta da língua, mas nunca no coração.
No Brasil, o negócio do fanatismo tem se misturado ao negócio do fascismo, abençoando a liberação do uso das armas, a perseguição aos diferentes, oprimindo o direito das mulheres e das minorias, tentando controlar a todo custo, além da alma, o corpo das pessoas.
Um Deus neurastênico, vingativo e negacionista, ao serviço da extrema-direita, quando todo mundo sabe que o coração, o órgão do amor, bate mesmo é do lado esquerdo do peito.
Não se trata aqui de demonizar os evangélicos em relação a outras religiões, todas elas na sua essência com potencial de bálsamo às dores do mundo, mas que corrompida por interesses mundanos, fatalmente terminam com sangue nas mãos.
A história ensina que as religiões, em algum lugar no tempo e espaço, um dia já deixaram de lado os bons princípios para servir a tiranos e genocidas, usufruindo das benesses do poder, pregando, catequizando e perseguindo em nome dos interesses próprios.
Os evangélicos são apenas uma versão 2.0 do velho e gasto modelo, com a agravante de terem o péssimo hábito de converterem cinemas em templo.
Assim como outros negócios made in Brasil, como depilação total e as lojas de açaí, os evangélicos expandiram-se por Portugal. Antes, apenas como um vizinho barulhento que acordava todo mundo cedinho aos berros no culto dominical – afinal, tirar o diabo do corpo exige alguns decibéis a mais – mas nos últimos tempos, de uma forma mais perigosa.
Uma professora de biologia de um dos tradicionais liceus de Lisboa confidenciou que foi procurada pelo pai de um aluno brasileiro, um pastor, para saber o que era aquilo que estava a lecionar, sobre o homem ter vindo do macaco e não do barro moldado por Deus.
Eu sei, é ainda uma ação isolada, desarticulada, não se pode tomar um pelo todo, mas começa a ficar perigoso, inclusive, para nós brasileiros.
Perigoso pois, seguindo a cartilha da atuação no Brasil, os evangélicos aqui já começaram a andar em má-companhia, aliando-se também ao espectro – com todos os sentidos semânticos do termo – da extrema-direita.
O que, na sua versão portuguesa, ao lado dos suspeitos de costume, vê no imigrante um perigo iminente à paz social, o que no modelo fascista lusitano, diferente do brasileiro, inclui nós brasileiros.
Há entre os cinquenta homens de bem da ultra direita no Parlamento português o nosso velho conhecido tipo de pastor, a pregar pelo bem da família e da pátria, gastando o nome de Deus em vão, para reeditar aqui a nossa “bancada da bíblia”.
E outros tantos agindo nas sombras, em silêncio, mas não menos perigosos, a financiarem as ações com o dízimo suado dos fiéis.
Pois como diria o outro, templo é dinheiro.
Um amigo ateu costumava dizer que quando se fala muito em Deus, é sinal de que ele não está por perto. Talvez por isso, quando um evangélico se aproximava com sua pregação habitual, tentando converter sua alma tratando-o por “meu abençoado” para cá e para lá, ele virava as costas e murmurava:
– Faz o teu, bença, que eu faço o meu.
Devia ser por aí.
O meu vizinho de baixo em Lisboa é pastor e em nada reflete o que ouço sobre atuação de certos pastores evangélicos. Pelo contrário, respeita as minhas escolhas, nunca tentou me converter, muito menos me julgar pelos meus pecados, inclusive, o pecado capital de ter um filho pequeno que trota como um estouro de búfalos pela sala altas horas da noite.
Gostaria de pensar que o meu vizinho pastor em Lisboa é a regra e não a exceção entre os pastores, mas o exemplo brasileiro me deixa preocupado de que o aumento da atuação evangélica em Portugal termine como no Brasil, na tentativa de condicionar as decisões políticas em nome do retrocesso e da segregação.
O ideal seria a política lá e cá se comportar igual ao meu amigo ateu, que virasse as costas para a tentação de se meter com a religião, seja qual fosse a religião, e anunciasse, pelo bem da democracia:
– Faz o teu, bença!

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
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