Há uns anos, Camané cantou durante um concerto ao vivo um fado bastante fora da caixa chamado Gola Alta que eu nunca ouvira antes; ora, como artista sério que é, no fim informou o público de que a letra lhe tinha sido oferecida pelo poeta Henrique Segurado – e aquele nome tocou campainhas na minha cabeça, mas não consegui lembrar-me de onde o conhecia.
Chegada a casa, acabei por recordar-me de que Henrique Segurado (Pavão) fora um dos fundadores das Livrarias Castil, que nos anos oitenta fizeram história em Lisboa quando apareceram os primeiros centros comerciais, como o Castil, o Alvalade ou o Fonte Nova.
Eu não tinha, no entanto, qualquer memória daquele nome ligado à poesia do fado (mea culpa); e foi só muito mais tarde, quando comecei a fazer pesquisa para uma antologia de letras escritas por poetas eruditos (Esse Fado Vaidoso, que assinei com Aldina Duarte e saiu para o mercado em 2022), que descobri que Henrique Segurado também escrevera para Amália Rodrigues.
Porém – é importante dizer –, a sua relação com a diva não foi apenas a de um mero letrista ocasional; fã confesso de Amália, era amigo do peito de Rui Valentim de Carvalho, e os dois eram frequentadores assíduos do camarim da estrela no Teatro Variedades, que se enchia todas as noites de admiradores e ramos de rosas.
Com 17 e 16 anos, respectivamente, Henrique e Rui estavam ambos apaixonados pela fadista; e, um dia, sedentos da sua atenção, decidiram pedi-la em casamento no fim do espectáculo, explicando que ela era livre de escolher com qual dos dois queria dar o nó, pois eles eram amigos a valer e não se zangariam, escolhesse ela quem escolhesse.
Amália, sensivelmente dez anos mais velha do que os rapazes, deve ter tido uma enorme vontade de rir perante o descaramento deles; mas, em vez de os mandar embora, disse-lhes que iria pensar e lhes daria a resposta no dia seguinte.
Todos podemos imaginar a nervoseira dos dois pretendentes nas vinte e quatro horas que antecederam a revelação; mas essa não foi, nem de longe, a esperada.
Estendendo-lhes um cartão com uma morada manuscrita, Amália pôs caras éria e explicou que se tratava do endereço do Liceu Maria Amália, onde estudava a sua irmã Odete (a Detinha), que – essa, sim – estava na idade ideal para namorar com um deles.
Os rapazes ficaram embuchados, está claro, mas nunca se zangaram com Amália: Rui Valentim de Carvalho acabaria por tornar-se o seu principal editor discográfico quase toda a vida; e Henrique Segurado acabou por escrever para ela algumas letras, entre as quais o belíssimo Ano Luz, que a fadista rebaptizou como Seja Pedro ou Seja Paulo.
…e que aqui transcrevemos para quem não conhece.
Seja Pedro ou Seja Paulo
Seja Paulo ou seja Pedro
Tudo acontece na altura
E já vai crescendo o cedro
Onde terei sepultura.
Mas Pedro é bom de dizer
Lembra pedra, lembra Papa…
A cidade onde eu morrer
Já é um ponto no mapa.
Vivemos emparedados
– Bem triste realidade –
Se à Terra estamos ligados
P’la força da gravidade.
Cairo, Xangai, Pontevedra
Mudam a nossa figura…
Já terão talhado a pedra
Para a minha sepultura?
Ah! Como o tempo escasseia!
Penso um ano num segundo.
Todo o deserto é areia
Na ampulheta do Mundo…
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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