É a segunda coletividade mais antiga de Lisboa, um baluarte de quase 140 anos de história e dedicação à comunidade de Marvila. Foi fundada na data que lhe dá nome: Sociedade Musical 3 de Agosto de 1885. Porque a ideia inicial dos fundadores do clube não era criar mais uma equipa de futebol, era criar uma banda. O que, na verdade, nunca aconteceu. Desde então, tem sido um ponto de encontro para gerações de moradores, no futebol e… nas marchas. E é nisto que este clube se distingue entre tantos outros daqueles que tenho falado nesta série de crónicas, “Chelas é futebol”.

Ouça aqui o episódio:

Para falar deste clube é preciso falar de Marco Silva, presidente desde 2013. Ele que se tornou numa figura central na continuidade e revitalização da Sociedade Musical, que esteve quase para desaparecer do mapa.

Nascido e criado no antigo Bairro Chinês, aqui mesmo, em Chelas, Marvila, Marco cresceu envolvido no ambiente do clube, que a família frequenta desde que se lembra. A mãe, juntamente com os dez irmãos, participou ativamente nas marchas do clube durante anos, o que fortaleceu este vínculo emocional (e até familiar).

Marco nunca esteve nas marchas. O início dele dá-se com os pés na bola: depois de ter jogado no Oriental dos 7 aos 20 anos, encontrou no 3 de Agosto uma nova vocação como treinador de futsal, após concluir um curso na modalidade.

A formação académica em Ciências da Educação reflete o desejo de contribuir para a comunidade de Marvila. Um objetivo que o motivou a entrar no clube numa altura crítica, ajudando a evitar o fecho de portas.

E o plano que era de dois anos passou para mais de uma década de trabalho ao serviço do clube.

O futsal é hoje, aliás, a principal modalidade desportiva no Sociedade Musical 3 de Agosto de 1885, com 5 equipas federadas: as equipas femininas nos escalões sénior e juvenil, e equipas masculinas sénior A e B, além de juvenis.

Diferente dos clubes dos episódios anteriores, este não tem grandes feitos no futebol e variantes, apesar de tantos anos de história. Para além do futsal, há aulas de zumba e teatro, mas a joia da coroa é mesmo a famosa Marcha de Marvila, a atividade mais popular e tradicional desta coletividade.

Das marchas à bola

Desde a fundação, a marcha tem sido um veículo de expressão cultural e identidade comunitária que envolve gerações de marvilenses. Nos desfiles das Marchas Populares de Lisboa, que acontecem anualmente no mês de junho em celebração dos Santos Populares, a Marcha de Marvila tem sido destacada pela criatividade, energia e dedicação. Em 2024, o grupo conquistou um notável 2.º lugar. E, historicamente, é a quarta marcha com mais vitórias.

Os desfiles das marchas são uma competição acirrada onde cada bairro de Lisboa exibe os trajes coloridos, inspirados nos velhos emblemas, onde se dançam coreografias elaboradas e músicas tradicionais, num ensaio que leva longos meses. Entendo-as como mais do que um evento festivo: elas são um reflexo da alma dos bairros de Lisboa. E, para Marvila, a marcha é um símbolo de coesão e orgulho bairrista, que fortalece os laços entre pessoas de todas as idades num projeto comum.

Mas o significado das marchas está ameaçado pela crescente gentrificação de Lisboa.

À medida que os preços das habitações sobem e a cidade torna-se um destino turístico de destaque, muitas das comunidades bairristas são forçadas a mudar-se para áreas periféricas. Este êxodo resulta num esvaziamento cultural, onde tradições como as marchas perdem as raízes locais.

As comunidades dos bairros tradicionais são substituídas por pop ups de alojamento local e a transmissão destas práticas culturais torna-se cada vez mais difícil.

Ainda assim, o Sociedade Musical 3 de Agosto de 1885 mantém-se na sua missão firme: através da Marcha de Marvila, contribuir para a preservação desta herança cultural. Conta com 130 atletas federados, aos quais se somam 44 da marcha infantil e 100 da marcha adulta.

Marco diz que as gerações mais novas vão demonstrando menos interesse, mas trabalha-se para combater esse afastamento.

Como muitos clubes comunitários, a Sociedade Musical 3 de Agosto enfrenta desafios financeiros significativos. Uma grande percentagem dos sócios não paga quotas, o que complica a sustentabilidade financeira. As instalações do clube são cedidas pela Câmara Municipal de Lisboa, mas todos reclamam ser inadequadas para as necessidades das atividades, especialmente para os ensaios das marchas. O espaço é pequeno para acolher o número de marchantes, principalmente quando vestidos com trajes de competição e a carregar os grandes estandartes.

Apesar das dificuldades, o querido dos marvilenses, 3 de Agosto de 1885, continua a ser um testemunho da resiliência e do espírito comunitário desta zona oriental da cidade.



Airton Cesar Monteiro

Airton Cesar Monteiro é imigrante cabo-verdiano lisboeta, licenciado em Relações Internacionais (não praticante) e convicto agitador social. Dedicado a escrever sobre mudanças sociais, cultura e o que mais lhe apetecer.


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