O tradicional desfile das Marchas Populares do dia 12 de junho deste ano ainda não terminou. Os marchantes desceram a Avenida da Liberdade, dançaram, cantaram e foram aplaudidos, um vencedor foi conhecido, houve celebração e festa durante a madrugada de um lado de Lisboa, tristeza do outro. Mas, ainda assim, a questão parece longe de estar encerrada.
Uma divergência na interpretação do regulamento, punições somadas, pontos subtraídos, multiplicada pela paixão à tradição lisboeta e dividida por uma interpelação judicial pode, no fim das contas, fazer da marcha deste ano a mais longa da história, cumprindo um enredo que poderia muito bem ser o tema de um desfile: o Arraial no Tribunal.
O que está em causa, afinal? Um dos elementos cenográficos utilizados no desfile, o Arraial (não confundir com os arraiais espalhados pelos bairros), acabou por estar no centro da discórdia; neste caso, o Arraial da Marcha de Alfama, penalizada pelo júri com a perda de dez pontos por ter sido, na interpretação dos jurados (personagens do panorama musical e artístico português), conduzido de forma irregular durante a apresentação – tudo por causa da figura de “aguadeiros”, mas já lá vamos à explicação.
Dez pontos que custaram a liderança a Alfama, relegada por isso ao terceiro lugar na classificação geral – atrás das marchas do Bairro Alto, que subiu ao segundo posto, e da Bica, alçada portanto à campeã deste ano.

A decisão dos jurados, porém, não convenceu os marchantes de Alfama. Após recorrerem à Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) da Câmara de Lisboa, responsável pela organização da marcha, e verem a punição mantida, Alfama decidiu entrar com uma interpelação judicial no Tribunal Administrativo.
E o Arraial no Tribunal pode arrastar a definição sobre a manutenção ou não do resultado por anos, evitando inclusive a cerimónia de premiação dos vencedores de 2023.
Como todo o enredo tem reviravoltas surpreendentes, uma das partes convocadas por Alfama para testemunhar a seu favor é a Marcha do Bairro Alto, vizinha e rival na Freguesia da Misericórdia da campeã Marcha da Bica.
E aí entra o tempero do bairrismo.
Pois se a Justiça acatar a interpelação de Alfama, o Bairro Alto cairia do segundo para o terceiro lugar. Mas, em compensação, a vizinha e rival Bica perderia o título de campeã do ano.
Adereço ou cenografia, eis a questão
Em causa está o artigo 12.º do regulamento das marchas, que prevê as funções de exclusividade dos aguadeiros (um dos componentes operacionais da marcha), entre elas a de “colocar e retirar adereços necessários à execução da coreografia”.
Mas Alfama foi punida, no entendimento do júri, justamente quando os marchantes saíram do pavilhão para o desfile e fizeram a função dos aguadeiros, no Arraial. A suposta infração escapou aos olhos dos jurados, mas não dos verificadores – fiscais que acompanham a execução da marcha.
Mas o artigo 12.º prevê a perda de dez pontos em caso de infração. E Alfama, que tinha terminado quatro pontos à frente da Bica, caiu para terceiro lugar.
“Tradicionalmente, o Arraial sempre foi levado pelos marchantes na saída para o desfile”, explica o coordenador da Marcha de Alfama, João Ramos. “Até para não infringir o regulamento e a marcha ser punida por se considerar que os aguadeiros estavam a desfilar”, completa.
A defesa de Alfama é a de o Arraial ser uma “figura”, um elemento da marcha pertencente à cenografia, como o Trono de Santo António, e não um adereço, evocando o mesmo regulamento, no caso o artigo 17.º, que o classifica como tal nos itens 2 e 5.
João Ramos aponta ainda o que diz ser uma incongruência no entendimento dos verificadores. “No desfile na Liberdade, ocorreu da mesma forma: o Arraial foi levado pelos marchantes e não houve punição. Decidiram ser uma infração apenas no desfile no Parque das Nações”, argumenta.

Para o coordenador da Marcha de Alfama, a resistência da EGEAC em reconhecer o erro é justificação suficiente para ter aberto uma ação judicial.
“Não se trata de uma queixa ou de não aceitar o resultado, de não saber perder. É uma questão de justiça. Alfama entende que não houve violação do regulamento e que a decisão do júri acabou por nos prejudicar”, afirma João Ramos.
João Ramos garante ainda que Alfama está disposta a voltar ao tribunal e impedir judicialmente a entrega dos troféus no caso de uma data ser marcada pela EGEAC.
Data da premiação à espera de “agendas”
As outras partes envolvidas, por sua vez, preferem passar panos quentes no imbróglio e afirmam que a indefinição da data para a premiação não tem a ver com questões jurídicas.
“Normalmente, a entrega dos troféus acontece em fins de novembro e até na primeira quinzena de dezembro. Ainda não há uma data, pois estamos à espera das agendas dos vereadores e do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas”, explica o presidente da EGEAC, Pedro Moreira.
O coordenador da Marcha da Bica, Pedro Duarte, também minimiza o recurso da concorrente Alfama à Justiça e um suposto atraso na premiação. “Corre tudo dentro da normalidade. Lembro-me de, em outros anos a premiação ter sido próxima ao meu aniversário, em dezembro”, afirma.

Pedro Duarte ressalta ainda que a Marcha da Bica já perdeu títulos após ser penalizada com a perda de pontos e de ter acolhido o resultado sem apelar a tribunais.
“O júri fez o seu trabalho. As sanções à outra marcha foram bem aplicadas e agora nos resta esperar para receber o troféu que é nosso por direito”, diz Pedro Duarte.
Sobre a possibilidade de a vizinha Marcha do Bairro Alto testemunhar a favor de Alfama, o coordenador da Bica duvida sobre até onde os vizinhos estão dispostos a perder uma posição no pódio em nome do bairrismo. “Mas se o fizerem, não deixa de ser estranho, não é. Dá o que pensar, não dá?”, deixa no ar Pedro Duarte.
Já notificada pelo Tribunal Administrativo, a Marcha do Bairro Alto esquivou-se em revelar como vai testemunhar. Diplomaticamente, o coordenador Vitor Silva disse apenas que não vê problemas no atraso da premiação, pois não há uma data prevista no regulamento. “Estamos à espera da EGEAC”, finalizou.
A tradição ainda mexe com Lisboa
Aparentemente fora de voga, o bairrismo é evocado pelo presidente da EGEAC, Pedro Moreira, como um sinal de prestígio do prémio.
“Muitos dizem que as marchas já não mexem com as coletividades e essas situações, que são normais, já ocorreram antes, mostram o contrário. São um bom sinal, provam que o bairrismo se mantém vivo”, diz o presidente da EGEAC.
Apesar disso, Pedro Moreira reconhece que, num hipotético entendimento do Tribunal Administrativo em favor de Alfama, a EGEAC não veria problema em rever o resultado, independente do tempo que o processo levar. “Isso nos tribunais duram meses, anos. Mas se um dia for decidido o contrário, não há nada a fazer a não ser corrigir.”

Em Alfama, o bairrismo não é chamado para a discussão.
“Não fomos ao tribunal pela rivalidade com a marcha A, B ou C, mas pela EGEAC escusar-se em assumir um erro. Não é bairrismo, é legalidade. A Bica não tem culpa, e sim a EGEAC, que tomou uma decisão irresponsável e nos privou de nosso direito”, diz João Ramos.
Para em seguida deixar transparecer uma certa mágoa: “Mesmo um dia quando o tribunal tomar a decisão favorável a Alfama, isso não vai reparar o facto de, na madrugada do dia 13 de junho, os moradores de um bairro festejarem enquanto os de outro estarem cobertos de lágrimas.”
O 12 de junho já vai longe, mas o desfile das marchas ainda não terminou.

Álvaro Filho
Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.
✉ alvaro@amensagem.pt

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