Ilustração: Nuno Saraiva

O maior mal de Lisboa é que um gajo envelhece e continua novo. Pode parecer corrida contra o tempo, mas é mesmo derrota. Imagine-se o que é chegar aos 30 e ter vida de 18. É o destino de uma cidade que parece assentar em ouro em vez de terra.

Quem mora aqui é Peter Pan. Volta e meia, parece impossível que um jovem vire adulto, a coisa fica sempre lá ao longe. E, contra a cidade, é a própria juventude que envelhece – os 50 são os novos 25 e os jovens que ainda vivem com os pais já podiam ser avós.

Isto impressiona-me porque envelheci depressa. Nem em nova – deus me livre – cheguei a ser jovem. Sempre gostei da coisa anacrónica, de ouvir Aznavour quando se ouvia Britney, de usar cassetes quando se ouviam CDs, de ter um diskman quando se usava um mp4, de usar um mp3 quando toda a gente tinha iPad, de martelar na máquina de escrever em vez de num PC, de usar o YouTube quando já havia Spotify, de pagar a luz no multibanco ou o condomínio com duas notas dentro de um envelope, de ter telemóvel a preto e branco na era dos smartphones, de meter disquete em vez de pen, de andar com pen quando tudo tinha um disco rígido, e de usar o mesmo disco há mais de 15 anos, mesmo que agora exista a Cloud. Ora, em 2024, é preciso ser-se estóico para se ser analógico, mas é mais por preguiça que nado contra a maré. E sempre houve alguma coisa na ideia de juventude, ou na forma como é romanticamente apresentada, para que nunca tive paciência. Entre grupos de amigos, em vez de um amigo ou dois, e um taco de basebol a desfazer-me os dentes, venha o diabo e escolha. Não queiram beber copos com quem gosta de chazinho. Não falem do Bairro Alto a quem só quer o sossego de uma sala em tons de bege. E se me perguntam, aos 34, se sei o que é pólen, é certo que vou responder que são os grãos que as abelhas vão roubar às flores; se vir cocaína, confundo-a com bicarbonato de sódio; se me perguntam se experimentei cogumelos, falo de um risotto cuja receita vi num livro. A juventude meteu rastas, eu quis amaciadores. A juventude quis cortar o cordão umbilical, eu abracei a mãe e dei-lhe flores. A juventude julgou que era bué da nice curtir bué da cenas, eu preferi apreciar com a sofisticação de um Byron, e só não aliso o bigode porque sou uma menina. A juventude meteu-se com expressões em inglês e – mon Dieu – até me fugiu um rim para a cova. Tudo isto para dizer que eu estava melhor num lar de idosos.

Ilustração: Nuno Saraiva

O meu feitio não se coaduna, por isso, com a lentificação da juventude – com isso de ser novo durante demasiado tempo. Gente como eu vive no futuro. Antes de ser mãe, já eu queria ser avó. E qualquer coisa que atrase os planos é um atraso de vida. Ora, neste momento, Lisboa é um atraso de vida. Tenho 34 anos, embora ninguém me dê mais do que 25, e tenho vida de senhora de meia idade. Já a tenho desde os 25, altura em que ninguém me dava mais do que 19 – e a minha família nunca me deu mais do que 6. Pouca coisa me agrada mais do que andar a ver carpetes novas para a sala. E, por essa cidade fora, para a minha geração, sinto que a história se repete nos últimos 10 anos: tanta gente com quarto, tanta gente sem casa; tanta gente que até partilha quarto; tanta gente que partilha o dia-a-dia com a mãe; tanta gente que ficou num interregno, numa meia vida que tem sabor de coisa por crescer. Os jantares com amigos são fora de casa, porque a casa onde vivem não é deles. A decoração do quarto é antiga, comprada pelos pais nos anos 90. Se acabam por emigrar, tudo o que têm cabe numa mala. Nunca têm de se agarrar à posse de um frigorífico. Nem sequer têm contactos de empresas de mudanças porque nunca chega a ser preciso. E, mesmo cá dentro, vivem-se vidas de nómadas. Também nómada fui demasiado tempo, sempre com a malinha às costas, a usar a casa da mãe como biblioteca e armário, à procura de um lugar cujo valor da renda não me esfaqueasse a conta.

E vejo demasiada gente a ver ao longe a vida que não tem e queria ter. Algures na história, Lisboa acompanhou a tendência das capitais europeias – e depois suplantou-a. De fundos imobiliários a casas para inglês ver, de residências a turismo, a cidade transformou-se numa montra. O Tejo chamou quem vem de longe, e um quarto passou a render mais se arrendado por pouco tempo. Uma casa também. A RyanAir trouxe-os, depois trouxe-os Medina, e a seguir Moedas ajudou mais um bocado. Os lisboetas foram chutados para canto em detrimento de unicórnios. O pequeno comércio começou a sair derrotado por plástico. Um bolinho de bacalhau passou a iguaria, e o preço das iguarias sobe à flecha. O café, quando deu por si, já era latte. E o leite honesto passou a leite de amêndoa ou avelã. As esplanadas transformaram-se em praças de turistas e a cidade fez-se uma fúria sobrelotada de postais e máquinas fotográficas. Sair no centro de Lisboa só irrita, o ziguezague constante entorpece e o que era vida passou a ser miragem. O dia-a-dia transformou-se numa batalha apesar da confusão, e lisboeta e Lisboa passaram a ser faces em contraste. Um já não faz o outro. O outro já não sabe a casa de um. Anda-se por aí e pergunta-se: afinal, de quem raio é esta cidade? Por cá, quem vê ao longe a vida que tem sabor de futuro não deve conseguir evitar pensar, malgrado as rugas a encorrilhar a pele, que a vida nunca mais chega. O problema é mesmo já ter chegado e ser assim.

Ilustração: Nuno Saraiva

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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1 Comment

  1. Gosto do estilo.
    Estes pequenos textos, feitos com autenticidade por quem sabe, assim, prosa em estilo poético, fazem-nos reflectir sobre este mundo em que vivemos e sobre o nosso papel no meio disto tudo.

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