Lisboa… Todos falam em Lisboa, todos querem visitar Lisboa e, quiçá, viver e sentir Lisboa durante longos períodos de tempo. Vemos a capital de Portugal nas manchetes do mundo, nos últimos tempos, até várias vezes associada a uma cidade cara, onde não há espaço (nem, sobretudo, dinheiro) para se viver. Lisboa está a ficar cheia de expats, nomads e turistas com poder de compra que têm, de certo modo, agravado a acessibilidade (financeira) à habitação, mas também aos negócios de muitos – que também tem implicações sociais, económicas e culturais.
A gentrificação de negócios na cidade de Lisboa é um fenómeno que tem suscitado um debate aceso entre residentes, empresários e políticos. A transformação do tecido comercial lisboeta nas últimas duas décadas trouxe consigo uma série de vantagens, mas também de desvantagens, que precisam de ser cuidadosamente ponderadas.
A experiência de viver em Lisboa é variada: desde a arquitectura aos habitantes que cruzam a rua; nos cafés portugueses de “café curto e queimado”, como os estrangeiros o definem, e empregados que nos servem de forma pouco sorridente, mas eficiente, sem esperar gorjeta.
E essa é a cidade que também se vai perdendo… não só a dos turistas a olharem para outros turistas, enquanto passeiam, ou de uma janela para a outra dos alojamentos locais, mas também a cidade da escassez de um tecido de negócios local, feito de estabelecimentos de bairro.
Em vez disso, temos negócios como lojas, restaurantes e cafés geridos por estrangeiros, com empregados poliglotas, que às vezes só não falam português, onde se serve azeite espanhol e vinho francês, o que para qualquer português soa a heresia.
É certo que, por um lado, a gentrificação comercial em Lisboa revitalizou áreas degradadas, atraindo investimentos significativos e melhorando a infraestrutura urbana. Bairros como o Cais do Sodré e a Baixa Pombalina passaram por uma verdadeira metamorfose, tornando-se zonas vibrantes e cosmopolitas, repletas de novos negócios, que vão desde restaurantes gourmet a lojas de design e hotéis boutique.
No entanto, este processo também trouxe desafios consideráveis. A substituição de negócios tradicionais por empreendimentos voltados para um público mais abastado e, quase sempre, estrangeiro, tem gerado um sentimento de perda de identidade entre os lisboetas. As tabernas e lojas centenárias que faziam parte do património cultural da cidade estão a ser gradualmente substituídas por estabelecimentos que muitas vezes ignoram a história e a essência local, em favor de uma estética globalizada e impessoal. Este fenómeno, além de desfigurar a paisagem cultural de Lisboa, contribui para a alienação dos residentes de longa data, que se vêem deslocados tanto física quanto emocionalmente.
Tenho investido os últimos anos na frente de duas organizações que apoiaram mais de 150 microempreendedores de todo o país. Só nos últimos meses, seis vieram ter comigo, perguntando se não conhecia um espaço em Lisboa a um preço acessível que pudessem utilizar.
A subida exponencial das rendas comerciais está a tornar inviável a sobrevivência ou sequer o nascimento destes negócios. Os comerciantes locais, incapazes de competir com grandes cadeias internacionais e novos investidores, são forçados a fechar as portas, o que leva à homogeneização do comércio e à perda de diversidade. A exclusão económica que resulta desta dinâmica acentua as desigualdades sociais, ao mesmo tempo que transforma os bairros em espaços elitizados e inacessíveis para muitos lisboetas.
Este não é o único desafio que enfrentam: a burocracia, a falta de financiamento, a dificuldade em construir uma rede de fornecedores e clientes segura… é só mais um desafio para somar aos restantes.
É clichê, mas é uma missão que não podemos perder: é imperativo que as autoridades municipais e os agentes económicos tomem medidas para equilibrar o desenvolvimento comercial com a preservação da identidade local.
O processo do turismo costuma passar por algumas fases. Sabemos onde estamos e o que nos espera? Na maioria das vezes, o que parece ser bom a curto prazo pode comprometer gerações a médio-longo prazo e acabar com o carácter que tornou Lisboa apaixonante, transformando-a numa atração turística para despedidas de solteiro.
A implementação de políticas que incentivem a permanência de negócios tradicionais, como os subsídios às rendas e o apoio à modernização sem perda de caráter, é essencial. Além disso, um planeamento urbano mais inclusivo, que considere as necessidades de todos os residentes, pode ajudar a mitigar os efeitos negativos da gentrificação.
Acredito que há a possibilidade de conciliar os dois mundos, mas tem de ser inaugurada uma discussão mais séria sobre o problema – porque é um problema! Só assim Lisboa poderá crescer de maneira sustentável, sem sacrificar a sua alma única e vibrante.
Falar apenas de unicórnios não cria um mundo mais cor-de-rosa, nem muito menos ajuda o tecido empresarial local a sobreviver.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

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