Ao entrar na loja do sapateiro de Jorge Brito, estranha-se que o primeiro tema a surgir seja a maternidade de orquídeas que ali mantém. Numa pequena oficina aberta ao público no Centro Comercial Grande Galiza, em São João do Estoril, Jorge fala das orquídeas sem travão e corre-se o risco de deixar de ver os sapatos, casacos e as malas de pele em volta — o cenário típico de um sapateiro de bairro. Mas esta paixão súbita pelas orquídeas é apenas mais uma das invenções e reinvenções dele – e a mais recente anda a salvar o trabalho de estafetas da Grande Lisboa.
Aos consertos de sapatos, junta diariamente as sandálias rasas feitas de raiz, bijuterias em pele ou objetos em madeira. O negócio é comandado pela criatividade, mas também pela atenção ao que se passa à volta: tornou-se o homem que conserta as malas térmicas de entregadores de comida ao domicílio.



Quem se inscreve numa plataforma de entregas ao domicílio tem de ter a sua própria mala térmica (tal como o meio de transporte próprio e, no caso das motas, seguros). E, para algumas empresas, não pode ser qualquer mala térmica: há dimensões a cumprir e é preciso provar que estão em bom estado. Cada uma custa entre 23 e 38 euros aproximadamente.
Keli Benevides lembra-se de custarem por volta de 40 euros, durante a pandemia, quando o negócio estava em alta. Começou a trabalhar como estafeta em 2020 e assim continuou por dois anos e meio. Mesmo com os gastos com a mota, a mochila, e as taxas cobradas pelas plataformas, o trabalho na zona da linha de Cascais compensava.
Com dezenas de entregas por dia, os fechos das malas vergavam mais do que os próprios estafetas. “Fechávamos e abríamos os zippers milhares de vezes por dia”, recorda, “quebravam com facilidade mas o resto da mala continuava boa“.
É aqui que entra Jorge Brito.

Sobreviver à pandemia com zippers estragados
Apesar do círculo de consumo contemporâneo de compra-estraga-deita fora, Keli, o estafeta, achou que valeria a pena tentar um arranjo por 10 euros e adiar uma nova compra. Uma amiga, também ela estafeta, deu-lhe o contacto de Jorge, que por essa altura já era bem conhecido entre os entregadores da zona. Desde o primeiro confinamento que o sapateiro fazia estes arranjos.
“Vinha para aqui trabalhar, mas tínhamos de estar de luzes apagadas, porque não podíamos receber ninguém. Não tinha trabalho porque as pessoas não podiam sair de casa. Um dia, fui barrado três vezes em três rotundas diferentes.” Agora, dá-lhe para rir quando se lembra da situação.
Na época, percebeu que trabalhar para os poucos que andavam na rua era a forma de continuar a fazer dinheiro. Pôs um anúncio num dos grupos de estafetas do Facebook e começou a receber trabalho.
Durante a pandemia, as refeições entregues ao domicílio chegaram a representar 42% das compras feitas online, segundo a análise feita pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelo Eurostat. Depois da pandemia, os valores das entregas de refeições ou mercearias ao domicílio diminuíram e parecem ter estabilizado, mas Jorge Brito não largou esta competência adquirida.
Na sua máquina Singer, continua a fazer as costuras mais inacessíveis e resistentes em qualquer material. Em menos de meia hora, é capaz de mudar um fecho de uma mala de entregas ou arranjar alças partidas: não perder tempo é essencial para quem ganha tanto quanto o número de entregas que faz. “Conhecia os estafetas todos, de Cascais, do Estoril e até de Lisboa”, conta, confessando que já não aparecem tanto — a língua passou a ser uma barreira. “Às vezes ainda telefonam e falamos em inglês, mas depois não aparecem”, revela.
Teve que encontrar um novo público.
De sapateiro a artesão
Nascido há 60 anos no Monte Estoril, os pais acharam que precisava de um trabalho sentado, porque a poliomielite aos três meses deixou-lhe problemas de locomoção. Foi funcionário público e acabou por ir parar ao Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), onde começou a desenvolver as artes de sapateiro: primeiro os pequenos arranjos, mais tarde os pontos difíceis, os que ficam visíveis e precisam de ser bonitos. Aí surgiu o sonho de ter negócio próprio. E, depois de ser empregado numa loja do segundo piso do Centro Comercial Grande Galiza, conseguiu comprar a loja ao lado e estabelecer-se: o Sapateiro-Artesão Jorge Brito está aqui há mais de 30 anos.
“Apareciam aqui uns sapatos, umas sandálias mais simples. Diziam que eram feitos à mão e eu a arranjá-las comecei a ver que se calhar podia tentar fazê-las em pele”, conta.


Dos arranjos saltou para os sapatos feitos de raiz. Corta a pele com um design da sua cabeça, mais ou menos inspirado em outros, cose-a à palmilha, faz reforços, cola a sola. Sem formas nem medidas estandardizadas, os seus sapatos são simplesmente grandes, médios ou pequenos. Na Feira de Artesanato do Estoril (FIARTIL), quando lhe aparece um cliente para umas sandálias demasiado grandes, basta-lhe cortar na hora a sola pelo calcanhar e está feito mais um par à medida.
“Gosto de desafios, gosto muito de coisas difíceis e nas feiras de artesanato vamos vendo o que está na moda”, diz. “Há modelos que até só faço uma vez, mais para testar as minhas capacidades.”
Um dia e meio chega-lhe para fazer uns três ou quatro pares de sapatos rasos: com fitas à frente, fechadas como uma sabrina, com fitas que podem subir pela perna ou mais ao estilo Birkenstock, Jorge Brito vai experimentando tal como faz com os cintos personalizados ou os bibelots em madeira. “Está a ver aquilo ali ao fundo?”, diz orgulhoso, apontando para a obra na parede, uns discos de madeira decorativos emolduram um espelho. “Também fui eu que fiz.”

O prazer das coisas difíceis
“O Jorge faz um bocadinho de tudo”, explica Bárbara, uma amiga do sapateiro junto ao balcão da loja. Os pedidos para arranjos acumulam-se numa desorganização arrumada, juntamente com os seus sapatos artesanais. É neste escritório que se vai apalavrando, entre estes dois amigos e empresários, um novo negócio: sapatos lisos, básicos e confortáveis, que cliente um vai poder personalizar como quiser.
Bárbara faz malas em pele com os preceitos que aprendeu com correeiros — cheias de bolsos, carteiras e com espaço para tudo — e já tem o protótipo para estes sapatos personalizáveis. Jorge parece estar ainda a tentar imaginar esse produto do futuro, mas “vamos a isso, eu gosto é de coisas difíceis”.

A “UCI” de orquídeas
Enquanto a conversa corre, a atenção está toda nas plantas: numa prateleira está a caixa de cartão onde inicia as germinações; na parede oposta, estão pequenos frascos selados com inícios de orquídeas lá dentro, todos juntos debaixo de uma lâmpada sempre acesa.
“É o UCI das plantas”, apresenta.
O mantra continua em repetição nesta loja de um Centro Comercial local, um pouco escuro, um pouco adormecido, e faz mais sentido toda a vez que Jorge Brito olha para o seu UCI das plantas. “O meu avô era um importante orquidário no Brasil”, diz Keli Benevides. “Em Sta. Catarina, no Brasil, há uma Festa das Flores importante e ele chegou a ganhar medalhas com a sua estufa, fazia cruzamento de espécies”, conta a cliente que, por causa das lembranças do avô, se tornou amiga deste orquidário autodidata, aprendiz no Youtube.
“Comecei a fazer germinação há dois anos, não sei porquê, porque gosto de tentar coisas difíceis”, ri-se com a repetição da ideia. “No início, meti um orquidário na janela de casa. Agora estou a tentar criar uma orquídea que não existia”, diz pegando num frasco selado, do tamanho de um iogurte. “Esta planta não existia”, repete, fascinado com o arbustinho verde lá dentro. “Só preciso de arranjar um jardim para plantar, a ver se ela vinga e consigo deixar o meu legado no mundo.”
E a solução encaminha-se, para quem sabe que não tem que escolher entre as plantas, as malas e os sapatos: a amiga Bárbara diz ter um jardim à disposição.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Parabéns por essa linda e inspiradora reportagem com Jorge Brito.
Gosto de histórias assim!
E talvez vá lá para arranjar o saco do meu carrinho de compras, de forma a prolongar a vida deste e evitar comprar um novo.