Foi numa campanha de crowdfunding digital, há quatro anos, que Vítor Sanches conseguiu concretizar um sonho antigo: a abertura de um atelier de serigrafia na Cova da Moura. Toda a angariação de fundos decorreu de forma digital. Algo que Vítor sempre soube foi que o bairro tinha muito mais a dizer ao mundo do que a maneira hostil com que era representado diariamente nos noticiários e nas redes sociais.

O estigma criado em relação ao lugar – normalmente associado à violência e à insegurança – não fazia jus à comunidade cheia de vida, cor e movimento que Vítor se habituou a ver desde que nasceu. Era preciso mostrar o cenário tal como ele era, com gente batalhadora que quer contar a própria história, que se reinventa e transforma as dificuldades em matéria-prima para a construção de algo novo.

Na Cova da Moura, nasceu a loja de Bazofo. Foto: Inês Leote

Assim surgiu a ideia de ilustrar em cartazes, panfletos, posters e t-shirts um pouco deste sentimento – e porque não vendê-los online em todos os cantos do mundo? O atelier foi financiado por apoiantes da campanha na internet, passou a oferecer oficinas, aluguer do espaço para artistas e ajuda na confecção de materiais para pequenos empreendimentos, com a intenção de dinamizar a economia local.

Parte deste trabalho já havia sido iniciado em 2015 com a inauguração de um loja online, a Bazofo, marca de roupas sustentáveis lançada por Vítor, com estampas desenhadas para honrar as origens da sua família, que também se assemelham às da Cova da Moura, região com o maior número de cabo-verdianos e descendentes em Portugal.

O crioulo, por exemplo, está presente em vários produtos e no tipo de linguagem escolhida para o site e as redes sociais – é provavelmente um dos mais bem desenhados. Segundo Vítor, esta é uma forma de aproximar parcerias e reafirmar as intenções do projeto. A palavra que dá nome à marca, Bazofo, vem do crioulo e, não por acaso, define alguém com estilo e atitude.

O site ficou mais inativo nos últimos tempos porque, segundo Vítor, “são muitos canais para alimentar. Eu acho que aquilo que está a bater é que se deve focar. Agora a minha cena é o Instagram e eu foco bem no Instagram”.

Como está escrito no site, “ ‘Bu sta bazofo!’ é o que se a alguém especialmente estiloso e fixe. essa expressão frequentemente na Cova da Moura. Não só porque a maioria de nós fala crioulo das ilhas, mas também porque há tantas pessoas estilosas aqui! Ser bazofo não é apenas uma questão de estilo e moda. Também faz parte da nossa cultura e, como tal, uma forma de celebrar nossa identidade e afirmar nossa presença.”

“Acho que é importante uma comunicação simples, que chegue a muitas pessoas”, explica Vítor. “Não vale a pena ter cenas que estão fora do alcance ou não são do circuito onde eu estou”, explica. Na verdade, quando se faz uma busca no google por Bazofo, as primeiras histórias que aparecem dizem respeito à marca de Vítor e à sua loja que, ainda que menos ativa, continua a contar histórias do bairro, e continua a ter bons resultados nas pesquisas.

Redes digitais que geram ações e convidam à mudança

O incentivo para investir na interação digital veio da companheira, a jornalista e tradutora finlandesa Anna Pöysä, que acompanha tudo desde o começo. É ela quem faz a maioria das fotos de divulgação e auxilia com os textos no Facebook e Instagram, onde reúnem milhares de seguidores.

As redes sociais, com a sua linguagem fácil, encurtam a distância e criam conexão com o público, que acompanha ativamente cada postagem. Embora entenda a força das redes para promover a marca, Anna lembra que o foco continua a estar na relação direta com a vizinhança e todos aqueles que acreditam na causa.

Há algo que considera essencial: “o contacto pessoal e as conversas na rua, nos mercados e nos eventos, que o Vítor e as pessoas com quem ele trabalha fazem”. “A Bazofo é mais do que uma peça de roupa. É sobre valores. É bem político”, diz Vítor.

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Para Vítor, a Bazofo também é um ato político. Foto: Catarina Ferreira

Valorizar a tradição com olhos para o futuro

O design das peças é definido com a ajuda de jovens da comunidade e a confecção fica a cargo das talentosas costureiras da zona, que veem no negócio uma oportunidade rara de reconhecimento. As inspirações para as estampas são as mais diversas. Uma delas é a “Fresquinha”, um tipo de gelado caseiro feito de sumo servido num saco plástico e que ilustra uma das principais criações da Bazofo.

A “Somada” é um modelo que homenageia uma localidade no interior da ilha de Santiago, em Cabo Verde. É também o título de uma música dos anos 80 de um famoso grupo de funaná da Cova da Moura, o Tulipa Negra. A “Penti Black” representa beleza, orgulho e empoderamento. E a “Manas”, por sua vez, foi dedicada às mulheres e à luta pela igualdade.

Todos os produtos são feitos com tintas à base de água que não contêm PVC ou metais pesados. As t-shirts são de algodão biológico e com selo da Fair Wear Foundation, uma organização independente que certifica as boas condições de trabalho nas empresas ligadas ao vestuário. O posicionamento é de resistência à chamada fast fashion, em que a roupa adquirida é rapidamente fabricada – e também descartada.

Arte para lidar com a realidade

Além das produções próprias, há espaço para encomendas externas e outras que são feitas especialmente para a militância. Nestas, o valor arrecadado é direcionado para causas sociais. As peças comercializadas com a imagem de Bruno Candé, por exemplo, têm o lucro revertido para a família do ator, assassinado em 2020 por motivações racistas.

As roupas estampadas com a imagem de Cláudia Simões destinam-se à amiga, que é residente da Amadora e acusa um agente da PSP de agressão. O caso foi parar nos tribunais, em quase todos os meios de comunicação e é um assunto que Vítor tem acompanhado com atenção nos últimos anos.

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Exemplar da t-shirt de Cláudia Simões. Foto: Catarina Ferreira

O fortalecimento da população negra de Lisboa, é para Vítor um desafio que passa pelo resgate da autoestima e o suporte à autonomia financeira. Prova disto foi a Dentu Zona, um projeto em que a Bazofo está inserida, mas que abrange o trabalho de muitos outros empreendedores culturais, como a artista plástica Aissatu Seidi, que comanda a Nómada Notebooks.

Ela cria e comercializa cadernos artesanais que usam referências de técnicas ancestrais na montagem das peças. E não só. Também dá oficinas, ajuda nas finanças, na produção e na comunicação do grupo. Esta última função, de acordo com a ativista, encontra no digital a possibilidade de expandir fronteiras e chegar a um público cada vez maior. “Temos o cuidado de trazer a linguagem das comunidades, mas também abrir para outras”, comenta.

As atividades incluem exposições, feiras, rodas de conversa, cineclube, venda de bijuterias, discos e jornais na pequena loja da rua 8 de Dezembro, ponto de encontro dos artistas do bairro. A livraria da Dentu Zona traz obras de autores negros ou sobre temas como feminismo e anti-racismo, sem esquecer do público infantil. Angela Davis, Djamila Ribeiro, Bell Hooks e Amílcar Cabral são alguns dos nomes mais procurados.

Trilhar o caminho, mas de mãos dadas

A parceria entre os vizinhos é algo que existe desde o início e é parte fundamental da identidade da Cova da Moura. “A minha zona foi construída através da entreajuda. Então é muito fixe resgatar isto outra vez, tentar dar ao pessoal a raiz. Tudo começou com pessoas a construir casas à noite. Hoje eras tu, ia te ajudar. Depois era eu”, relembra.

Esta cumplicidade ficou eternizada na t-shirt “Djunta mô”, um termo cabo-verdiano que significa literalmente “juntar as mãos”. A imagem mostra o cumprimento de Vítor e o amigo Zeca na altura em que trabalhavam na lavagem de carros e um projeto como o Dentu Zona parecia uma realidade distante.

O tempo provou que não e estava a um passo de encontrar aquela que seria a sua missão: dar cor e forma às reivindicações do seu povo, que a vida insistia em tornar invisíveis. Com o esforço conjunto, hoje  não são apenas vistas, mas também vestidas, sentidas e celebradas – e graças ao digital galgam as fronteiras do bairro.


Maíra Streit

*Nascida na Amazónia brasileira, Maíra Streit tem uma vida comprida para os seus 36 anos. Ao transgredir as próprias fronteiras, encontrou no jornalismo um território para a liberdade. Cultiva a sede de desvendar o mundo através do olhar do outro e tem um especial interesse por tudo o que acontece à margem das narrativas. Mergulha sempre que pode na cobertura dos direitos humanos porque sabe que, às vezes, é preciso partir-se para continuar inteira. More by Maíra Streit


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