Por trás de todo o grande escritor há sempre um grande leitor. E um dos pesos-pesados da literatura portuguesa e mundial, o poeta Fernando Pessoa, não fugiu à regra. Um hábito cultivado desde os tempos de estudante do colégio Durban High School, na África do Sul, quando um pequeno e dedicado Pessoa vencia os concursos académicos e exigia sempre como prémio livros e mais livros.

Nascia assim a biblioteca pessoal do adulto Fernando Pessoa, um acervo com mais de mil obras que, mais do que revelar o gosto literário do poeta, pode ser percorrido como o trilho da formação do escritor. E não só: revela os textos que inspiraram alguns dos heterónimos de Pessoa, como Álvaro de Campos e Alberto Caeiro… e de pré-heterónimos da primeira fase, ainda quando o português vivia na África do Sul.

Hoje uma biblioteca mais do que especial, considerada “o coração” da Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, a pulsar livre dos arqui-inimigos dos livros – a temperatura, a humidade e a luz – sob os cuidados da historiadora e documentalista Teresa Monteiro. Uma lisboeta que desde 2010 é também a “cardiologista” de um sistema circulatório feito de papel, percorrido por tinta.

Uma bibliotecária que circula por entre os livros de Pessoa com o escrutínio de uma cientista diante do microscópio, a observar minuciosamente a cadeia do ADN que constituiu um dos maiores nomes da literatura universal.

Teresa Monteiro e a biblioteca particular de Fernando Pessoa: livros que inspiraram o poeta e alguns dos seus heterónimos. Foto: Líbia Florentino.

“O Fernando Pessoa bebeu muito nos livros que leu. Num primeiro momento, as leituras estão muito coladas ao que lia e reproduzia imediatamente nos textos. Mas quando chegamos à fase dos três principais heterónimos, nota-se uma descolagem, uma produção própria, fruto do acúmulo de conhecimento”, explica Teresa.

A biblioteca particular de Fernando Pessoa é relativamente nova, surgiu após a grande renovação realizada entre 2018 e 2020 e não fica no sítio original. Antes, os livros de Fernando Pessoa eram enfileirados num outro andar da casa onde Pessoa viveu ao lado da mãe e da sobrinha, Manuela Nogueira. Numa estante ao lado da cama do poeta.

A bela estante, agora vazia no novo espaço, goza o merecido descanso do peso de suportar durante décadas os livros que inspiraram o poeta.

Uma biblioteca de vários Pessoas

A biblioteca particular de Pessoa – a na casa há uma outra biblioteca, com as versões dos livros do poeta traduzidas em vários idiomas – começou a ser formatada na infância do português. Mas, durante os anos, as assinaturas nas páginas internas denunciaram que os livros tinham também outros donos: os heterónimos e pré-heterónimos pessoanos.

Noutras (tantas) palavras, os livros adquiridos por Pessoa para a sua biblioteca tinham como fim não só servir de inspiração ao poeta, mas ajudar as criações dele, que como verdadeiros donos dos livros, deixavam claro a pertença impressa nas páginas, na forma de assinaturas e até de carimbos.

Casa Fernando Pessoa, Museu Campo de Ourique, Clara Riso
Prédio de três andares numa pacata rua de Campo de Ourique guarda as memórias do maior poeta português. Foto: Rita Ansone.

Mas, afinal, a biblioteca de Fernando Pessoa pertence a quantos “Pessoas”?

“É uma pergunta difícil. Temos pelo menos o Pessoa ortónimo, livros assinados por ele. Depois, temos a posse de pelo menos cinco pré-heterónimos, criados até 1910. Estão aqui incluídos também os livros que Pessoa ofereceu à mãe”, conta a bibliotecária.

Os presentes à mãe invariavelmente eram livros do escritor e poeta português Guerra Junqueiro, apresentado à Pessoa pelo seu tio Henrique Rosa, irmão do seu padrasto – uma literatura que nos anos 1910 influenciou o poeta no seu pendor anti-monárquico e também anti-clerical. 

Influência também exerceu o escritor norte-americano Walt Whitman, responsável por iluminar as ideias não de apenas um, mas de dois dos principais heterónimo pessoanos, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. 

O exemplar de Walt Withman que inspirou Alberto Caeiro e Álvaro de Campos e o livro de poemas de Omar Khayyam, o mais “rabiscado” da coleça6o. Foto: Líbia Florentino.

Das criações de Pessoa, é Alexander Search o leitor mais voraz. Pelo menos 25 livros da biblioteca particular são do pré-heterónimo criado em 1899, ainda quando o poeta vivia na África do Sul e para quem o próprio Pessoa costumava enviar e receber cartas. 

Alguns dos livros da biblioteca que pertencem a Search vêm não só com a assinatura que indica a posse, como trazem estampadas nas páginas o carimbo com as iniciais do também poeta: A.S.

Não se sabe, porém, se Alexander costumava emprestar os livros ao seu irmão, outra criação pessoana, Charles James Search.

Search junta-se a pelo menos outros quatro pré-heterónimos com livros nas estantes da biblioteca particular do seu criador, como David Merrick, leitor voraz do norte-americano Mark Twain, e Charles Robert Anon, escritor policial. 

“O caso do Anon é curioso. É importante lembrar que quando os heterónimos surgem é porque têm uma determinada tarefa e no universo pessoano nada é por acaso. Charles Robert Anon é convocado para escrever histórias de detetives e as assinaturas e anotações de Anon surgem nos livros de matemática, pois era através da lógica que iria desvendar os crimes”.

Elementar, caro Pessoa.

Fazer poesia nos livros dos outros

O apreço de Fernando Pessoa pelos livros reflete-se também na forma como o poeta cuidava dos seus exemplares.

Teresa aponta para um dos livros cujas páginas trazem os registos feitos pelo poeta: escritor nas páginas alheias. Foto: Líbia Florentino.

“Pessoa trouxe cerca de 30 livros da África do Sul e estão em excelente estado de conservação. E, até morrer, ele mudou pelo menos 16 vezes de casa, a levar e empacotar esses livros todos. E ele manteve-os assim, sempre em bom estado. É uma prova de que ele cuidava muito bem dos livros”, garante.

Cuidar dos livros, porém, não o impedia de usar as margens e entrelinhas para anotações do leitor Pessoa. 

“A começar pela assinatura, a dizer que o livro pertencia a ele ou alguns dos heterónimos e pré-heterónimos, passando por pequenas anotações de leitura, como chegar ao ponto de produzir grandes textos ou fazer traduções do livro que estava a ler”, reforça Teresa. 

O livro mais rabiscado por Pessoa é o Rubaiyat, de Omar Khayyam, o persa que dividia com o português três paixões: a poesia, a matemática e a astronomia. A edição é uma obra traduzida traduzida do inglês, tradução que Fernando Pessoa usou de fonte para uma tentativa de versão em português, feita a próprio punho.

Um dos livros de Pessoa que pode ser visto num outro espaço da Casa é uma edição original de Mensagem, o único livro editado em português pelo poeta (e que empresta ao nome à A Mensagem de Lisboa). No caso, as anotações do poeta servem para trocar o título da obra, antes pensada para se chamar Portugal.

Exemplar de “Mensagem” com a correção feita à punho por Fernando Pessoa: antes, o livro chamaria-se “Portugal”. Foto: Líbia Florentino.

Um tesouro a salvo dos perigos da água e da luz

Assim como os bebés precisam da penumbra para descansar, a biblioteca de Pessoa goza dos mesmos cuidados e passa a maior parte do dia no escuro, pois a luz representa um perigo maior até do que a água para o papel. “Se houver uma inundação, nós temos forma de secar. Mas a luz apaga tudo, mesmo, e muitas vezes é irrecuperável”, pontua. 

Para não correr o risco de passar uma borracha numa obra considerada Tesouro Nacional, a sala onde fica a biblioteca fica completamente no escuro quando não está a ser visitada e um sensor garante uma fraca iluminação à frio quando surge um visitante. 

No apagar e acender das luzes da sua apertada rotina, a bibliotecária Teresa também tem o seu lado leitora. Como todo o acervo da biblioteca particular de Fernando Pessoa está disponível online, ela costuma beber na mesma fonte dos livros que tem a missão de zelar.

“Vou lendo por razões profissionais, mas há algumas temáticas que me interessam. Como sou historiadora por formação, gosto mais dos livros deste tema, mas leio  também outros géneros”, revela. 

Com todos os cuidados e pormenores na obrigação de cuidar dos livros que inspiraram um dos maiores poetas em língua portuguesa, resta saber se ser a bibliotecária do Pessoa rima com muito trabalho.

“É, mesmo, muita responsabilidade. Mas também, pessoalmente e profissionalmente, é um orgulho.” 

Teresa Monteiro divide o grande trabalho de cuidar dos livros com o orgulho da missão. Foto: Líbia Florentino.

Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


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