Nas suas campanhas mais importantes, mas sem norma nem lei que o obriguem, a seleção portuguesa oferece-se um cognome ou alcunha. Os cabo-verdianos chamam “nominho” a esses títulos, coisa de usar ao peito e lá em casa (às vezes grande como um povo), para crescer connosco, em memórias e conversas, num misto de orgulho e carinho.
Então, este ano, temos cognome?
Antes, deixem-me dizer que este ano a Federação Portuguesa de Futebol, além das coisas logísticas e tático-técnicas, escolha de hotéis adequados e de quem trate das transições de dois para um e dos médios-ala… perdão, agora perdi-me… Ah, dizia eu que, este ano, a FPF tem cuidado do fogo que arde e não se vê. Por exemplo, levarmos uma camisola alternativa em forma de azulejo.
Como é possível irmos para uma exposição internacional, onde é muito provável acontecer a alguns dos nossos rapazes correr para uma câmara de tevê e mostrarem-se ao mundo batendo ao peito num bocado de pano, e nunca nos termos lembrado que esse pano bem poderia ser em azulejo. Arte preciosa, tão nossa. Esquecê-la seria como o Onassis convidar a ir lá a casa quem mais prezou e nunca ter pedido à Callas: “Maria, canta-lhes a Casta Diva.” Pois, lembrámo-nos!
Outro caso de atenção da FPF por coisas maiores aconteceu há dias, no jogo contra Irlanda, o último de preparação antes do Europeu. A equipa entrou, cada um com uma criança pela mão, como agora é hábito. Com o capitão ia uma menina numa cadeira de rodas. Cristiano Ronaldo servia-a com todas as atenções, mas a menina ignorava-o, esticava o pescoço, olhava à volta, toda contente na sua condição natural de ter o estádio aos seus pés.
Na condição de estádio, mero assistente de grandes acontecimentos, estive assim algumas vezes, contemplando um momento maior: a meio da década de 60, na seleção e no Benfica, Coluna, patrão e mestiço, mandava – notoriamente mandava – num mar de brancos. Caso único em toda a Europa. Ser adolescente e participar num momento natural de mudança – comover-me pelo sussurro do mundo a mudar, juro ter ouvido entre as bancadas: e pur si mueve – e ser velho e sentir o mesmo. Tem graça que seja entre uma coisa simples, no futebol, que talvez mais me tenha acontecido.
Ora, como a crónica dizia a abrir, há um costume não muito regular de dar um nominho, alcunha ou cognome às aventuras da seleção nacional pela Europa e o Mundo fora. Umas vezes com sucesso, “Magriços”, no Mundial de Inglaterra, 1966, outras meio fracasso, “Navegadores”, no Mundial da África do Sul…
É certo que este último exemplo correu mal, Bartolomeu Dias preferia não ter sido evocado numa prestação medíocre, em 2010, quando julgava já ter arrumado de vez com o Mostrengo, séculos antes. Mas não nos termos arriscado a batizar em 2014 com um nominho, impede-nos hoje de ter uma palavra-bandeira para chamar ao maior feito de sempre do futebol português, o Europeu de França.
“Chuta, caralho!”, disse um dia um espectador sadino, um Bocage certamente, inspirado em tantas tardes no Estádio do Bonfim, de Conceição, José Maria e Jacinto João, todos negros, que juntos se consubstanciaram e confundiram num só Eder, de chuto glorioso no Stade de France, arredores de Paris, 2016.
“Chuta, caralho!” – a poesia esteve sempre associada ao futebol português. A imagem ficou, pena é não ter havido a alcunha breve que introduza de forma breve o acontecimento nas conversas e na memória.
Acresce à sua importância e atualidade que o cognome da equipa, este ano, vai de si, digo eu: Os Camões. Não calhou o Europeu da Alemanha nas comemorações dos 500 Anos de Camões? Olha, e estava a menina a ser tão feliz e era o 10 de Junho, o dia do Camões. Ponham substantivos nisto. E passemos aos factos, esta equipa é feita por camões, 26 escolhidos, onze de cada vez, em equipa, Os Camões.
O cognome, ora proposto, Os Camões, começa por ser um pagamento justamente cobrado à FPF. É devido ao contraente Luís Vaz de Camões, a partir de agora denominado simplesmente Camões, pelo fornecimento de já dois cognomes à empresa FPF, acima citada. “Os Magriços”, 1966, e “Navegadores”, 2010, foram inventados e fabricados com minúcia e arte por Camões, na sua empresa Os Lusíadas.
Além de ressarcir dívidas antigas, a aquisição de nova alcunha garante que a equipa nacional se apresente agora na Alemanha com a marca de um poeta. Num palco que é pátria de Goethe e de Schiller pode ser forte vantagem.
Colar a denominação cultural Os Camões à nossa seleção não soa a artifício, o que pode ser explicado facilmente em rápidas conferências de Imprensa, folhetos e workshops sobre a genuinidade desta campanha portuguesa.
Desde logo, deve mostrar-se a simplicidade basilar da equipa. Isto não são comentadores políticos a fingir que privam com Marcelo, nem frequentadores da Gulbenkian a tossir nos concertos. Desde os guarda-redes, o Diogo é Costa e, outro, o Jorge, simples Sá, aos avançados, com um Francisco que, é Conceição, passando pela defesa, com um Gonçalo que é Inácio, e pelos médios, com um Bruno, que é Fernandes. Dos 26 convocados, só dois se armam um pouco ao pingarelho, o Dalot e o Matheus Nunes. Até há um António Silva, quando desde a década de 1940 nenhum outro artista ousa apresentar-se com nome tão trivial.
Mas depois de assinalar a convicção despretensiosa, há que dizer também que CR7, o mais famoso compatriota de Camões, por onde mais peregrinou (e sem mentir nos feitos, como Fernão Mendes Pinto) foi por Espanha (Real Madrid) e Inglaterra (Manchester United), dois campeonatos, não sem razão, também de dois outros talentosíssimos poetas, Cervantes e Shakespeare (ouçam-se as bancadas respetivas).
Coincidência extraordinária: os dois seriam enterrados no mesmo dia, 16 de abril de 1616, depois de passarem décadas a competir juntos, ao que se seguiram séculos com a dúvida “quem é o melhor poeta, Cervantes ou Shakespeare?”, frase tão batida como a questão eterna e universal entre Cristiano Ronaldo e Messi.
Incógnita que poderá este ano ser resolvida, pois nem um, nem outro dos poetas alinha pela equipa de Inglaterra (The Three Lions, Os Três Leões), ou na espanhola (La Roja, A Vermelha) – cujas alcunhas são meras descrições de símbolos no emblema e cor na camisola. Almas e táticas pouco elaboradas.
Os nossos vizinhos e os nossos mais velhos aliados, nenhum deles, pois, se apresenta no Europeu de 2024 com soneto, drama ou epopeia. O que torna fácil este prognóstico antes do fim do jogo e até do apito final deste Europeu: no Verão, Camões será o maior poeta em campo.
Preenchida a nossa aposta, continuemos a explicar a ligação natural entre o futebol e a poesia, que sustenta a única causa digna de ser gritada nas próximas semanas: “Vivam Os Camões!”
Por falar nisso, não só num soneto cada verso é um decassílabo, isto é, tem dez sílabas, trocando toques entre si, tornando a linha perfeita (o sonho de qualquer treinador), como também Os Lusíadas tem dez cantos. Isto já para não mencionar que o mesmo livro tem 8816 versos, uma enormidade só comparável aos 130 e tal golos em seleção e 900 e tal golos, em jogos de um dos personagens do poema épico que agora vai a cena na Alemanha.
Para perfazer o 11, basta somar-lhes o guardião. Aquele que zela exclusivamente, com regras diferentes, pela pureza das redes. Com estas abandalhadas, não há verso, decassílabo seja ele, quadra, soneto ou alma minha gentil que aguente. Mas com o guarda-redes chega-se ao 11, número cabalístico que basta enunciá-lo – “onze” – para se saber que falamos de futebol. Isto quanto às contas cruzadas entre o futebol e a poesia.
Uma precisão, porém. Ficou explicado que à equipa portuguesa se pode chamar Os Camões, graças aos argumentos aritméticos, históricos e poéticos apresentados. Outros países não tem a mesma sorte. Grande escritor e até praticante de futebol, o prémio Nobel Albert Camus não pode ser alcunha de seleção de futebol. Les Camus, Os Camus, não agrega uma equipa inteira, ele jogou só a guarda-redes.
Ao pouco que ele acrescentaria ao grupo, Camus era ainda de escolhas separatórias. Quis a vida que o fizesse dizer: “Entre a minha mãe e a Argélia, escolhi a minha mãe.” Filho de colonos, entre a sua mãe e a sua terra… Doloroso e comovente, mas impróprio para um mundo de festa.
Já Camões só traz vantagens: ele é homem do momento inicial em que o mundo completou o encontro. Ele testemunhou Lisboa, Marrocos, a ilha de Moçambique, Goa e Macau. O começo do mundo como um todo. Planisfério. Bola. Olha, o futebol, outra vez…
Esta é irrecusavelmente a equipa de Os Camões! Soa como campeões, mas essa é rima fácil e não queremos. Os nossos símbolos têm de ser ousados. Os Camões bebem nas palavras do capitão, ainda há pouco de muletas, mas já só aos saltinhos, a incitar o companheiro Moutinho a marcar um penâlti, em 2016: “Anda bater, anda! Tu bates bem!” Tal como hoje, Os Camões, entrando em campo a nadar com um só braço pelas tormentas do Europeu 2024 e a outra mão sempre erguida, preparada para segurar a Taça!
O que vos falta para gritar por Os Camões? O precursor usar uma pala num olho? Para isso já tenho um soneto, roubado a alguém ilustre.
Sai poema:
A um passo de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois, a bola trança
Feliz, entre seus pés — um pé de vento!
Num só transporte a multidão contrita
Em ato e morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende: Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!
Assina Vinicius de Moraes e tem por título O Anjo Das Pernas Tortas. Foi escrito, em 1962, em homenagem a Mané Garrincha e descreve uma realidade que apesar de quase impossível, um futebolista de pernas absolutamente tortas, não impediu que ele, bicampeão mundial, não conquistasse uma medalha maior. O cognome de Alegria do Povo.
E estão vocês a dizer que uma mera pala num olho, vos impede de torcer por Os Camões?!

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